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Cinco poemas | Jorge Vicente

Foto de Vivek Doshi na Unsplash

1.

 

ávida de vazio,

a  pele é um ponto de verdade

na transparência das águas. 

 

2.

 

tudo respira

no inundamento da linguagem

e dos fluidos menstruais,

 

saber atravessar a fronteira

é desenhar na cabeceira

a fome e a leveza

líquida das mãos.

 

(in Land art: inédito)

 

3.

 

não existe dualidade entre um pássaro

e uma tempestade

 

se abres a linguagem ao voo e ao relâmpago,

tens a leveza do mundo nos teus olhos de

trovão.

4.

 

caminho entre exorcismos de linguagem,

exercícios espirituais e poéticos,

um corpo dobrado na sombra mais alta,

 

caminho e não preciso da força motriz do pensamento,

apenas água pelos joelhos e um rosto que

me interpela,

 

sei que não tem a luminosidade de uma fábula, 

mas sabe saltar sobre as rochas com uma

leveza quase infantil.

 

5.

 

que o tempo responda de plenos vulcões às palavras:

não consigo dizer noite nem coragem nem ventos

nem marchas nem mar atravessado

por corpos reluzentes

 

trago o infinito dentro da mais solene esperança

mas o tempo ainda é incerto

apenas existe quando Cloto assim o permitir

 

o verde o azul o amor

o longo fio que tece e que treme e que é

vizinho da longa descida,

 

essas terras baixas que trago nos pássaros

e nas escamas.

 

(in Os ventos e as marchas: Urutau, 2025)

 

“Cinco_1: fotografia de Jorge Vicente. Fotógrafo: Ozias Filho.

Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas, participando, igualmente, nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem seis livros publicados, sendo o último Os ventos e as marchas (Urutau: 2025).

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