
RAZÕES PARA DEIXAR
Deixa-me sobrevoar os campos antes que a noite engula a vida.
Deixa-me escrever um testamento com todo o meu vazio.
Deixa-me cerrar sobre a jujubeira as pétalas da visão.
Deixa-me acender um fósforo na fogueira da voz.
Deixa-me alimentar o disentérico desejo de voo.
Deixa-me atender às necessidades do vício.
Deixa-me matar o bichinho da vingança.
Deixa-me beber do barril da violência.
Deixa-me derrubar o que vi nascer.
Deixa-me abater o que vi viver.
Deixa-me derramar o leite.
Deixa-me maldizê-lo,
Deixa-me chorá-lo;
Deixa-me.
— in Historiografia da Analepse (2021)
RAZÕES PARA SER UMA ÁRVORE, RAZÕES PARA NÃO
Eu queria escrever livros
para não morrer
sem deixar rasto.
O que eu queria mesmo
era ser
uma árvore, uma silva, um trevo,
porém não me atrevo: conheço bem
o magnetismo
que faz dançar o machado
nas mãos de um oportunista.
o saber deu-me medo
de ser floresta,
de virar alvo a abater.
Encadernado,
revisto,
espezinhado,
resignei-me
a ser
papel,
meu solo, a estante
bocas, minhas raízes,
meus ramos, reflexos,
insucessos, meu fruto
sem semente.
— in Historiografia da Analepse (2021)
INSTRUÇÕES PARA EVACUAR O PERÍMETRO DA DÚVIDA
Derruba a quarta parede.
Ali, encontrarás uma corda de caravela.
Ata-a em torno da memória e ergue as pernas
até seres uma magnólia a quarenta e cinco graus.
Quando aterrares no futuro, ouvirás um sino.
É o sinal para iniciares a conferência com a acácia.
Haja o que houver, não desligues a chamada.
Quando deixares de ouvir ruído,
estarás comigo
no paraíso.
— in Historiografia da Analepse (2021)
COMO FAZER AMEAÇAS
Todos de flor na lapela
com falinhas mansas
e eu a gritar
a torto e a direito
amigos
estou na ponto do promontório
sinto a maresia e o miasma nas narinas
uma insinuação insolente de pão
acabado de fazer
no forno a lenha
mas não há fogo que faça milagres
sem levedo,
destas mãos só saem subterfúgios
para enganar a barriga.
— inédito (2025)
DEMARCAR
Histeria
estrias
arritmias
ritmos pagãos
anciãos
leigos
lagoas repletas de
insectos
antepassados
nefilins
neófitos
genótipos de proveniência
duvidosa.
Há que remover as marcas
para demarcar
com giz
na ardósia
o original
do sósia
o homem
do mancebo
o remédio
do placebo
a sabedoria
da propaganda
quem lidera
de quem manda.
— inédito (2025)
Legenda “Cinco poemas_1”: fotografia de
André Pinto Teixeira, natural de Lisboa mas com forte ligação ao Japão, é poeta e tradutor japonês-português, trabalhando principalmente com obras literárias, de cinema e banda desenhada.
Em nome próprio, lançou contos em antologias e Historiografia da Analepse (2021), obra de poesia escrita durante sete anos de vivência em Tóquio e Niigata, e finalista do prémio literário Glória de Sant’Anna 2022.
Enquanto tradutor, deu voz, até à data, a autores como Seichō Matsumoto, Keigo Higashino e Asako Yuzuki, bem como os realizadores de cinema Hiroshi Shimizu e Tai Katō.
A sua grande paixão sem pendor profissional é a música.










