
Uma das funções da poesia, entre infinitas outras, supondo que haja função nela, é propor uma renovação da língua e da linguagem que leve a um refrescamento de como se vê o mundo, de como ele pode ser percebido, de como pode ser interpretado. O poder sugestivo do verso, a ambiguidade intrínseca à interpretação, que faz da poesia algo singular na literatura (diferentemente de como o querem certos conti-nuadores de uma visão insossa), é uma das fronteiras a que uma nova vanguarda, um novo movimento, poderia almejar. Talvez seja o que os novos tempos clamem. E essas características, esses dispositivos, podem ser encontrados em elevado grau na nova poesia que vem do Equador na pena do importante poeta Victor Vimos.
Radicado (exilado?) nos Estados Unidos, Victor Vimos é um antropólogo intimamente conectado com a percepção de mundo andina. Uma de suas teses gira em torno da proximidade dos povos dos Andes com a paisagem montanhesca, dotada de vida, vista como um ser vivo e, por isso, sujeito de tradições, cultos e cantos. Isso se reflete em sua obra, a qual busca uma reinterpretação do mundo levando em consideração a visão dos povos originários e das volições populares de seu ambiente equatoriano e, mais abrangentemente, latino-americano. À parte disso, e porque latino-americano, sua poesia também tem como pano de fundo a memória das lutas populares contra os diversos governos autoritários que assolaram o continente na segunda metade do século XX. Essas lutas e a vida sob regimes ditatoriais foram imortalizadas em alguns dos maiores clássicos latino-americanos, como Eu, o Supremo do paraguaio Augusto Roa Bastos, El señor presidente do guatemalteca Miguel Ángel Asturias e Te dió miedo la sangre? do nicaraguense Sérgio Ramirez.
Em Victor Vimos, em sua coletânea Acta de fundación, de 2022, esse panorama histórico também está presente de maneira substancial. O livro é dedicado a Lázaro Condo, personagem que merece um excurso breve porque se tornou um dos símbolos da luta indígena antiditatorial, muito embora seja pouco conhecido fora do mundo literário – e obviamente social – falante de espanhol na América Latina.
Em 26 de setembro de 1974, o dirigente camponês Lázaro Condo foi assassinado pelas forças policiais e militares equatorianas em meio a uma disputa de terras no lote agrícola chamado “Almidón Pucará”, na comuna de Toctezinín, região do Chimborazo. Nela, muito em resposta a novas ordenações dos militares no poder, a teologia da libertação e a pedagogia do oprimido foram difundidas entre os indígenas camponeses como fontes para a tomada de consciência sobre a exploração sofrida pelos trabalhadores da terra. Assim, alguns movimentos surgiram. Entre eles, havia o Ecuarunari (Ecuador Runacunapac Riccharimui), organização indígena que atuava nas serras andinas equatorianas. Os indígenas participantes do movimento haviam ocupado um pedaço de uma fazenda improdutiva a fim de cultivá-la como resultado da Lei de Reforma Agrária de 1973 outorgada pela ditadura do general Rodríguez Lara (1972-1976). Parece paradoxal o fato de uma lei outorgada pelo regime ditatorial beneficiar os indígenas dos diversos movimentos, mas assim eles acreditaram no início. O regime buscava com a lei, porém, mesmo usando aquela nomenclatura, ter maior controle sobre os movimentos campesinos e certos latifundiários e propugnava uma “modernização” do campo imposta de cima para baixo. Após um primeiro dia tranquilo, por ocasião dos apelos da dona das terras, Amalia Merchán, que havia se negado a aceitar os termos da nova lei, no segundo dia a força policial da comuna cercou perto de cem indígenas que estavam fazendo a colheita e abriu fogo contra todos, matando o militante Lázaro Condo e Manuel Anahuarqui, um dos líderes do Ecuarunari. Lembro aqui a forma como um romancista como o equatoriano Jorge Icaza já retratava a situação dos indígenas camponeses no excepcional Huasipungo (1934).
Condo foi subsequentemente transformado em um símbolo e um líder espiritual na luta camponesa no Equador. Seus companheiros o retratavam como um rapaz agradável, genuíno, tranquilo (Condo Yumbo). Assim, mais do que retratar o indivíduo em si, sua simbolização vem a ser uma condensação de valores que auxiliam intelectualmente à causa camponesa, atualizada de forma a abarcar as novas reinvindicações dos movimentos e refletir o momento político atual. Lázaro Condo não foi inscrito na história oficial, que nem o menciona, mas se tornou uma figura de proa no que diz respeito ao movimento indígena equatoriano.
Victor Vimos, em seu livro de poesia, toma como fundamento a memória – já renovada – do símbolo que Condo se tornou e constrói seu universo discursivo lírico no qual as vozes se aglomeram e se fundem, de maneira que quem fala nos poemas de Acta de fundación não é propriamente nem o poeta Victor Vimos nem o líder Lázaro Condo. Essa mistura de vozes imprime um caráter amplo aos versos, que se abrem para a confluência de tradições, tanto as poéticas quanto as advindas dos movimentos populares, sejam políticos ou estéticos.
O movimento de Acta de fundación é o de rompimento, de quebra, que resulta em uma ampliação das possibilidades do fazer poético. Essa ampliação gera um conflito que aprofundará a crise que a ruptura instaura na poiésis. Clama-se uma transformação (“traduz / a semente”) da linguagem em outra, que superará a Guerra, a presa e o Ritmo, o primeiro e o terceiro tornados entidades de interpretação do mundo. Após esse movimento, os elementos da poesia coincidem entre si, criando uma nova linguagem.
Essa nova linguagem é materializada na poesia (“coloca a forma no centro da forma”) em “declarações de princípios”, os quais formam o centro irradiador da coletânea. A palavra, como para Drummond e Guimarães Rosa, é minério, metal raro, que deve ser cinzelado para que a forma volte a tomar corpo (“estilhaços com os quais outro construirá um horizonte”). Cria-se uma utopia representada pelo pai, “espinha dorsal”, pela mãe, “arranhando infinito”, e pelo filho, a “luz que faz luz no Nome”. No entanto, essa utopia ainda não é uma unidade, mas sim uma fragmentação, pois o Nome daquilo que virá ainda é a parte de um todo que se pretende atingir, ou seja, a utopia do reuso da palavra. Por fim, o Nome encarna em Corpo e dá início ao movimento criador, à própria noção de que a poesia, um “monumento”, como diria Horácio, é um ente vivo, como os Andes, que respira e tem uma vida orgânica. A junção desses fragmentos de utopias explode em ruído, um ruído novo, que “reclama o idioma da Totalidade Perdida”.
Esse ruído novo pode ser interpretado como a nova voz, a nova maneira de observar o mundo e retratá-lo esteticamente. A voz dos poemas de Acta de fundación é aglomerada, pois reproduz em seu seio, de maneira fragmentária, o seio da terra, simbolizada no amaranto dos poemas finais, e o seio intelectual da criação artística, em que a entidade da palavra, porque agora colocada em perspectiva histórica e cultural, cria um ruído diferente daquilo que veio antes. As palavras contêm dentro de si a semente da polissemia, dos significados multifacetados e, por isso mesmo, podem ser armadilhas. Criar o novo a partir do fragmento que almejará a totalidade utópica é a força criadora da poesia de Victor Vimos.
Em todo esse percurso tortuoso, e não sem conflitos, em que a palavra toma o centro da forma, enxergamos, a partir daquilo que deixou de existir somente na memória, como a de Lázaro Condo, o que resistirá contra a tirania dos que pretendem calar o canto da terra, o canto do indivíduo e o canto da sociedade.
Destruição de princípios: como se fosse o ruído
palavra é ruína no que avança
sílaba é ruína no que acumula
letra é ruína no que dura
Rafael Rocca dos Santos é pesquisador, tradutor e crítico literário. É graduado em português e alemão, mestre em teoria literária e literatura comparada (USP) e doutorando em romanística na Universidade de Leipzig (Alemanha). É editor da revista de cultura “Littera 7”











