Cultura

A vingança da montanha | Sofia Correia

Foto de Luca Maffeis na Unsplash

Dizem que ficou preso num elevador de mina 

quase uma semana. Nós somos os bisnetos

 

num quarto andar que ao contar 

com o rés-do-chão, meia-cave e subcave,

 

vai mais de um século – relevante como tabuada

ou memória da memória de um pesadelo. 

 

Dizem que era o único do grupo que lia

e escrevia. Nunca houve folheto de instruções

 

de brinquedos que nos impedissem

de montar e desmontar à nossa vontade

 

o que tomássemos ao alcance. No canto ao alto

do elevador do prédio há uma placa com números

 

máximos de ocupação, quilos e a idade mínima 

que não temos, lemo-los estilo lengalenga

 

para passar o tempo e o emparelhado de botões 

que testamos um a um, o do alarme, o de parar 

 

entre os andares. A um metro dum patamar 

saltamos sobre o fosso para onde nos caíram 

 

as cartas da mão, ganchos do cabelo, um sapato 

no dia que ficou entalado. Padecia de falta de ar,

 

dizem que o apavorava o perder o pé. O infinito 

nunca deixou de o atormentar. Somos nós, 

 

os bisnetos reclinados sobre o inexpugnável. 

Será reversível? Uma montanha invertida, 

 

as paredes exteriores de um apartamento virgem 

a estalar com a humidade.

 

fotografia de Sofia Correia. Autora da fotografia: Lydia Lee.

Sofia Correia cresceu na Margem Sul, estudou Arquitetura e Urbanismo em Lisboa e na Columbia University, em Nova Iorque, onde viveu durante dez anos e onde começou a estudar narrativa com os The Writers Studio, poesia com Cynthia Cruz e, posteriormente, forma poética com The Loft Literary Center.  Desde 2013 vive no Barrocal Algarvio, a terra dos seus pais e avós, com o seu marido e filhos. É empreendedora criativa da sua marca artesanal Oficina Poeta Azul e da loja Colectivo 28 em Loulé. Tem publicado poemas em várias revistas locais e da Andaluzia. Em julho de 2025 lançou o seu primeiro livro, O Labirinto das Duas Árvores, com a Editora Urutau

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