
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura
Eugénio de Andrade, “Os Sulcos da sede”
Fernando Duarte, com o seu mais recente livro de poemas “Nos Confins de um Lapso”, vem dizer-nos que “uma língua é um lugar de sonho” (pág. 11) e “mais difícil que escrever é não ter a palavra inaudita presa ao silêncio de todas as coisas” (pág. 13).
Vivemos tempos de incompreensão, de opiniões formatadas, de raras reflexões e de reduzido espírito crítico. O poeta expõe a ferida de um mundo complexo, gritando que “a guerra (…) todas as guerras, reduzem-nos (…) obriga-nos a ser animais (…). Parámos de ser humanos” (pág. 15).
Este livro é livre e insubmisso, numa incessante busca pelo lugar incomum, do verso incomparável. Fernando Duarte neste seu “Nos Confins de um Lapso” procura no avesso dos textos a vereda única, respirando vocábulos inauditos, partido do quotidiano até tocar o inatingível, o impensável, o (quase) indizível.
O mais simples poema (…)/ será um verso
do tamanho do pó/ com a direcção azul do céu” (pág. 18)
Este livro não se compadece com o entendimento mediano, desafia a encontrar a sensibilidade na inadaptação, na paisagem interior desigual.
“Enquanto me balanço me distenso
espaço da verdade em quanto minto,
da corda que me enforca estou suspenso
à espera de pensar quanto não sinto”
Fernando Pinto Ribeiro, “O Cisne Submerso”
Ler “Nos Confins de um Lapso” é mergulhar no âmago de uma escrita de voo e solidão, da vida e morte, de silêncio e alarido, com “cítaras e espadas”, “amarga penumbra”, em “mutações germinais” e “névoa fúlgida”, “o cheiro amariscado da melancolia” entre “rochas de uma raiva uterina”, “concebe-se a amnésia da utopia” (pág. 12). “As palavras que se gostam/ sem saber como negar/ dos lábios dos olhos de certas pessoas” (pág. 23).
Fernando Duarte precipita-se num cenário asfixiante, turvo de teias, que nos transporta ao universo carnívoro e autofágico das pranchas de pesadelo de Moebius.
Cito Suso Sudón, jovem poeta de Salamanca, no seu livro “Para no existir” (“Los poetas existimos/ para no existir”) (pág. 1):
“He visto la sombra del abismo.
He visto la nada más absoluta- El miedo.
He rozado con la junta de la lengua la manzana envenenada.
He descuartizado la palabra desencanto.
Encanto. Des. Ese canto:”
Suso Sudón “Para no existir” (pág. 22)
A poesia de Fernando Duarte, particularmente esta poesia, surpreende-nos, enquanto espelho da humanidade e gérmen para um amanhã que se anseia diferente. Como um clarão prolongado onde a voz do poeta rasga a impossibilidade de viver acorrentado à convenção, ao rosto inadaptado, ao gesto medíocre.
Ler Fernando Duarte neste seu desempenho transumante é descodificar o que há para lá da sílaba, porque a riqueza da linguagem, a forma atordoante, foram conquistadas num laboratório de experiência diária, quase rinque de uma luta infindável. (“a amarga presença da penumbra” (pág. 52).
O autor escreve “a imortalidade secular do desacordo” (pág 16) “um carinho íntimo que é construído na contramão do vento” (pág. 10). E interroga-se “Como se pode, em tarde de tempestade invernal/saber das incertezas do acaso?” (pág. 29).
Os poetas reflectem a época e a sua circunstância, assim é com Miguel Rego em “Mar de um Tempo sem Âncoras”, com o qual termino, citando um excerto que vê a existência colectiva com um olhar semelhante à que se encontra em “Nos Confins de um Lapso”:
“Fragmentos de ocasos, enregelados, entorpecidos,
disformes, limitados no espaço pelo seu rasgar
perene de motores que cercam, como arame farpado,
os sonhos afogados na intrepidez dos dias”.
Bem Hajas, Fernando Duarte por testemunhares com uma singularidade ímpar este tempo em que se perdeu a escala humana e (quase) ninguém escuta o outro, o próximo, o seu semelhante. Talvez a maioria dos que não vão entender porque escreveste este “Nos Confins de um Lapso”…
Uma palavra final, de muito agrado, pela qualidade da edição. Ainda bem que existe a Urutau para dar voz a este poeta e à sua nova obra poética.
Luís Filipe Maçarico
Almada 1/11 Fevereiro 2024
Luís Filipe Maçarico (n. 1952, Évora). Vive em Almada.
Antropólogo, licenciado pela UNL e mestre pelo ISCTE e pela universidade do Algarve/Campo Arqueológico de Mértola. Activista e estudioso do património popular e do associativismo (destaque do seu empenhamento na Casa do Alentejo, no GDE “os Combatentes”, na direcção Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto e da Associação Aldraba).
Poeta, escritor, ensaísta, articulista e biógrafo, ao longo de mais de cinquenta anos, é na poesia que mais tem focado a produção literária. Autor de 26 livros poesia e uma Antologia (1973-2019), de três livros infantis, biografias e histórias de vida, inúmeros artigos técnicos, científicos e ensaios na área da antropologia e património, e também da literatura.










