
Aqui-agora, consome-se a cabeça-opúncia pelo mênstruo da excripta a roçar conveções de imagens-palavras, arquitectando uma hifa ascógena por meio de uma mão-vitiligada de um arqueólogo-LAHAR
Ingerida a cabeça-opúncia pelo mênstruo da excripta, as hifas ascógenas perfuram os lobos parietais do excriptor com filamentos velozes de vidro e anéis estonteados pelas abrasaduras do mangue-seco. A massa encefálica sofre uma diagênese cirúrgica precoce, consolidando-se numa brecha sedimentar rica em fósseis lipídicos; a cabeça deixa de comunicar, excede-se acosmicamente, arrisca-se pelos espelhamentos reminiscentes, repete-se com escutas caóticas, assimila o vazio cristalino e o insensível labiríntico para se infinitizar nas traçaduras dos entretempos. Uma cabeça deforma-se ao ritmizar-se com o desconhecido, inactualiza-se, desumaniza-se, traduzindo o impossível com coexistências intuitivas pela vertigem do tempo da excripta. Rastrear elipses de uma tapeçaria primordial com pactos de excriptas a estranhar as joeiras das suas exsudações. Uma cabeça histeriza-se e chama pela inquietação do ancestral, caminhando para o vazio da estranheza entre a guerra esbulhadora do indecidível e uma falha assombrosa a arquitetar respiros com auspícios em desmanche. Uma cabeça ressoa nas voragens das distâncias, resvala, experimenta a bifurcação anorgânica do avesso, salta, oscila, estira linhas imemoriais com recomeços de sombras-lahars a exercitar o silêncio gérmico da excripta que se esgota, fratura e se dobra intempestivamente para flutuar nos jogos das ressonâncias indeterminadas. Uma cabeça persegue seu respiro cósmico no fundo do tempo com mapas de volteaduras das catástrofes a friccionar, a deslizar e a vibrar no inominável. Há uma oscilação da cabeça a alucinar a loucura, a moebizar-se com o informe da presença de outrem no fundo desumano e a capturar cruzamentos de palavras-imagens da excripta que se esquiva e ressurge espiralada pelos próprios vasculhos do olhar a olhar-se pelos paradoxos vertiginosos de uma reminiscência. Uma mão vitiligada foge de si mesma, encontra-se ao transbordar por todos os lados, vendo sanguineamente o indiscernível e metabolizando-se por meio do fracasso pulsátil e da duração do fascínio de uma súmula reverberante do fazer fazendo quiasmático. Uma cabeça hesita nos roseirais antigos e escapa pelos espelhamentos vertiginosos rés à infâmia, ao intolerável e às angulações da penumbra, esboçando tremulamente anáforas, perambulações e puzzles nos traumas aterrorizantes. Há ruínas aritméticas, combinações de brechas, gestos turbilhonares e rastros protiformes de fogo. Ecos caóticos de uma excripta, ao revolver percepções ínfimas do terror, e quelônios antropofágicos criam atalhos híbridos entre línguas interrompidas e pelos nomes esquecidos no refrão indecifrável de uma paramnésia. Há endereços desfeitos entre vozes irrefreáveis de uma testemunha desconhecida a escutar partos junto aos recomeços dos náufragos. Dizem: uma cabeça interdita desfaz-se e irrompe ao mostrar o desconhecido com náuseas sismógrafas a inflar-se de sangue dos signos críticos para atravessar os espaços intersticiais do horror. Aqui-agora: estremecimentos incontroláveis das palavras-imagens assimilam estilhaços constelares, anamorfoses, dilacerações pneumáticas e minúsculos caleidoscópios. Há esbarros e reviramentos de origens incoercíveis que se interpenetram no vir oblíquo à palavra, já com tropeços estrangeiros a atacar uma visão ofídica. Uma cabeça a decifrar, a traduzir e a estilizar sua desaparição ao ressexualizar a velocidade tremenda de uma gênese de um tempo dilatado pelas mutações musicais de uma excripta. Há audições crônicas de uma cabeça onde o olhar já não é seu; resta-lhe plenificar ondulantemente o vazio da excripta com espessuras intervalares a fazer da irrupção verbal o informe da carnagem, fragmentando-se obscuramente até ao deslize infinito do anómalo. Uma cabeça com hiatos indiscerníveis e coalizões rítmicas impulsiona-se à volta de vórtices de uma excripta com mudanças divulsionadas pelos feixes moleculares de uma consistência rítmica. Há extravios e acasos a dançar o incógnito através de um roubo expresso nomadamente. Há uma cabeça incapturável pelo infinito assimétrico e pelas contradições tricotadas entre golpeaduras da visão de um arqueólogo-lahar. Infindável linha excriptora em movimento olhante-abissal pela carne do inacabamento indefinido onde ressonâncias esguelhadas das palavras mergulham na natureza inédita de uma fronteira movente: há uma disseminação de crivos sombrios a dançar o sentido em recombinação alógica e contínua antes de uma mão vitiligada e antes de um dicionário cortar arquivos, fazendo do detalhe mais vibrátil uma saturação de lances improvisados. Múltiplos tempos da excripta alucinam cruelmente tudo o que os atravessa e percorre. Há uma cabeça pelo movimento catalítico a prismatizar-se com garimpagens larvares do caos. Macaréus de silêncios dos sintomas e sensações imprevistas suspendem o extravio, e uma cabeça se perde entre vozes andarilhas e hiâncias desvairadas para se transmutar com lapsos e acidentes de uma fala ádvena e lacunar.Dizem: cabeça de nuances e de atritos imprevisíveis pelo abandono extasiado da excripta, abrindo abruptamente inscrições e vestígios com plasticidades inconscientes: há lâminas crípticas e sombriamente cristalinas a deslocar o dilaceramento da excripta para a renúncia carnaz que, por vezes, antevê a fissura de imagens duplas, irradia-se, entrecruza-se, coalesce, coexiste e se entrega à demudança contraente e expansível de uma mão vitiligada para se desdobrar com sentidos velozmente aperiódicos. Uma excripta livra-se pela cabeça de um deus enlouquecido ao soltar a medula, o hálux e as falanges com opacidades riscadas a enviesar o espanto da eternidade na roçadura do inescrito. Outros dizem: pensar desmedidamente por meio de uma putrefação lexical que precipita carbonatos alveolares, apêndices ebulientes, embocaduras lucíferas e secreta esporos calcificados sobre os dentes incisivos das palavras. Cada sinapse sobrevivente, sitiada pelo avanço do micélio e freada por latências de teceduras biológicas, acende-se intermitentemente como um pirilampo marinho preso em resina fóssil e âmbar báltico. Nesse intervalo, as labaredas mais antigas das pálpebras, agora envolvidas e saturadas por corantes puros da histologia, mesclam-se numa membrana nictitante de queratina, limo, argila coloidal e limalha de ferro. O crânio greta-se segundo linhas de fractura tectónica com a pungência de um fundo levitante, onde a plaina da fome carrega uma fímbria de fôlegos orbitais e poeiras de meteorito. Um equívoco gástrico ondula na vasta rosácea do informe, a gravidade arde em arco elétrico e a lubricidade alcança o impossível, subindo pela respiração pneumática do torso por inventar. Despontam cladódios aculeados a fosforejar como intrusões filonianas transcorrentes, destinadas a adsorver vestígios esquecidos de um dialeto de areia, bílis e detritos de quartzo microcristalino. O arqueólogo-LAHAR, munido de escopros ultrassónicos e lentes de refração catódica, limpa as disjunções dos primeiros horizontes deste depósito incoercível. Com o pincel de cerdas de crómio, ele remove a poeira lixiviada, expondo a fossilização da sua derme como quem decifra um mapa metalúrgico. Através do visor de ampliação e do risco do imemorial, o arqueólogo-LAHAR testemunha a microquímica galvânica do soterramento: a mão vitiligada, outrora cinzel da desmesura e tensor delirante das caligrafias, desmorona-se sob o peso das próprias crostas cristalográficas e drusas de gesso formadas por epitaxia nos nós das articulações. Uma violenta oxidação processa-se desenfreadamente: exsudados celulares, ricos em cloretos e potássio, atacam as ligas ferrosas dos instrumentos adjacentes, gerando enlaces ferruginosos a bater nas bainhas dos tendões. Os canais medulares em iridescência e as cavidades ósseas convertem-se em lapiás de topografia cárstica: um labirinto de dolinas, poços e fendas de dissolução por onde escorrem lodos siliciosos, resíduos de mercúrio nativo e seiva metalúrgica densa. Os dedos meridionais, rígidos pela cimentação mineral e pelas ligas internas oxigenantes, já não agarram qualquer dicionário; ramificam-se, acardumados pelos haustórios parasitas que perfuram as lajes metamórficas dos batedouros da excripta, sugando a humidade residual de nebulosas mortiças. Por baixo, há látegos de cadafalsos verbais e paleofontes submetidas a altas pressões. É o arrasto bulbiforme da acromia: a carne abdica de todo o pigmento e melanina para se tornar espelho puro, uma respiração pelas lucernas sanguissedentas, um horizonte estratigráfico de extração extrema, uma placa de Petri perfeitamente estéril onde bactérias autotróficas e algas verde-azuladas desenham o mapa topográfico de uma geografia sem deuses, moldada por dobras anticlinais e sinclinais sob a fricção de eixos roscados. Dizem: colossais bexigas vitralizadas. Ao lado, ócios e cosmofonias a porejarem pelos vértices dos raptos das palavras. O arqueólogo-LAHAR recolhe amostras de fluido numa pipeta de quartzo. Escuta a oblação da gravidade junto aos guinchos dos mastros onde agulharias das solércias e das aleivosias despontam, adubadas pelas securas zodiacais. Sob análise espectrográfica, o líquido revela a demudança catabólica da linguagem em eletrólito. Do esputo negro de colossais moléculas gasosas erguem-se briozoários anarcas, colónias recifais empedernidas que devoram as bordas roídas da excripta diante de uma sanfona de repuxo mecânico, junto aos chocalhos feitos com cabaças circundadas por redes de contas de plástico, de vidro e de sementes. A sintaxe inteira arrebata-se, fende-se, liquefaz-se numa bacia de decantação limosa, onde as palavras quase isoladas flutuam como carcaças quitinosas de crustáceos submersos por fluxos de turbidez. As palavras-imagens, prenhes de córneas sanguíneas e humores vítreos em vias de mineralização, desprendem-se violentamente das frases e rastejam desabaladamente pelas fendas tigmonásticas da excripta, que mimetizam com precisão o encolhimento de argilas ressecadas pelos vincos da treda dos engenhos. Tudo converge inexoravelmente para a hiância necrófaga. Há um intermezzo folicular. Há um bebedouro com goelas migradoras. Há um silêncio absoluto e viscoso, mastigado por raspadeiras de ferro fundido e coroado pelo voo de camuflagem da última borboleta-folha. Esta exibe opacidades alaranjadas e amarelecidas nas asas coriáceas, que já apresentam planos nítidos de xistosidade e esfoliação física, vibrando azuladamente contra o fundo cinzento de piroclastos. Os globos oculares, saturados pelo acaso mutagénico da excripta, surgem contagiados pela plesiomorfia. A túnica externa partiu-se numa colmeia de facetas hexagonais: uma miríade de lentes de quartzo baço e calcite que já não filtram a luz, mas a quebram, segundo os planos de clivagem cristalina, em ângulos geométricos de icterícia. Aproximando o sensor de condutividade, o arqueólogo-LAHAR detecta impulsos elétricos residuais a circular pelos omatídeos. Há uma corrente gerada pelo contacto das exorbitâncias respiratórias entre a melanina destruída e as hematites infiltradas, agindo como uma pilha de óxido ferroso sobre restos de piracemas sazonais. Olhos-omatídeos espreitam, quase fixos, as sismonastias do rosto já zurzido por caneluras de atrito geológico e marcas de fresagens animistas. Cada lado do hexágono cristalino isola um pedaço fragmentado da mão vitiligada, levando-o a coexistir com vertigens em queima; alguns revelam o movimento flagelar dos bacilos em meio ao catabolismo celular, enquanto outros mostram a deformação progressiva das unhas em pinça, convertidas em ganchos de magnetita onde rebenta uma necrose por coagulação que perfura o próprio leito ungueal. O cordão visual faz-se proliferação fúngica petrificada por oligistos avermelhados e filamentos de níquel, projectando-se para fora das cavidades oculares. Outra visão com texturas porfíricas penetra profundamente nas diáclases da rocha encaixante, em busca das matrizes ocres da excripta. O arqueólogo-LAHAR estremece abruptamente e tenta documentar a intrusão das ferramentas na anatomia sedimentada contra monstruosas inocências. Sobre mosaicos hidráulicos encobertos por aluviões e acervos torrenciais, pulsam movimentos involuntários do crânio em deformação. Um toque gélido penetra a excripta juntamente com um instrumento de pinça feito de níquel e crómio já polidos de alto a baixo por golfadas de sal. Movido por mãos ocultas de cirurgiões e por uma máquina sem visão controlada por cames e cremalheiras, o ferro serrilhado rasga e dilata os ductos desconhecidos dos escorpiões verbais, que agora escavam o tecido da excripta como galerias de icnofósseis e furos de broca. A visão fez-se radícula de lâmina de metal e veneno destilado, abrindo carnações profundas e veios magmáticos pelo vazio do espaço textual. Por vezes, a ferramenta cirúrgica desvia-se do vetor de inserção, colidindo violentamente com a derrocada de um teto de gruta e com uma falha de empurrão. Ao nível do esbarro, o ferro cirúrgico precipita-se irrefreavelmente ao embater nas cisteínas da carne esfacelada, gerando microcristais de pirite amarelo-camurça que revestem a granulação da ferida. A ogiva do cinzel perfura a massa necrótica das ruínas verbais, extirpa a crosta espessa de ceratose e drena a linfa saturada por sementes tóxicas de jequiriti. O atrito violento do metal contra o tecido lapiás deflagra centelhas necróticas. Por vezes, incendeia com luzes cinabrinas os movimentos constelares acumulados no útero mais recôndito da excripta, ali retidos por uma camada impermeável de argila evaporítica. A leucodermia sangra. Há manchas esbranquiçadas e ásperas em descamação. Uma mão pela excripta alumia-se com tiras desidratadas como estolas de pergaminho putrefacto que mimetizam xistos argilosos em esfoliação fascial, desnudando a miologia profunda em necrose. Cordões fibrosos a falhar cruelmente com a delicadeza estriada do vidro salino, do hálito cetônico e de cabos de aço filamentares. Microscópicos matadouros da carne expressam-se impermanentemente pela saturação catabólica: as células sofrem exéreses espontâneas e lises severas, vertendo citoplasmas lutulentos nos confins da excripta, engrossando o depósito de sapropel no fundo da bacia sedimentar. Por vezes, o sangue arterial perde por completo o seu lampejo quimiotrófico; torna-se um pus visguento e acastanhado, um sedimento betuminoso embebido de óxidos nítricos, detritos celulares e gástrulas abortadas que borbulham num recipiente de transvazamento e nas lagunas salobras sob a sucção de bombas centrífugas de vácuo. O arqueólogo-LAHAR tenta calibrar errantemente o seu espectrómetro para registar uma composição isotópica: a carnagem da excripta em siderose. Desponta, por sob os tecidos moles, um esqueleto lignificado, um arcabouço híbrido de cálcio, celuloses, bauxitas e hulhas antropogénicas que se esfarelam e se convertem em piçarras ao primeiro sopro da Morpho cinzenta a sobrevoar os perfis pedológicos e os horizontes de fractura das excriptas. O desmoronamento molecular da excripta processa-se ao nível dos grânulos, das têmporas, dos corpúsculos, dos lisossomos, das membranas lipídicas e das redes cristalinas, onde ocorre uma advecção mineral átomo a átomo, caos a caos, desconhecido a desconhecido. As moléculas venenosas de abrina cruzam as membranas celulares por endocitose induzida, ligando-se cruelmente aos resíduos metabólicos da carne vitiligada, acelerando o processo de silicificação. A síntese proteica cessa abruptamente em todos os tecidos da cabeça-opúncia, gerando uma apoptose em cadeia que mimetiza a gangrena por coagulação lipídica entre matrizes detríticas e nódulos de calcite. O arqueólogo-LAHAR anota nos seus cadernos já com esquecimentos côncavos: a abrina actua aqui como um catalisador de petrificação, fixando a sílica amorfa nas águas lênticas. A excripta sofre clivagens chamejantes através de danos celulares. O lodo adensa-se. Enzimas de restauro despedaçam-se diante das esponjas da virologia e das subsidências. Dizem: fase de desbaste com arestas de corte entre britagens-marrons. A cutelaria e o embutimento da excripta rebrilham. Autólises sistémicas e liquefações apodrecidas ameaçam o afloramento da mão vitiligada onde lamelas verbais inundam batedouros de ofícios das vésperas como uma escorrência de fracções sílito-argilosas nas frestas de uma obsessão animal. Ainda existem ectoscopias desesperadas pelos suportes da matéria soldada ao leque extremo da cegueira. Palavras-imagens vazam estranhos fonemas guturais e os substantivos mais pesados se afundam na lama detritívora. Dizem: carcaças calcificadas de megafauna a soterrarem-se em turfeiras anaeróbias. Aqui-agora, verbos tumultuosos sofrem uma mutação degenerativa irreversível, abandonando o fundo das candeias para se tornarem em fósseis ocos pelos espíritos magnéticos das musas. Outros dizem: impressões carbonizadas e eixos gripados na escoadura da rocha. Uma excripta pelo caliche. A gramática dos dardos e das vértebras que sustentava a cabeça-opúncia e a mão vitiligada colapsa numa entropia terminal, transmutando-se em cisalhamento com leves soldagens a frio. A excripta demuda-se em estrato geológico mudo, crosta encarnecida, estéril e desértica de silício, calcedônia, feldspato, tramas térmicas e ossos fósseis que se acumulam à volta das raspagens cegas do tempo e da denudação eólica. Há uma paixão peristáltica com estacas subtis pelo cântico adiabático das bestas. O arqueólogo-LAHAR recua um passo e ganha vergonha, aguça a agonia, limpando a condensação da usinagem e corte do seu ecrã untado pelo carvão das palavras inexistentes. Diante de si, um silêncio mineral intransponível. Há escamas arqueadas. Há foices de espuma cáustica a bordar cartilagens impetuosas de quem tenta excriptar. Há falanges inteiras em processo acelerado de lapiasificação calcária, fundindo-se com o embasamento cristalino. Há assimétricas placas de vitiligo recobertas por uma crosta rígida de queratina a crescer entre escoriações micorrízicas e colónias de líquenes saxícolas sobre o zinco e o ferro. Despontam espirais faiscantes pelos grampos podres das palavras e uma visão esquarteja-se com o próprio maçarico. O fluxo sanguíneo periférico falha; os leitos ungueais, enegrecidos pela isquemia e pela infiltração de óxidos de manganês, embatem com violência nas gemas fúngicas que brotam sob a pele petrificada. A região cefálica dilata-se de forma atroz com o crescimento de latifólios, folhas carnosas e concreções nodulares junto às válvulas hidráulicas. Uma esclera a rasgar-se de cima a baixo com brilhos metálicos de galena e pirite revela o descolamento da retina sob a pressão de fluidos mineralizados. O tecido exânime da excripta, em plena autodigestão, tenta desesperadamente extrair o seu excesso vascular através de fístulas dos purgadores numa síntese espinhosa. Às vezes, os tecidos sanguíneos mais profundos encontram-se obstruídos por um coágulo siltoso espesso, arenoso e insolúvel, rés aos meridianos fulminantes de um espéculo cirúrgico que cedeu à fadiga da mão-vitiligada sob voltagens geológicas. À medida que o citoplasma lamacento seca, a gramática se fende diante da fricção inconsciente das membranas verbais e do calor febril dos edemas ectópicos: ressurreições abruptas e em escoamento instantâneo ameaçam triturar a mão vitiligada. Um cinzel-briNcoleur bloqueia a meio de um movimento de corte cirúrgico, caldeando-se à mesa de ladrilharia por meio de depósitos salinos, espeleotemas microscópicos, crostas de calcário, limaduras sumariadas e resíduos biliares. O excriptor-LAHAR, agora quase completamente cego devido à opacidade das suas lentes de quartzo e aos prismas desalinhados, torna-se parte de uma escultura monumental de ferro, de estratos consistentes e de bielas partidas diante da carugem vivaz de um virabrequim. O arqueólogo-LAHAR desliga os instrumentos de medição, recolhe as amostras de cisco e abandona a trincheira de escavação, deixando a excripta lacrada na sua matriz apodrecida. Uma cabeça ainda é vigiada pela poeira fina da calcificação vinda dos ossos lapiás, da erosão das lajes, do desgaste das talhadeiras, das trenas, das goivas e dos fragmentos sensilares que flutuam no ar estagnado como cinza vulcânica em suspensão perpétua.
In Obra Poética de Luís Serguilha
Luís Serguilha, poeta, ensaísta
Luís Serguilha nasceu em Portugal e nos últimos anos percorreu algumas geografias da América do Sul. É poeta, ensaísta e curador de arte ibero afro americana. Publicou 17 livros de poesia e ensaio: Kalahari, Plantar rosas na barbárie, Falar é morder uma epidemia, os esgrimistas de Á-peiron, Hamartía e ACTRIZ ACTRIZ – o Palco do Esquecimento e do Vazio são os títulos de alguns dos seus livros. Em 2022 publicou o 1 volume da sua obra poética no Brasil. Em 2024 e 2025, publicou os volumes 1 e 2 da obra poética em Portugal pelas Edições Húmus. Radicado no Recife, criou a estética batizada como Laharsismo, estudada em Universidades. Recebeu os prêmios Hermilo Borba Filho e Júlio Brandão ambos da área de Literatura. Tem sido convidado por institudos e várias universidades ibero-americanas para conversar e ministrar conferências sobre os seus ensaios-criativos, envolvidos por atractores estranhos, que atravessam corpo-arte-pensamento-poesia.










