Cultura

Cardápio | Demétrio Panarotto

Acredito que seja uma obstinação do ser humano a vontade sempre latente de ser discípulo. Basta ver um pastor, um conceito, uma ideia, uma lorota, uma nova página na internet, um novo bar, uma teoria medonha de boteco qualquer ou uma supostamente elaborada que de prontidão o e a desconjuntado/a começa a seguir e passar vergonha aos quatro ventos. Sem delongas e com muito afeto, isso acontece na superficialidade da vida de carne e osso do mesmo jeito que na doença virtualmente aceita. O mundo segue em busca de um tutorial, coach, influencer digital, coisas que simplifiquem ainda mais o que já é simplório nas pessoas. Talvez isso nos revele muito sobre o mundo que nos cerca.

 

Sem saber como continha a euforia por ter recebido a notícia de um aumento de salário, Ângela – com horário marcado pra fazer o cabelo e as unhas, conseguido exatamente naquela horinha espremida logo após o expediente de trabalho e a necessidade de retornar pra casa – atravessou a faixa de segurança correndo pra pegar o Uber que havia parado do outro lado da rua. A moça, passando pela parte de trás do carro, ainda conferiu o modelo e a placa pra ver se eram os mesmos informados no celular. 

 

Entrou, sentou-se e cumprimentou o motorista chamando-o pelo nome – boa tarde, seu Delmiro (o “seu” foi para desde já estabelecer a distância necessária).

 

O rapaz retribuiu o cumprimento, certificou-se se o endereço estava correto –Rua das Bergamotas, nº 677, e, depois que a moça confirmou, partiu.

 

Em outro ponto da cidade, Sandro, um hard nerd hipster core nord nude, movimentava mais um dia corriqueiro de sua vida digital, vasculhando as redes sociais e retardando o máximo que podia a finalização do único trabalho que tinha para aquela semana (que se resumia à encomenda de um desenho provavelmente sem remuneração): ilustrar o conto de um amigo que conheceu há poucos meses em um curso de escrita criativa desses oferecidos a distância. Sandro, que morava em um pequeno apartamento no centro da cidade e que vivia com a grana enviada pelos pais, passou o dia nesse vaivém frustrado, repetindo os analgésicos do dia anterior.

 

Em comum, mas sem saber um do outro, os dois haviam marcado de ir com as amizades à noite numa lanchonete que havia inaugurado recentemente numa das ruas gourmetizadas da parte velha da cidade.

 

Esse tipo de acontecimento era corriqueiro no cardápio do povoado que, após o desenvolvimento acelerado da última década que fez a cidade mudar de ares, estufava o peito para se sentir grande.

 

Lanchonetes como essas, por sua vez, com nomes pomposos, abrem e fecham as portas praticamente todos os dias, umas duram um tempo maior, umas alguns poucos meses, umas agradam o público durante um bom tempo, outras não conseguem cair na graça dos clientes, outras ficam penando em busca de uma maneira de fazer com que o empreendimento minimamente pague as contas no final do mês. 

 

O fato é que a alegria da inauguração, para os clientes e para os donos, parece se desfazer depois de alguns poucos meses de funcionamento. No caso dos clientes, em razão de aparecer algo novo que precisa ser frequentado pra ser comentado nas rédeas sociais. No caso dos donos, uma mistura entre a euforia de ter o seu próprio negócio e a percepção efetiva de que o ramo exige alguns atributos a mais do que um simples desejo juvenil.

 

Quem nunca, numa mesa de boteco de um estabelecimento como esse, fez aquele cálculo básico (normalmente quando o bar está cheio e as pessoas estão aparentemente consumindo) de que, se cada mesa consumir tantos reais – isso juntando todas as mesas mais aquelas que atendem mais de um cliente na noite–, daria um montante x em dinheiro no final da noite e que isso multiplicado por tantos dias de funcionamento daria um lucro tal no final do mês. Aquela conta ligeira de quem não entende absolutamente nada do gerenciamento nem da contabilidade do negócio e fica deslumbrado facilmente com o olhar que percorre e inveja o espaço. 

 

O fato é que os dois iam se encontrar num desses espaços que fazem parte dos modismos de cada cidade, que as pessoas passam a seguir, a comentar e se encantam sem nem saber ao certo do que se trata e pra que realmente servem – o que importa nessas horas é frequentá-los. Reproduzem as fakes de que há um parecido em uma cidade maior ou mais importante e se sentem felizes de acompanhar a moda do mundo na reprodução enfadonha do mesmo.

 

A vida dos nossos dois personagens, pra não perder de vista a história, era de um contraste categórico:

 

De um lado Ângela, que, depois de ter trabalhado pesado o dia todo, ainda passou no salão, atualizou as fofocas, mostrou alguns vídeos e memes pras amigas e, após algumas boas risadas, já estava de volta a casa, indo de um lado para o outro entre o espelho do banheiro, o quarto, a sala, a cozinha, sempre com o celular a tiracolo para responder mensagens e mobilizar a parte mais demorada da vida.

 

Sandro, por sua vez, depois de um dia bisbilhotando a internet, stalkeando os perfis de algumas pessoas conhecidas, levantou-se, foi até o banheiro, olhou-se no espelho e, numa vontade de criar inimizades até com os fantasmas, percorreu a pequena distância até a cozinha para comer algo além de um salgadinho de pacote que havia comido já na metade da tarde.

 

Ângela, e era assim que suas amigas se referiam a ela, fazia o estilo tamancão. Ruidosa, não era difícil de identificar que e quando a moça estava chegando, pois quando chegava, chegava mesmo, uma espécie de ruído com fragrância, ritmo, rebolado e tudo mais que se tenha direito. Não se intimidava com os ambientes, cumprimentava as pessoas, mesmo aquelas que nem lembrava ao certo se conhecia ou não, e já se percebia à vontade.

 

Sandro, em outra monta, era pacato e de uma passividade estonteante. Se pudesse ser teletransportado de casa até os lugares aonde tinha que ir sem que precisasse passar pelos demais presentes no local – considerando que, para sair de casa, necessitava aprisionar todos os tipos de monstros que o acompanhavam desde a tenra idade –, seria essa a opção escolhida sem pestanejar. Era daqueles personagens que escondiam o pescoço dentro do corpo para passarem despercebidos e que, a contrapelo, eram notados em público pelo excesso de vontade de se esconder. 

 

Presa.

 

Não foi difícil identificar os dois entrando no local. 

 

De um lado, ela entrou no espaço trajando um vestidinho vermelho de alças, ligeiramente decotado no busto e com uma fenda na lateral esquerda da perna, sapatos de salto alto brancos, uma bolsa gelo, maquilagem, brincos de argola, batom (sim) vermelho, mascando chicletes. É óbvio que sabia que estava sendo notada e fazia questão de que todos os holofotes se colocassem sobre ela.

 

Do outro lado, ele entrou vestindo calças jeans enormes, dobradas nas barras próximas ao tênisAllStar com os cadarços desamarrados. As calças, mesmo com cinto, caíam na bunda. Uma camisa de manga curta por cima de outra camisa de manga longa, a de baixo preta e grandona, a de cima em outro tom de preto e mais apertada. O cabelo caindo sobre o rosto como se tentasse esconder algo. Sem fazer muito esforço, ia esbarrando nas pessoas e ficava envergonhado até de pedir desculpas.

 

Das mesas onde as amizades os esperavam, respectivamente, não foi difícil, cada qual a sua maneira, perceber que os dois haviam chegado.

 

Na mesa das amigas de Ângela, o burburinho e a sintonia com a personagem foram gerais:

 

– Lá vem ela! 

 

– Nossa, como tá poderosa de vermelho!

 

– Linda como sempre!

 

–Fiufiu…

 

Na mesa em que se encontravam os amigos de Sandro, a sintonia foi proporcional à intensidade dos movimentos do personagem:

 

–Shiiiiii, ô Sandro!

 

– Será que nos viu?

 

– Atrasado como nunca!

 

– Nem sei como conseguiu chegar aqui…

 

Como era de se esperar, pra um local que havia aberto as portas ao público não fazia muito, a casa estava lotada, gente pra tudo quanto é lado. 

 

As conversas dos clientes se sobrepunham a qualquer outro tipo de ruído que viesse da parte externa e criavam um chiado que fazia com que as pessoas aumentassem ainda mais as suas vozes.

 

Era um espaço amplo que se espraiava em direção aos fundos do estabelecimento e, como vocês já perceberam pela entrada triunfante de nossos queridos personagens, com duas entradas laterais. Ah, e um janelão que dava pra rua. 

 

A especialidade da casa eram os pastéis doces e salgados de vários sabores que já haviam conquistado os paladares dos mais agitados. Os elogios se estendiam, pois o ambiente oferecia, para acompanhar as delícias gastronômicas, mais de vinte torneiras de cervejas artesanais, a maioria da casa e as outras de cervejarias locais.

 

Os dois personagens, depois de atravessarem o salão, sentaram-se em mesas praticamente coladas uma à outra. 

 

Ela cumprimentou, com beijinhos, todas que estavam na mesa e se sentou fazendo sinal para o garçom.

 

Ele disse um oi moribundo pra geral e seria quase um contrassenso não dizer que se sentou se escondendo dentro das roupas que disfarçavam um pouco a sua magreza.

 

O ponto de encontro entre os dois foi o cardápio, corria de mão em mão e nunca chegava às mesas em que se encontravam.

 

Ela, em meio à euforia, dispersou.

 

Ele já havia chegado disperso.

 

A noite seguiu na mesma tormenta.

 

Ela pediu um pastel do mesmo sabor que uma das amigas havia pedido pelo simples fato de confiar no paladar rebuscado que a amiga tinha, sem ao menos prestar atenção na combinação do lanche.

 

Ele, após algumas tentativas de se comunicar com o garçom, que não surtiram efeito, comeu o pastel que deixaram a sua frente sobre a mesa. Um lanche que, na correria, foi entregue na mesa errada. 

 

Ela contribuiu para os ruídos.

 

Ele se escondeu nos fones de ouvidos.

 

Ela, depois de algumas cervejas e de ensaiar uns passinhos de dança, anunciou que precisava ir embora, pois tinha que levantar cedo e não podia se atrasar logo no primeiro dia após ter sido promovida.

 

Ele não bebeu nada, não disse uma palavra sequer, não se movimentou muito além do espaço que lhe era permitido, levantou-se e saiu do mesmo jeito que entrou. 

 

Ela, depois que estava distante da mesa, ainda mandou um tchau com as mãos.

 

Ele baixou a cabeça e sumiu.

 

Ao final da noite, os cardápios seguiam jogados sobre as mesas aguardando os clientes do próximo dia e reforçavam as especialidades da casa. Os donos do estabelecimento (mesmo com o bar funcionando há tão pouco tempo) já demonstravam preocupação diante dos murmúrios de que a concorrência estava de olho nas novidades gastronômicas da cidade.

 

Cardápio do Pastel de Merda

 

Sabores

 

Tradicional – merda, ovo, azeitona e salsinha.

Bacon – merda e bacon.

Milho – merda e milho.

Calabresa – merda e calabresa.

Calabresa com cebola – merda, calabresa e cebola.

Pizza – merda, presunto, queijo, tomate e orégano.

Capri – merda, mussarela de búfala, tomate e manjericão.

Napolitano – merda, queijo e tomate.

Parma – merda e ProsciuttodiParma.

4 queijos – merda, gorgonzola, provolone, parmesão e mussarela.

Palmito – merda e palmito.

Português – merda, presunto, queijo, cebola e ovo.

Mexicano – merda e chilli.

Capixaba – merda e coentro.

Da casa – merda, bacon, ervilha, milho, ovo e azeitona.

Merda – merda.

 

Doces

 

Três Amores – merda, morango e chocolate.

Banana – merda, banana e canela.

Chocolate Preto – merda e chocolate preto.

Chocolate Branco – merda e chocolate branco.

Floresta Negra – merda, chocolate preto e cereja.

Merengue – merda e merengue.

Califórnia – merda, pêssego, abacaxi e figo.

 

 

Demétrio Panarotto (1969 – ) nasceu em Chapecó SC. É um músico, compositor, pesquisador, professor e literato brasileiro. Paralelamente a uma carreira musical com a Banda Repolho e projetos alternativos, louvados pela sua originalidade e irreverência, desenvolve atividades como acadêmico, palestrante e escritor. Publicou vários livros de poesia e prosa que lhe valeram o reconhecimento como um dos nomes de destaque da nova literatura do estado de Santa Catarina.




Qual é a sua reação?

Gostei
3
Adorei
8
Sem certezas
0

Também pode gostar

Os comentários estão fechados.

More in:Cultura