Decidido a revelar-se, chegou com um ramo de jarros. Ele sabia que ela gostava de jarros e não hesitou ao escolher as flores. A florista afiançou que os jarros não são as flores indicadas para oferecer, pela primeira vez, a uma mulher. Ele sabia que os jarros seriam recebidos sem superstições, por uma mulher livre e capitã do seu próprio navio, uma extraordinária desobediente e pouco dada às convenções sociais.
Sorridente, a desobediente abriu-lhe a porta e recebeu o ramo de jarros brancos com alegria e cuidado.
-Consegues ler-me bem. – disse ela enquanto punha os jarros na jarra.
Ele sorriu confiante na vontade de não reprimir mais os seus sentimentos, mas o beijo lento de agradecimento na bochecha, os lábios dela em contacto direto com a pele do seu rosto, roubou-lhe a voz e soltou-lhe a ousadia do gesto. Abraçou-a com entrega, sem reservas respirou fundo como se todo o ar existente estivesse apenas entre os dois corpos. Os rostos aproximaram-se durante o abraço, os lábios encontraram-se quentes, quentes de céu no pico do verão e mar profundo em todos os sentidos.
Os jarros brancos foram corando com a revelação da paixão. Um rosa claro preencheu o branco, o rosa foi escurecendo até se exibir vermelho fogo. Os jarros flamejavam na jarra e os apaixonados tocavam-se com intensidade e doçura. Ofereceram-se um ao outro completamente e os jarros arderam como tochas iluminando a entrega líquida do casal incontestavelmente apaixonado.
Helena pousou a caneta e leu o texto que escreveu no seu caderno criativo. Escrever uma versão alternativa da realidade era um exercício prazeroso relativamente recente. Sem dia certo, todas as semanas escrevia um texto e aquele, dos jarros em chamas, foi o décimo primeiro. Os textos criativos ajudavam-na a compreender melhor a origem das suas inquietações e evitavam a formação de uma nuvem de mosquitos dentro da sua cabeça. Depois de ler o texto dos jarros, percebeu como era impossível continuar a negar o incêndio interior provocado pela nova paixão. Dois meses antes não anteviu a mudança emocional quando viu Raul, pela primeira vez, no Clube de Leitura.
Em carne viva, com muita insistência do seu melhor amigo, com quem partilhava os pensamentos mais tenebrosos e as alegrias de todos os tamanhos, Helena começou a frequentar o Clube de Leitura. O amigo soube antes dela como seria fundamental, no seu luto emocional, encontrar-se novamente com os livros e conhecer outras pessoas; também sabia que o ex-namorado de Helena era um trolha emocional. O amigo tinha razão e Helena assumiu, após o fim daquela relação asfixiante, a sua vulnerabilidade e insegurança; procurou ajuda profissional e iniciou um processo de terapia psicológica. Fora do consultório de psicologia, o Clube de Leitura era o prolongamento do seu reencontro consigo mesma e a reconquista da liberdade interior passava pela relação pacífica com os livros.
O ex-namorado não tinha hábitos de leitura e não se inibia de considerar a sua intimidade com os livros uma perda de tempo, uma dedicação absurda ao que não existe, àquilo que não se senta à mesa para comer e beber, a pensamentos delirantes de pessoas inadaptadas à realidade. Na segunda noite em que dormiram juntos em casa de Helena, quando a viu tocar no livro que estava na mesa de cabeceira, disse-lhe uma frase intrusiva, uma frase absorvida pelo cérebro dela como água suja retida numa esponja.
-Não vais ler agora, pois não?
Retraiu-se e pousou o livro com um sorriso nervoso.
-Claro que não. Estás aqui.
Satisfeito deitou-se ao lado dela e não a amou, possuiu-a com o orgulho inflamado de conseguir controlá-la e até sussurrou:
-Quero montar-te. És minha.
Aquela noite enfraqueceu a relação de Helena com os livros, ficou um espinho no seu pensamento e infectou-a. Passou a ler menos e nunca na presença dele, não deixava o livro que lia na mesa de cabeceira para não o melindrar. Sabia que ele tinha crescido numa casa apenas com os livros escolares; depois das aulas, perdia atrás do balcão do café dos pais a inocência da infância e a curiosidade da adolescência. Ele aprendeu que o sentido da vida consistia em realizar ações práticas com fins utilitários, jamais perder tempo com pensamentos de gente sem os conhecimentos da escola da vida, gente armada em intelectual a brincar ao faz-de-conta da sabedoria por falta de capacidades para ser verdadeiramente médico, advogado, arquiteto ou engenheiro. Helena quis acreditar na possibilidade de mudança, na expansão do horizonte mental dele e cega de paixão foi incapaz de perceber logicamente como o seu horizonte reduzia ao namorar com aquele homem. Para tentar compreender melhor a forma de pensar dele, passou a gastar mais tempo no Instagram: a meia hora diária derivou para algumas horas diárias e nas partilhas vãs dos reels tinha a ilusão de maior proximidade entre os seus interesses e os dele. Sem preocupações de conhecimento, ele queria apenas o Instagram para se entreter e ignorava os vídeos que exigissem reflexão política e social.
Helena não diminuiu apenas a sua relação com os livros, aceitou começar a usar os brincos mais discretos validados por ele, sair à rua sem batom vermelho mas com lábios pintados de rosa-claro, abdicar dos sapatos de salto alto e vestidos acima do joelho. O fim da relação aconteceu quando faltava pouco para completarem três anos de namoro. Por motivos profissionais, o namorado abafador não podia acompanhá-la ao aniversário do melhor amigo. Incomodado com a possibilidade de Helena ir sem ele à festa, demonstrou a sua insatisfação – havia muitas tentações capazes de a perturbar sem a defesa pessoal dele. Helena nunca tinha faltado a uma festa de aniversário do seu melhor amigo e, desta vez, ignorou a exigência velada de preocupação. Furioso, viu as fotos da festa no Instagram e não esperou quinze minutos para se envolver com a colega de trabalho com quem trocava mensagens picantes há várias semanas. Sem o conhecimento da colega, filmou o envolvimento sexual explícito no escritório da imobiliária e Helena recebeu por WhatsApp a parte mais escabrosa do vídeo com a legenda “Não preciso mais de ti. Vai lá ser galdéria nas festas do teu amiguinho.”. Ao abrir o vídeo Helena sentiu-se enojada, vomitou, bloqueou-o imediatamente em todas as redes sociais e percebeu o quanto se anulara para viver o impensável numa relação sustentada pelo prazer da intensa cumplicidade sexual. Na adolescência tinha sido vista como o patinho feio, chegou à idade adulta a duvidar da possibilidade de cativar um homem e pensava ser indigna de atenção. Aquele homem abafador fê-la sentir-se bonita e desejada; o fim do namoro revelou a importância de ser respeitada.
Entre o fim da relação tóxica e o texto dos jarros em chamas, passou um ano e três meses. Foi o tempo de uma complexa metamorfose dedicada à cura interior e ao distanciamento do ruído provocado pelo caos emocional de uma relação sem generosidade. Percebeu que a sua fragilidade interior tinha a raiz nas constantes comparações depreciativas com a sua irmã, inegavelmente a filha preferida dos pais: a mais bonita, a mais inteligente, a mais sociável e assertiva. Temia não estar suficientemente fortalecida para se apaixonar, mas já estava apaixonada e queria aceitar sem medo o sentimento.
O Clube de Leitura era heterogéneo a nível de idades e interesses literários. Os encontros aconteciam no bar-livraria Sibila sem pré-definição de livro, de autor ou tema obrigatório. Na sua estreia Helena apareceu na companhia do seu melhor amigo, gostou muito do ambiente, ouviu falar sobre livros que ainda não tinha lido e alguns leu-os posteriormente. As trocas de ideias reavivam a matriz dos seus valores morais, indicavam-lhe a possibilidade de criar novos hábitos e cinzelavam-lhe outra faceta. A ideia de escrever textos criativos surgiu durante o encontro onde foi apresentado um livro sobre a História da escrita. Escrever os textos e lê-los em voz alta permitia confrontar-se sem temor com as sombras pesadas do passado e clarificar os assombros do presente.
Raul chegou ao Clube de Leitura depois de ver o anúncio dos encontros literários no cartaz colado à entrada da Sibila. Ele apresentou entusiasmado um guia de conhecimento espiritual. Ao ouvi-lo apresentar o livro, Helena nada comentou – o cumprimento educado e neutro foi a única troca de palavras possível entre ambos. Helena considerava aquele tipo de livros pastilhas elásticas mentais, sendo os seus autores gurus autoproclamados e autocentrados na sua experiência pessoal, sem fundamentos psicológicos ou filosóficos. Também considerava que os seguidores daquelas sugestões de centrifugadora comportamental, se muito agarrados ao alinhamento proposto, poderiam afunilar a visão sobre si e sobre os outros por recearem perder o controle se infringissem as orientações do guia. Saiu do encontro de leitura sem vontade de voltar a ver o Raul, mas dias depois viu-o à distância na rua e mudou de passeio evitando o cruzamento, situação que se repetiu na semana seguinte ao dirigir-se a uma pastelaria e não entrou ao vê-lo entrar primeiro.
Os encontros do Clube de Leitura eram mensais e nesse contexto voltou a encontrá-lo. Perdeu as certezas primárias sobre o perfil de Raul quando ele apresentou Macbeth e explicou o modo como o livro o ajudava a observar com uma lente mais incisiva os espetáculos que via. Tinha lido a peça em voz alta e percebeu que o impacto emocional das falas das personagens era superior quando verbalizadas. Helena não lera na íntegra nenhuma dramaturgia de Shakespeare, apenas algumas passagens motivada por tímida curiosidade. A apresentação entusiasmada espicaçou-lhe a vontade pela leitura de peças de teatro do consagrado autor inglês e começou por Hamlet. O seu desinteresse por Raul foi substituído por curiosidade – estava disponível para conhecê-lo.
Raul viu a frieza dissipar-se e percebeu a mudança. Aguardou um mês para voltar a encontrá-la, procurou várias vezes na memória o rosto bonito e o sorriso jovial, gostou do sentido de ironia e da segurança na argumentação. Helena tinha apresentado Cem Anos de Solidão, livro que ele queria ler e estava registrado na sua lista de futuras leituras. Ficou envolvido pela clareza de raciocínio e os seus conhecimentos históricos sobre a América Latina.
No segredo dos seus pensamentos, cada um saiu do encontro a querer uma oportunidade para conversar a sós e a oportunidade surgiu poucos dias depois. Sem combinar, sem conhecerem as preferências um do outro, foram na mesma noite jantar ao mesmo restaurante vegetariano. Igualmente surpreendidos e satisfeitos com a coincidência, sem planear, jantaram juntos e terminaram a noite a caminhar no parque da cidade. Recordaram memórias de infância: ambos tinham subido às árvores, em menino ele queria ser pássaro para voar sem limites e ela sonhou com uma casa na árvore mas só teve um baloiço na árvore em casa dos avós. Helena ficou a saber que Raul era fisioterapeuta, vivia naquela cidade há quatro meses e a mudança surgiu por causa do novo trabalho na recente clínica de reabilitação da cidade. Raul ficou a saber que Helena era natural daquela cidade e, tal como ele, sofria as consequências da inflação imobiliária – vivia sozinha num T0 arrendado. Conversaram sobre a relação atribulada com os pais. O pai dele tratava a mãe como se fosse uma criada; os pais dela viviam como dois estranhos sem ofensas, sem diálogo ou afecto. Perceberam que se compreendiam nas dores familiares. Também partilhavam a vontade de estarem menos tempo nas redes sociais, usufruir mais de espetáculos de dança e peças de teatro, conhecer paisagens naturais com a mochila às costas. A vontade de se conhecerem continuou por mensagens e, por essa via, ele convidou-a para uma caminhada numa Ecovia à beira rio e ela aceitou. Foi depois desse passeio que Helena escreveu o texto dos jarros em chamas e decidiu organizar uma noite de jogos de tabuleiro em sua casa.
Numa sexta à noite, o melhor amigo de Helena, uma amiga do trabalho e Raul apareceram para um convívio com petiscos e jogos de tabuleiro. Ela corou ao abrir a porta e ser presenteada por Raul com um vaso de antúrios vermelhos. A noite prolongou-se até à primeira hora da madrugada entre snacks, dados, conversa descontraída, copos, risos e cartas. Agradado com Raul, o melhor amigo enviou-lhe uma mensagem: não tenhas medo de te apaixonares. Os três convidados saíram ao mesmo tempo e a campainha tocou poucos minutos depois. No intercomunicador Helena ouviu a voz de Raul pedir desculpa pelo incómodo, mas esquecera-se duma coisa. Enquanto Raul subia pelo elevador, Helena procurava na sala algum objeto perdido, nada encontrou e um formigueiro espalhava-se dentro de si da barriga para o peito. Abriu-lhe a porta com um ligeiro tremor nas mãos com receio das suas próprias expectativas.
-Não me esqueci de nada. Quero dizer-te uma coisa. Não queria apaixonar-me, a paixão é uma grande distração e perturba o crescimento pessoal. Não consegui evitar, apaixonei-me por ti.
-Precisas de parar de ler livros de auto-ajuda. Acho que estás a ficar baralhado.
-Talvez. Não sei… Fui inconveniente? Queres que me vá embora?
-Calma. Diz o teu nome de trás para a frente. Lu…
-Luar.
-Seria bonito ter o Luar na sala e dançar devagar. Queres dançar comigo?
-Não sei dançar.
-Eu guio-te.
Raul entrou. Na sua Playlist Helena pôs a tocar “Oeste”, de Valter Lobo, aproximou-se, colocou os braços à volta do pescoço e sussurrou:
-Também estou apaixonada.
Abraçou-a com entrega, sem reservas respirou fundo como se todo o ar existente estivesse apenas entre os dois corpos. Os rostos aproximaram-se durante a dança lenta, os lábios encontraram-se quentes, quentes de céu no pico do verão e mar profundo em todos os sentidos. Apalparam-se muito, sentiram a tensão sexual crescer. Ele despiu a t-shirt e ela afastou-se.
-Por favor, para.
-Não me queres? – ficou atordoado.
-Quero, mas não assim. Não sei se amanhã vais pensar em mim como um desvio no teu autoconhecimento.
-Já estás no meu caminho. O que sinto por ti nunca tinha sentido. Quero passar a noite contigo.
-Podes dormir aqui. Só dormir.
-É melhor ir-me embora. Não vou conseguir dormir ao teu lado sem te beijar.
-Podes beijar e dormir.
Voltaram a abraçar-se, beijaram-se muito e aceitaram aquele pacto de pessoas assustadas com os seus próprios sentimentos. Helena acordou tranquila, sentiu-se segura por ter sido respeitada. Raul acordou estupefacto consigo mesmo por ter reprimido tanto o seu impulso sexual, algo que nunca tinha feito. Raul temia que Helena descobrisse a sua podridão, ao lado ela queria ser um homem diferente. Sabia que tinha abandonado a primeira namorada depois de conseguir convencê-la a perder a virgindade; não se esqueceu que numa certa noitada de copos se envolveu com duas amigas, uma engravidou e abortou, ele simplesmente ignorou-a; esbofeteou a última ex-namorada quando ela partiu acidentalmente o ecrã do telemóvel. Apesar de estar limpo há dois anos e meio, para diminuir a angústia tinha consumido vários tipos de drogas nesse passado relativamente próximo. Mesmo considerando ser um homem reabilitado, a sua bagagem pesada de descontrole e violência não deixava de lhe pertencer. O novo emprego, numa cidade a 400 km das suas origens, era uma forma de se proteger, distanciar dos julgamentos sociais que o perseguiam e permitir-se ser alguém capaz de respeitar os seus limites e os limites das outras pessoas. Ele admirava a cultura geral de Helena, a confiança na sua exposição de ideias, a alegria e a serenidade em público. Tinha um rosto bonito, um corpo excitante, cheirava bem e beijava com fogo. Decidiu que esperaria, sem insistir, pela entrega sexual plena e interpretou essa espera como um objetivo na sua capacidade de controlar pulsões negativas.
Helena estava maravilhada e incrédula com o comportamento de Raul. A possibilidade de abrandar as agitações interiores naquela espera acolhida por ele, a qual interpretou como respeito doce, fê-la sentir-se ancorada num porto seguro com caminho aberto para o banquete dos sumarentos e deliciosos frutos da vida. Ele não era castrador, era carinhoso, bom ouvinte e bem humorado, ao seu lado podia ler sem pensar que isso o diminuía, fazia excelentes massagens relaxantes e sensuais, era ótimo parceiro na gouinage. Apesar de preservarem o tempo a solo nos seus apartamentos, gostavam de dormir juntos e o apartamento dela era o lugar preferencial de sexta a domingo.
Dois meses depois do início do namoro, Helena organizou um fim de semana prolongado e reservou a pequena casa de montanha da sua família. A casa era de pedra e madeira, rodeada de árvores, sem casas vizinhas e vista privilegiada para o vale. Raul estava entusiasmado com a ida para um lugar isolado próprio para mentes estóicas e planeava fazer longas caminhadas. Acreditava que, ao namorar com Helena, a sua capacidade de autocontrolo escalou para um nível superior. Pensava no Raul do passado como um eu disforme, alguém de quem se desvinculou graças à renovação de caráter apenas possível ao lado da namorada carinhosa, atenta e boa conselheira. Imaginava-se no futuro a construir uma família com Helena, ter um ou dois filhos e ser pai amoroso como o seu pai nunca fora. Ascendia Helena ao pedestal da santidade moral: ela sabia apreciar o silêncio, não era mulher de mexericos, o rancor não cabia nas suas palavras e o seu olhar procurava as pinturas feitas pela Natureza no céu, na terra, nas águas e na lareira acesa. Engrandecia-se a pensar em si como o único homem capaz de a proteger de tipos podres como ele fora no passado.
No primeiro dia do fim de semana prolongado, caminharam até à cascata sem se cruzarem com outras pessoas. Raul acreditou tomar um banho redentor, num ritual privado de branqueamento da sua alma através da Natureza. Helena acreditou na certeza de ser amada por Raul e de poder amá-lo sem medo de degradação psicológica – a confiança cresceu e ocupou-a na totalidade. Nessa noite Helena vestiu-se com o traje de odalisca, apareceu a dançar na sala e Raul viu, na mulher que santificava, a aparição do feitiço imolador. Embriagou-se naquela dança com os véus a esvoaçar lentamente um a um. O desejo fálico manifestava-se em todos os poros, em todos os recantos da consciência e sentiu o fogo sexual pronto a cremar a sua convicção de autocontrolo. Ao tirar o último véu, Helena, sem saber, abriu a jaula do lobo voraz.
-Vem. Quero sentir-te dentro de mim.
Raul foi com passos largos, não se aproximou com o erotismo ardente e cauteloso que Helena esperava, aproximou-se com incêndio exacerbado e pornográfico. Raul colou Helena ao seu corpo com mãos firmes de posse, dedos de garras, beijos libertinos de sátiro, dentadas de vampiro e voluptuosidade de lobo-alfa. Inicialmente Helena gostou daquela intensidade como se fosse a concretização da fantasia erótica da bela e do monstro, mas ela não queria uma floresta a arder descontroladamente, ela queria o fogo da lareira quente sem caos devorador.
-Mais devagar, lobo. A noite é longa.
-Senão querias o lobo, não chamavas por ele.
O tom foi cavernoso, um tom que Helena desconhecia. Raul viu o medo no olhar, a sua adrenalina subiu – apenas queria penetrá-la sem restrições. Os ciúmes recalcados que sentia da simpatia dela oferecida às outras pessoas, da cumplicidade com o melhor amigo e da intimidade sexual com o ex-namorado, latejavam-lhe nas veias, estalavam na cabeça e faziam explodir a brutalidade da força física. Ignorou o pedido para parar e entrou selvagemente dentro de Helena impossibilitando-a de fugir. Foi bruto, foi cruel, fez o que quis. Ela gritou, chorou e só o vento a ouviu. Saciado Raul pôs-se de pé e ao vê-la tolhida no chão foi invadido por culpa tardia nada redentora. Ajoelhou-se ao lado dela, pediu-lhe perdão, jurou amá-la, jurou mais insistentemente não voltar a descontrolar-se daquela maneira. Helena tremia e chorava sem parar. Raul queria calar os gemidos e o choro, tapou-lhe a boca com uma mão e apertou-lhe a garganta com a outra. Os gemidos de dor e as lágrimas de horror cessaram. O corpo não estrebuchava com o coração parado.
-Acorda meu anjo. Acorda meu anjo….
Os cadáveres não acordam. Raul tapou o corpo de Helena com os véus e ligou para a polícia.
-Sou podre. Matei um anjo. Matei a minha namorada.
Deitou-se em conchinha abraçado ao corpo morto e esperou pela injusta justiça dos homens.
Cristina Silva escreve, representa e encena. Encontra a sua seiva e força vital na palavra escrita e na palavra interpretada. Quando escreve encontra caminhos de reflexão e libertação na desafiante tarefa que é viver.










