
A trincheira coberta por terra no tempo se escondeu, agora retoma à luz em superfície de guerra.
Os dois mundos distantes em linhas temporais resolvem conflitos atemporais diante do limite de sua existência.
Na mente conturbada de Iraci, Joaquim acende um paraíso de lutas vermelhas sem fim.
É a fome, são os povos, são as filosofias e as ideologias, além mar de uma antropologia histórica, crítica.
Joaquim quer e é altruísta, por um fim, vendo ele seu próprio fim.
Ah Iraci! Tão ingênua quanto o fardo da terra que toca teus pés, manchados vermelhos de sangue.
Acompanhei o trem Iraci, e ele levou a história do seu povo.
Joaquim quis debater com as maiorias, donos das terras varridas e metais.
Esmorecido, indignei-me com o discurso dos dois.
Indignado de vê-los: ele triste, ela esperançosa, dois extremos incompletos no alvoroço dialético, mas amo como amam dividir mártires.
Dividem comigo suas revoluções, seus ideais.
O que dividem?
A terra em fogo, que queima os anseios verdes e não resistem.
A matança que me alimenta e me adoece no insumo químico corroem as ínfimas crenças da resistência.
O mercado sujo que me envaidece.
A individualidade dos que amam e se entristecem.
As mãos que enterram seus filhos que apodrecem no porta-malas do carro do inimigo, entristecem a minha alma.
Eu vi e também chorei, por Iraci e Joaquim.
Padeci de forma a acalentar a estrutura de uma organização sem chão.
Inacabada e destruída revolução de movimentos desiguais e incidentes sindicais.
Como todo casal que conheci e que tinham gostos especiais e quase sempre tão iguais.
Este casal, cara Carla, entrega-se a uma única pauta, a social.
Eles tentam revolução, punhos cerrados, estendem as mãos.
Carla, minha cara camarada, sujeito a te explicar que aqui não posso fincar teu amor como em outro poema me faz desvencilhar que de ti não quero ninho e por isso não posso ficar.
Carla, eu queria nós, como Joaquim e Iraci, tomar os meios que produzimos e não somente produzir.
Continuo a te escrever, minha amada por não deixar-te desistir desse teu acalento, lento de dirigir um centro de espiar.
Controla as operações de embargo no meu subsistir, desenvolve mecanismo para pagar o sistema que me burla e quer me matar.
Quero a distância, não tenho capital cultural como Amaral e o pouco que sei são devaneios por ser intelectual.
Devo quem sabe conhecer a América Latina, ao final te dirá se é comigo esse amor marginal que vai estar.
“Nosotros” estaremos juntos, nessa guerrilha ou em uma loja de departamento de pessoas descontentes.
Vou seguir Iraci e Joaquim, não como uma sombra, mas por honra à luta que armar e seja lá o que eu encontrar, vou te escrever como todas as noites.
Ao chegar do trabalho e descansar debruçando-me sobre a mesa com livros que sempre foram meu alicerce, até breve.
Ana Victória C. Silva é professora de educação básica e graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão. Começou a escrever como uma forma de transformar histórias tristes e problemas sociais em textos para expressar suas inquietações. Mãe, mulher e jovem que acredita nas lutas sociais por igualdade e justiça.










