Cultura

Anonimata | Maria Adelina Amorim

Foto de Zoltan Tasi na Unsplash

nunca um espaço vazio foi assim

 

tão habitado

 

acnum os anjos entraram assim tão sós

nas portas da cidade

 

nunca tantos justos, tantos pecadores, comeram assim do mesmo pão

acnum uma guerra partilhou assim os mesmos paióis

nunca as sentinelas honraram tanto a mesma doença

acnum as mãos lavaram assim os males da terra

nunca o ar assim

 

tão falto, tão rarefeito acnum implorado, assim o nome da respiração

nunca a memória, o tempo do náufrago, assim pronunciados

acnum tanta nudez, antes do sono antes do fim

nunca assim o medo

 

a alucinação, a ocupação lenta da razão

acnum a morte tão só, tanta ausência tanta solidão

nunca tanta morte servida, assim

 

à mesa, na casa, na cama, no chão

 

acnum tão funda a marca da dor

 

na pele, na afeição

 

nunca tanto as paredes da casa foram assim o desespero das ruas

 

acnum tanto despojo, tanto grito, tanta morte assim

 

anonimata

 

nunca tão vasto, assim

 

o combate entre o homem e a sua invisibilidade

 

acnum a natureza, deus e os homens se confrontaram, assim

 

tão desiguais

 

//

 

se formos sábios, se formos sábios, se formos sábios

 

nunca a explosão do amanhã nos foi assim tão anunciada

acnum.

 

Maria Adelina Amorim

Foto: Maria Adelina Amorim

Maria Adelina Amorim: (Investigadora Integrada do CHAM Investigadora Doutorada do CHAM- Centro de Humanidades da FCSH- Universidade Nova de Lisboa).

 

Nasceu em Coimbra, Portugal. Doutorada em História pela Universidade de Lisboa. Mestre em História e Cultura do Brasil pela Faculdade de Letras da UL-Lisboa. Bolseira da JNICT e da FCT, de mestrado e doutoramento. Investigadora Doutorada do CHAM- Centro de Humanidades, da FCSH- Universidade Nova de Lisboa e do CH – Centro de História da Faculdade de Letras de Lisboa. Licenciada em História. Formadora em História/ História de Portugal e História das Civilizações.

Foi Professora Associada na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia; Investigadora sénior do CLEPUL- Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da FLUL.

Pertence a várias instituições académicas e científicas nacionais e internacionais. Tem realizado conferências e palestras em instituições científicas de Portugal, Espanha, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Goa e Macau, e a organiza encontros científicos e de divulgação cultural nacionais e internacionais com actas publicadas, bem como diversas exposições científicas. Com livros e diversos artigos publicados em revistas nacionais e internacionais nas áreas da História e Cultura do Brasil, Missionação, Ordem Franciscana, História Colonial, Lusofonia, escravatura, artes, língua e património lusófono, literatura de viagens e mirabilia, Bestiário, entre outras, integra diversos projectos de investigação, com destaque para a História Colonial (Brasil e Atlântico), a Literatura de Viagens e a Lusofonia. Na ficção, destaca-se o livro de poesia HILUS.

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