Cultura

Amar: entre o instinto e a construção | Marlon Langa

Foto de Shelby Deeter na Unsplash

Até que ponto é necessário viver experiências fora do comum para falar de certas realidades? O perigo de acumular demasiadas experiências reside no facto de elas poderem distorcer a percepção ou conduzir-nos a um caminho sem retorno. Costuma-se dizer que “quem não queima não aprende”, e, em parte, isso faz sentido. No entanto, não é obrigatório que alguém se queime para aprender, pois ao fazê-lo corre-se o risco de se queimar até à morte. O mesmo acontece com o consumo de entorpecentes: a experiência pode facilmente transformar-se em rotina, e o risco de se perder é elevado. Nem sempre a vivência em primeira pessoa define competência ou sabedoria.

 

Os sábios, muitas vezes, não são fruto de experiências próprias, mas de observações atentas e análises profundas. A ciência — sobretudo as ciências humanas — não depende exclusivamente da experiência directa; ela abstrai o fenómeno, analisa-o e procura compreendê-lo. Conhecer não é apenas viver, mas também observar e pensar.

 

Foram os gregos que procuraram definir diferentes tipos de amor, como o Eros e o Ágape, algo que pode ser verificado nos diálogos platónicos, em particular n’O Banquete. Cada tipo de amor possui as suas nuances. Nessa tipificação encontramos o amor sexual, erótico, ligado ao desejo e à relação sexual; encontramos também o amor afectivo e emocional, aquele que estendemos às pessoas com quem convivemos. Surge então a pergunta: é possível encontrar todas essas formas de amor numa só pessoa? Teriam os gregos razão ao distinguir os amores?

 

Numa era tão volátil como o nosso, como pode o amor ‘eros’ resistir às adversidades e prolongar-se no tempo? Muitas pessoas relacionam-se e geram filhos como forma de perpetuar a relação. Contudo, a questão que se impõe é: os filhos são suficientes para manter um relacionamento? E quando esses filhos crescem e constituem as suas próprias famílias? Há quem sugira que a partilha de objectivos comuns — como a aquisição de uma casa, fruto do esforço conjunto — seja o alicerce da relação. A própria proximidade simbólica entre casa, casal e casamento parece sustentar essa ideia. Porém, vemos diariamente casais que viveram essas mesmas experiências e, ainda assim, foram infelizes. Qual seria, então, a estratégia? Talvez não exista uma fórmula acabada. As relações são construções contínuas, e essa é a condição humana: construir, reconstruir e perseguir um ideal.

 

O homem primitivo, arisco, não buscava um amor perfeccionista. A sua concepção de amor estava ligada à reprodução da espécie. Aqui, talvez possamos concordar com Arthur Schopenhauer: o homem era — e ainda é — um animal entre outros, movido pela parte apetitiva, pela reprodução. Isso explica, em parte, a sua capacidade de se espalhar pela terra. Não havia estatuto social nem atributos simbólicos como o “status”.

 

Curiosamente, algo semelhante é ilustrado no filme Materialista, onde as pessoas se conhecem a partir do estatuto social, do lugar que ocupam na pirâmide social e dos atributos acumulados ao longo do tempo. O filme mostra que, muitas vezes, as pessoas procuram aquilo que o outro tem, e não aquilo que é. 

 

Negar que os relacionamentos sempre foram atravessados por interesses seria romantizá-los. Historicamente, esperava-se que o homem tivesse dotes mínimos e estabilidade financeira, como sinal de capacidade de cuidar e prover. Contudo, o filme sugere que, hoje, se busca um ideal de perfeição no parceiro, um amor tratado como moda — tal como descreve Lipovetsky — em detrimento das qualidades intrínsecas.

 

Surge então outra questão: o amor nasce da necessidade ou da abundância? Alguns defendem que nasce da fartura — quando estamos felizes e sentimos a necessidade de partilhar essa experiência com alguém. Mário Sérgio Cortella provoca ao dizer que Adão e Eva se amaram porque não tinham muitas opções. Numa época em que o mundo se tornou uma aldeia global graças às tecnologias, como se configura o amor na era tecnológica?

 

Schopenhauer, na sua Metafísica do Amor, afirma que o amor é uma invenção da natureza com vista à perpetuação da espécie. A chama que nos acende ou que nos queima como fantasma é apenas um meio de aproximar dois indivíduos de sexos diferentes para cumprir aquilo que a natureza lhes incumbiu: a reprodução. As fantasias e idealizações seriam mecanismos naturais para embelezar esse processo. Para ele, o casamento não passa de uma preparação para acolher a prole em condições saudáveis.

 

Voltamos, então, à questão central: o que mantém um relacionamento por muito tempo? Objectivos comuns? Sexo frequente? Procriação? Ou será que dedicamos a vida a amar uma só pessoa porque somos temporários e a nossa existência carece de um sentido histórico?

 

Talvez Osho tenha razão ao afirmar que o amor é uma construção. Mais do que amor, importa amar. O verbo “amar” pressupõe continuidade, movimento, algo que nunca chega ao seu estado final. Amar é prática, costume, exercício constante. Alguns falam de paciência — como Paulo, nas suas cartas, para quem o amor só resiste quando sabe esperar.

 

É nessa senda que Nietzsche, audaz como sempre, fala de relacionamentos e casamento sem nunca ter sido casado. Para ele, antes de contrair matrimónio, deveria haver uma pergunta essencial: serei capaz de viver com esta pessoa até ao fim da minha vida? A conversa, para o filósofo, é o requisito fundamental. É nela que se conhece o outro, que se cria conexão e se partilham valores — talvez o verdadeiro alicerce de uma relação duradoura. Nietzsche, veementemente movido pelo seu olhar pessimista, afirma que tudo no casamento é transitório, tudo passa, o sexo, os filhos vão embora, a casa, os bens, o que fica são duas pessoas que todos os dias deverão se encarar, cansar da cara duma da outra, no entanto, Nietzsche nos afigura que venhamos buscar conversar com pessoas que tenhamos o prazer de conversar com elas.

   

Dedicamos a nossa vida a amar uma só pessoa porque somos finitos, porque o tempo nos atravessa e porque a vida carece de sentido histórico. Entre muitos, escolhemos um. Talvez devêssemos prestar mais atenção ao que Fernando Pessoa disse: aprender a olhar o mesmo sol todos os dias com o mesmo encanto.

 

Marlon Langa

fotografia de Marlon Langa.

Marlon Langa é um pensador inquieto, criador de ideias e construtor de projectos que cruzam fronteiras entre o conhecimento, a cultura e a prática profissional. Natural de Moçambique, formou-se em Filosofia pela Universidade Eduardo Mondlane, cultivando desde cedo o gosto pela reflexão crítica, pela busca de sentido e pelo diálogo profundo sobre questões humanas, sociais e políticas. Encontra nas palavras um refúgio e um espelho: escrever é para ele tanto uma fuga ao peso da existência quanto uma forma de mergulhar na sua maravilha.

A sua sensibilidade foi moldada pela convivência íntima com poetas como Fernando Pessoa, Rui de Noronha e Camões; pela narrativa de mestres como Saramago, Fernando Sabino, Jorge Amado, José Luís Peixoto e Vergílio Ferreira; e pelo pensamento profundo de Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, Luís Pondé, Severino Ngoenha e Edgar Morin. Sob a máscara de pseudónimos como Íngrid Phra, Jordão António Lopes e Gistofen Mayer, explorou múltiplas vozes e olhares, libertando textos que desafiam fronteiras de género e estilo.

Inquieto, Langa transita entre o estudo e a criação, entre a reflexão filosófica e a observação atenta do mundo, mantendo sempre a convicção de que a palavra — lida, escrita ou dita — pode ser um ato de resistência, revelação e transformação.

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