“Redimir-me é a função do tempo. Redimir-me
do que sou ou serei, como se em mim já ido
fosse de outro futuro, para acontecer-me.”
(MACHADO, N. Quem publicará meus livros depois de eu morto?
Um oceano particular, 2021)
“O poder verbal de Nauro Machado, nos leva, às vezes, a Fernando Pessoa, tais as possibilidades de sua magia, tal a complexidade de certos estados explorados artisticamente [por sua poesia]. A força expressiva dos poemas rapidamente convoca o leitor a meditações sobre o destino, o absurdo da vida, a solidão incurável, a ânsia do eterno” (Fábio Lucas [Lucas, 2020, p. 83]);
“O canto audacioso, não raro tocado de pungente lirismo – o da inconformação – não me parece seja um único ponto de aferição para sua poesia, porém; ela não é moral nem didática. É uma extroversão freudiana do ‘eu’, interior, trabalhado pela lição da autognose que só ao poeta interessa, mergulhado em seu ser abissal e existencial.” (Cassiano Ricardo [Ricardo, 2020, p. 89, destaque meu]);
“A opção por uma poesia nuclearmente metafísica, as sondagens das angústias, inquietações e dilacerações do eu mais profundo do ser humano, dão a sua obra um caráter de permanente atualidade e autenticidade, emparelhando-o com algumas das melhores vozes da poesia universal” (Alberico Carneiro [Carneiro, 2020, p. 195]).
Ditas por diferentes observadores críticos da literatura brasileira, essas frases se encontram em variados ensaios do mais importante livro de comentários sobre o poeta: Impressões sobre Nauro, reunião monumental de artigos e ensaios que foram organizados em 2020, por sua esposa, viúva, Arlete Nogueira da Cruz. Nauro faleceu em 28 de novembro de 2015, aos 80 anos, na mesma cidade em que nasceu e com a qual manteve, até o fim, uma relação de amor conflitivo: São Luís do Maranhão, em 02 de agosto de 1935. Neste 2025, completam-se, portanto, dez anos de sua passagem.
O livro dá bem a medida da importância desse poeta, que viveu quase em obscuridade, fixado em sua “província” – e mesmo na pouca visibilidade que ela proporciona –, com poucas incursões alhures, no entanto, pouco antes de sua morte e logo depois, recebeu reconhecimento e tem sido redimensionado numa amplitude surpreendente, haja vista o impacto e a profundidade da sua poética. Em São Luís, passou a ser reconhecido por um volume cada vez maior de pessoas, jovens acadêmicos, mesmo por iletrados em becos e ruas, e nos lugares onde, às vezes por dias seguidos, vivia suas próprias estações de infernos, em desregramento ébrio.
É bom lembrar que, mesmo com todas as dificuldades que teve materialmente, numa terra com pouquíssima estrutura editorial, esse poeta tem hoje o impressionante limiar de 50 títulos publicados, sendo seu livro de estreia o Campo sem Base, de 1958.
Nauro Machado vem de uma geração que consolidou o modernismo no Maranhão, lugar afeito a uma poesia mais tradicional e de tom solene. Um modernismo que já nasceu na perspectiva das poéticas da chamada “Geração de 45” e que só se tornou mais programático modernamente a partir da chegada de Bandeira Tribuzi ao estado. Este chega (retorna) de Portugal, com um modernismo bem definido na algibeira, que se consolida a partir da publicação do seu Alguma Existência, em 1948. Nomes importantes daquele momento de convivência, consolidação e alarde criativo, além desses dois, são: Ferreira Gullar, Odylo Costa, filho (o mais velho deles); Lucy Teixeira, José Sarney, José Chagas, Lago Burnett, e a própria Arlete Nogueira, grande articulista e agregadora de sua geração.
Pode-se dizer, no entanto, que o modernismo de Nauro sempre foi atípico. Ele preferiu a atualidade de uma poesia menos relativa a momentos de virada cultural, e mais universal – como o caso da poesia moderna de um Jorge Luís Borges, por exemplo. Em sua linguagem, de tom solene e elevado, nunca rejeitou os grandes mestres da tradição poética, inclusive mais da literatura universal do que da propriamente “tupiniquim”, acolhendo na sua família poética vozes que vão de Dante, William Blake e Walt Whitman; de Victor Hugo aos “poetas malditos”; de Garcia Lorca ao já referido Pessoa – pelo menos no que diz respeito à escavação reiterada de um eu estilhaçado, não heteronômico; porém, neste caso, resolvido em termos de uma cisão existencial, na criação de um “duplo”, um “outro” (ou Outro, como veremos), na disputa da aguda angústia do existir. E, por outro lado, o domínio de um léxico inusitado, que alcança tanto a visceralidade e o telúrico, quanto o místico e a abstração reflexiva, em seu dizer poético. Há mostras disso disseminadas em toda sua obra, como no poema I, em Antibiótica nomenclatura do inferno:
É difícil o contacto
entre mim e o meu ser:
por díspares, nenhum pacto
lhes poderá acontecer.
Soube-os no escuro tacto
sem podê-los conhecer:
estilete, pedra, cacto,
são o espaço entre o eu e o você.
entre o sentado e o de pé,
entre o fora e o que dentro é
desigual no mesmo estar
– como o escuro e a claridade –
e que são de igual idade
no meu duplo molestar.
(MACHADO, 1980, p. 381)
O que se vê neste curto poema é justamente essa cisão carregada, reflexionada e transposta como um “duplo molestar” para percepção do existir e do mundo que o poeta imprimirá em sua fatura poética, conforme será mostrado em seguida.
O duplo, o gêmeo carregado
Algumas faces da poética de Nauro se revelam inicialmente na manifestação desse “outro”. Essa imago ou imagem é mobilizada e investida como motivo, do início ao final do périplo de toda a sua poesia, na configuração das presenças que caminham em dissidência, em cisão, no sentido do que Nicole Fernandez Bravo (2005) coloca como o “Duplo”, isto é, a dualidade da persona expressa como alter ego ou como uma dicotomia tensiva, com diversas possibilidades. O duplo é “aquele que caminha ao lado”, o “companheiro de estrada”, “eu – o outro”, eu – o mesmo”, “a homonímia ou a semelhança, a proximidade estranha assinalada pelo ‘eu’ que levanta a questão da identidade” (Bravo, 2005, p. 261).
Na poesia de Nauro, essa dualidade se torna um conflito inesgotável: “homem x poeta”, o homem, eu-cidadão (tratado como tal, porém, na verdade, também um ser de linguagem, simbólico, criado como função ancorada, ou seja, uma imagem discursiva e autoficcionalização do eu-histórico); e o poeta, carregado pelo “homem” como seu alter ego maldito, vociferante e pesaroso, cujo maior encargo é o sacerdócio da palavra sob o signo da Revolta, como sina e destino. É essa palavra poética/profética que faz enxergar sua própria treva, que se torna imprecação e com a qual impreca contra o Outro: o absurdo existencial, Deus, a sociedade burocrática e escorchante, a morte, o Nada, o lugar ingrato que o renega, maldiz e exila. Em Nauro se cumpre aquilo que Henri Lemaitre falou sobre os “poetas malditos” franceses: porque são malditos – renegados pela sociedade materialista e utilitarista –, maldizem.
Esse “gêmeo” carregado deixa de realizar uma conjunção harmoniosa, na medida em que engendra alternância de papéis, desejos, potência/fracasso. No emblemático poema O parto (Campo sem Base, 1958), a relação manifesta é de completude (do homem) versus a incompletude (do poeta). Porém, em momentos posteriores, a chave pode se inverter, uma vez que essa “completude” leva ao fechamento desse homem como completo, mas não temporalmente transcendente, como mortal. Este homem apresentado é existencialmente, vitalmente, portanto historicamente realizado, porém será cavalgado pelo poeta, que se torna seu algoz, seu chamariz. Ele precisa renunciar a confluência com o capital e com o poder, que almeja utilitários, entretanto o poeta é este “outsider”, este “inadequado”, desencaixado, que quer ter sua palavra livre, então o homem há de pagar o preço dessa co-vivência.
O poeta pretende, desta maneira, a prerrogativa da voz autêntica e desimpedida, assumir a transgressão. Deseja o ócio, a alucinação, o desregramento (como parte essencial de sua “incompletude”, daquele que busca na expansão da sua linguagem), enquanto o homem precisa submeter-se às regularidades das obrigações pessoais e sociais; responder às necessidades do corpo, da casa, da família. Por outro lado, se o poeta é o monstro, o pária, o anátema, o exilado, o “maldito”, é ele quem constrói o discurso que ultrapassa o momento e a temporalidade do homem, porque sua palavra ecoa pela eternidade, sua voz se refaz sempre que o poema é revivido, sempre que sofra e se solidifique; a ele pertence a possibilidade de “recriar-se em nova forma”, como diz no Metamorfose Inicial, também de Campo sem Base.
Mas eis o Parto:
Meu corpo está completo, o homem – não o poeta.
Mas eu quero e é necessário que me sofra e solidifique em poeta,
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e que me alucine na essência de mim e das coisas,
para depois, feliz ou sofrido, mas verdadeiro,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarma e de alarde:
ser poeta e dura e dura
e consome toda
uma existência.
(MACHADO, 1980, p. 5)
Esse contraste entre as particularidades de cada um, com suas nuances de fundo ou reflexo, eu-tu, eu-outro, real e do ideal, matéria e alma, pode ser exemplificado por inúmeros poemas, como neste neobarroco Quase irmãos (MACHADO, 2021, p. 49): “Até o fim: poeta, / maldição de Deus / para amém do diabo. / Certeza de ser / herança na carne / na doença da alma”. Ou, sobre o mesmo propósito, como se pode ver no poema 4 de A Travessia do Ródano:
Uma presença sou, contigo e tua,
Num compromisso, carne, que já atrasa:
que o real, vil, não prostitua
meu pensamento que com ele casa!
Metade feito pelo mesmo espaço,
metade feito qual se fora um troço
pregado à ideia, por faltar-me ao braço:
tu, tu nos outros, sim, chamado meu,
tu, tu nas coisas, pois nelas posso
dizer-me em outro – não és tu, pois tu sou eu.
(MACHADO, 1997, p. 4)
Essa é uma poesia que também se almeja construir sobretudo como um périplo em torno da própria vastidão, estendendo esse eu a uma dimensão épica de caráter metafísico, como se quisesse entregar ao leitor a navegação em uma obra que se constitui como um hiperpoema – uma nau reiterada, que se desdobra ou redobra sobre um mar sempre recomeçado, porém que jamais se esgota, uma vez que é do caráter não do poeta, mas da própria linguagem com a qual ele lida, estar sempre incompleta, esteada em sentidos adiados, desejosos, insatisfeitos, mancos.
Somente cinquenta anos depois do primeiro livro, no Trindade Dantesca, como se executasse um projeto e desejasse revelá-lo, é que Nauro aponta para um reconhecimento da “completude” do [seu] poeta, e o manifesta, aparentemente, a parear os semelhantes e encaminhar a conciliação das divergências: “já acabado, enfim completo / como resto que alguém cobra / pela soma do alfabeto / para fazer-me sem sobra / cubro a palavra que é feto / para fazer-me Verbo e Obra” (NAURO, 2008, p. 11, destaque meu). Importante, porque aqui ele transmuda essa chave para outro prisma, “Verbo e Obra”, geminação na qual uma parte não existe sem a outra, e da qual se pode inferir que, se ao poeta pertence o verbo, o homem acaba sendo seu resultado, sua obra. E, de fato, sem querer especular, em sua lida histórica o homem (público) Nauro já não era senão o Poeta Nauro, fosse para a elite, fosse para os mendigos dos abrigos, fosse para a turma que já o assediava.
Uma nova abertura para a persona do poeta, sobre a conscientização do seu papel, pode ser vista posteriormente, no segundo livro póstumo de Nauro, como a nos despertar para o lugar imprescindível do “gêmeo” nessa relação, num discurso não apenas redentor do poeta, mas conciliador, em relação ao seu peso e encargo, por via única e necessária do verbo poético. Trata-se do poema O Novo Parto, de O Pombo Negro dos Sobrados (2020, p. 117), livro que ele deixou já pronto e que foi publicado por Arlete Nogueira da Cruz. Aqui, ele entrega ao “homem” a responsabilidade de reconhecer que sem o “poeta”, pior seria, e incompleto certamente seria, como um cego em meio às trevas (o mito prometeico, encarnado na persona do poeta).
Minha vida que é vã muito pior seria,
Não houvesse em podre mesa o pão que oferto aos outros,
O pão deste poema que escrevo dia a dia
Na germinação de um trigo a ser para todos,
A cada manhã de uma manhã desigual
Até que o verdadeiro homem após se farte
No interminável verbo de única boca:
– o poema é o sol que humana noite quer
Que o cego, além da córnea carrega por dentro
Querendo ver a luz que jamais nos morra,
No verdadeiro chão por onde ainda andarmos
Sem a calosidade falsa de humanos ossos.
Por outro lado, ele busca, aí, realizar outra conciliação: aquela entre o extremo da subjetividade e a abertura à coletividade: na palavra do poeta há um alimento para os outros. Observe-se a universalização anunciada neste Novo Parto, aparentemente nunca expresso por ele de forma tão clara: “Na germinação de um trigo a ser para todos”. Joga as cartas do valor que ele tem não somente em relação ao outro, mas a sua oferta aos outros, ao mundo, e o que oferece é o alimento verbal que produz, “querendo ver a luz que jamais nos morra”, no sentido de que “o poema é o sol que a humana noite quer”.
É de se notar também que o poeta parece responder a uma intimação que lhe tem sido feita ante o exercício premente de sua subjetividade e introspecção poética, dado que, tendo desenvolvido em toda a sua obra uma poética sobre as reentrâncias desse eu, é intimado a responder mais objetivamente sobre o que uma contínua queixa do sujeito face à existência tem a ver com os outros, a coletividade corporificada na demanda social. Neste Segundo Parto, o poeta (re)nasce para os outros, afirma-se, declara-se e esclarece (sobre o que pode ter deixado inexplícito a alguns leitores), que as questões são partilhadas, são de todos que nele se espelham, sentem por via da escritura poética e dela se alimentam a partir da experiência leitora, nesta “germinação de um trigo a ser para todos”. Nauro não era de fazer concessão interpretativa em sua poética, no entanto aqui parece ter sentido essa necessidade, e o faz poeticamente.
Para quem conheceu o poeta pessoalmente, sabe que nele morava uma angústia sentida como autêntica, e que ele, proveniente de família da elite da capital maranhense, parecia não se coadunar com esse papel, a dedicar-se inteiramente à escrita não largamente vendável, ao menos a não midiática e não utilitária – a poesia –, e a tornar-se, muitas vezes, um vagante pelas ruas, becos e crepúsculos embriagados de São Luís. Porém, em se tratando da poesia em si, quem a criaria e enunciaria, senão o poeta? É este quem sempre acaba construindo a representação, as personas; ele é o enunciador de um homem que se torna palavra, enunciado, em seus poemas. Nestes, o que temos é a redobrada figuração do eu, e a projeção de condições universalizadas (o Outro, o verbo…).
O poeta é o primeiro a, finalmente, desfazer os enganos e nos jogar isso no rosto. O que vemos no poema?… É o poeta? é o homem? Ambos são figuras, máscaras no espaço intermediário da semi-ficcionalização desse eu. É esse pressuposto que o leva finalmente a revelar o jogo das personas, a modo de esclarecimento, em Tirando a Máscara, no livro Um oceano particular (2021, p. 156, destaque meu): “Deixei de me produzir / como ator em outro palco / numa tragédia a sorrir / por um palhaço com talco / […] Agora quando antevejo o que se faz pelo olhar, / sinto que, desperto, vejo / que sou um só e não em mim um par.
O jogo é de revelação para si mesmo, antes que para o leitor. E como é próprio de uma poesia que continuamente se retoma, é importante percebemos que Nauro não deu por encerrado esse moto/motivo, ao “tirar a máscara”, conciliando imagens e personas. Muito pelo contrário, em seus livros mais atuais e principalmente naqueles publicados postumamente – mesmo admitindo que não tenha publicado seus livros necessariamente numa ordem cronológica de escrita e que alguns temas podem ser de momentos anteriores – a questão do duplo torna-se ainda mais constante nos últimos livros e, agora, claramente nomeada.
É o que acontece em poemas como Irmãos Gêmeos (Um oceano particular, 2021) e O Duplo (Chumbo e Rugas de uma Boca Octogenária, 2023). Em Irmãos Gêmeos, faz uma alusão ao poema O Parto e associa a linguagem, prerrogativa do poeta, ao sacrilégio pesaroso do corpo (homem, “cavalo” do poeta): “No corpo que, incompleto, queria tê-lo, / sabendo, dura embora, a ingrata sina / a acompanhar-me por toda a existência, / sabendo o verbo, o Grande Criminoso / o criminoso em série, o sacerdote / da Missa Negra em hóstia sacrílega”. Notemos o dimensionamento da linguagem como sendo do domínio desse Gêmeo criminoso que repete seu feito como em seriado. Já no poema O Duplo, escreve: “Pela última vez, / a estar num defunto, / meu irmão siamês, / pois de mim tão junto, / renego o caroço/ a crescer em mim / por feito num osso / de estéril jardim, /e cuja colheita, /se acaso colhida, / será aquela feita/ com a morte da vida”.
(continua na próxima edição)
Antonio Aílton é poeta, crítico, Doutor em Teoria da Literatura pela UFPE. Publicou, entre outros livros, A camiseta de Atlas (EDUFMA/FAPEMA, 2023), Cerzir – livro dos 50 (Penalux, 2019), Ménage – Antologia trilíngue de poesia (Helvetia, 2020); e MARTELO & FLOR: Horizontes da forma e da experiência na poesia brasileira contemporânea (EDUFMA, 2018). É editor do sacadaliteraria.com.br.
e-mail: ailtonpoiesis@gmail.com










