
BOI MÁGICO
Imagina amigo João o boi parado no campo, o verso é o voltar do boi quando o arado chega ao fundo e tem de regressar, olhar-ponte com o mundo, o caminho de hálito quente ao voltar ao seu inverso. Olhar para trás como Orfeu. O boi não quer regressar. Visto de todos os lados o boi em campo / contra-campo e sem fim, porque para o boi não há o fim do campo. O campo é infinito. Com as quatro patas no chão o boi começa o seu caminho, atravessa os campos. Atravessa as montanhas. Chega às cidades litorais. O boi é mágico e interrompe o trânsito, onde o boi é os carros não passam, Para em frente às escolas, aos hospitais, nos lugares mais improváveis. Todos dizem “Eh boi!” mas o boi não se move. Parado nos semáforos, como numa revolução. “Parar é o que temos de mais revolucionário” (André Barata). O boi é paciente. Onde há chão o boi é e continua. O boi chega à praia, destrói os castelos de areia, afugenta os turistas, confunde a paisagem. O boi entra no mar. “Estranho país onde os bois lavram o mar” com o seu arado puxa o sargaço. Para fertilizar o campo. O chão que o boi pisou entra em delírio. Contagiado pelas patas lentas do boi o chão quente entra em febre, em convulsão e ondas o boi adentra-se no mar, espuma e sol misturados às patas do boi. Cheio de sargaço o boi continua até perder o pé, mas as patas continuam sem fundo no fundo o boi desaparece, o coração marinho do boi lavra o fundo do mar. Mas não acaba aqui a história sem fim do nosso boi. O boi continua irmão João para o boi não há o fim da história do boi e não há também o seu começo “ilusão alguma que uma coisa comece” (Fernando Pessoa), tudo se continua irmão João na história do nosso boi, em ondas fortes o caminho do boi. Espuma e sal misturado no delírio do boi o delírio do mar e o delírio do sol. A festa de um boi com as patas no chão. A festa do chão quando um boi quente o contagia. Quatro patas no chão, incómodo e em contramão, em contra-campo o coração do boi mágico: quatro patas no chão.
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O FUTUREIRO
Nesta terra o mar bebe-se melhor a martelo. Mar salgado, lágrimas de Portugal, a pulsão quente do mar-relâmpago nas fontes, gin quente que escorre pela cara, mar salgado e chão em espasmo, sargaceiro quente em febre para ganhar, gingal feliz do nosso pensamento, Portugal-Semente: O futureiro.
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O SONHO DO PÁSSARO SEM ASAS
Sem asas o pássaro não tinha fundo também o poço duplo e cheio de sol dentro do pássaro sem asas, da parte de um sonho, onde o amor todo acontece, sonhou um amor maior o novelo inteiro e sem fim de um fio de espuma e vida e acendimento dos dias, enrolado numa célula como um cão infinito, sobre si próprio, uma árvore de espuma e um caracol a sonhar para dentro sem asas o pássaro, amputado, foram-lhe pôr um coletinho. Um coletinho de pássaro. Mas sem asas o casaco e pássaro no chão, teceram-lhe asas as três tecedoras, asas de muitas cores e fios de lã, asas para voar num casaquinho de asas: o pássaro com próteses, aumentado e em expansão, o pássaro decidiu ficar no chão. Outras asas possíveis: asas de espuma ou âncoras no fundo mar, sementes que se adentram na terra para voar e cair, braços, mãos, dedos: num céu maior e em festa, a possibilidade de amar (Sonho desamputado e em expansão), pelo céu todo rasteja o chão em festa, o chão em febre e espasmo, o chão-a-subir e o chão-começo, o chão tornado canção: um Chão feliz.
Legenda: “Boi mágico, e outros contos_1”: Fotografia de Nuno Brito.
Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É Professor Visitante no Departamento de Línguas e Culturas Românicas da Universidade de Buffalo em Nova York e autor dos livros: Delírio Húngaro (2009), Antologia (2011), Crème de la Crème (2011), Duplo-Poço (2012), As abelhas produzem sol (2015), Estação de serviço em Mercúrio (2015), O Desenhador de Sóis (2017), Ode menina (2021), Escrever um Poema sobre a Liberdade e vê-lo arder (2022), e Olá Liberdade! (2025)










