
Comecemos pelo começo, a palavra início e a rede de palavras que a compõe é quase sempre um detonador e tema central da poesia de António Gancho, a alegria e a vitalidade do princípio, tempo mágico, divino e inicial que se materializa na manhã, tão celebrado na sua criação “o ar da manhã”, “Manhã original” (p. 20) “Manhã de ouro” (p. 20), começos do dia e da sua luz conectada com a imagem de um princípio cósmico que sei deixa ver, enquanto força mágica no nosso mundo físico, desde logo no meio mineral, elementos como o ouro ou a prata ganham uma presença vital na poesia de António Gancho ao se conectarem com um começo sacralizado e mítico “gaio do espírito” que se deixa ver através de um olhar poético do mundo: a poesia como uma “maravilhosa alquimia da vida” (p. 10) que “te reconstitui o ser”, uma força a corresponder “se a ela obedeces é o dia que nasce” (p. 10); ela “é a maravilhosa recriação do nada”, uma força mágica, criadora e transformadora, que enquanto alquimia transmuta os elementos “a poesia conhece o ouro e dele faz em prata” e faz parte, por isso, de uma ordem mágica e revitalizadora que decreta, afirma e muda o nosso mundo. Dessa força mágica, a palavra é a sua força e presença física e metafísica: a palavra enquanto magia, força físico-mágica transcendente que decreta e comanda uma renovação e uma ordem, uma revitalização do ser e do mundo, uma direção. O agradecimento a essa força torna-se, então, de uma grande vitalidade na poesia de António Gancho: “Vais ficar a dever tudo a esta maravilhosa / ontologia de luz e amor” (p.11). A completude que o estado poético assume na sua poesia é a de uma força unificadora, inexplicável e inicial, de uma manhã, começo, dia que nasce, como em: “A estrada”, “A estrada cumprimentava de vivas a manhã / abria-se a claridade do dia” (p. 49), dialogante também a vários níveis com o poema-verso de Mário Cesariny: “Ama como a estrada começa”.
A poesia de António Gancho sugere uma ordem inicial, uma primeira manhã que o amor e a poesia, enquanto sua manifestação pura e primeira, devem obedecer numa linha mágica, direcional, para uma fonte, verdade ou restituição de um ser original e primeiro. A estrada é então em linha reta e iluminada por essa luz da manhã que a deixa ver enquanto começo, abertura e expansão do ser, que se torna num ser a caminho. A poesia é então a detonadora inicial desse caminho, força mágica (de opulência e vitalidade) para a expansão do ser e do mundo. Começo em linha reta, nascente: são múltiplas as imagens de um começo que parte de uma interioridade, como no poema “Epicentro”: “Eu viajava pelo meio no meio estava o epicentro” (p. 44), há um núcleo de onde tudo imana, um centro vital que se abre e expande, esse centro celebrado em poemas como “interioridade”, “Interioridade / és bem o estímulo tu / duma vida cumprida ao serviço do invisível” (p.14) e “Nada mais – Rien ne va plus”, “e tudo cá dentro cá dentro cá dentro”, a repetição que reforça a interioridade como uma força mais profunda e densa, o lugar de contacto com o sagrado mas também com a criatividade no seu expoente máximo, a apologia da imaginação enquanto uma força mágica e concreta que habita um centro que se expande, de dentro para fora, o movimento mais inerente à poesia de António Gancho é o da abertura e da expansão, a partir do epicentro inicial, sagrado, mágico e profundo há um exercício de aumento e expansão do ser, expansão da vitalidade e da interioridade que tudo toma em redor, tomando as palavras de Giordano Bruno de que tudo é centro – tão vitais e justas também aqui na poesia de António Gancho. Da interioridade à abertura e expansão (expansão até ao exterior da prisão / peito / grades para fora), o verbo abrir é assim imperante em toda a sua poesia, como novamente no poema Epicentro: “Nós abrimos uma condição para estabelecer uma infinidade de coisas que ainda nos não foram descritas” (p.44), Abria-se a claridade do dia” (p. 49) “Criavas um espaço aberto na clareira de uma grade / que era um espaço celeste” (p. 54) ou no poema “Abertura” “Eu abria o rádio / eu abria o aparelho”. Abertura para ver mais claramente o dentro para o compreender que é também uma abertura à invenção do ser, através de um movimento centrifugo, que se dá em todos os sentidos num aumento mágico do ser: “eu era uma continuação do meu ser”. A inspiração de um “modo interior de vida” (p.54) é a de uma vida plena em que o interior toma já tudo e se torna viragem para toda a realidade expansiva que ganha assim em sentido, vitalidade e ênfase poético. A vida interior corresponde, assim, a uma verdade do ser e assume-se como um centro da imaginação e da criação de verdade.
A condição interior que abre e gera aquilo que ainda não foi criado, “a infinidade de coisas que ainda não foram descritas”. Dessa mesma vitalidade da imaginação se serve António Gancho para a criação de um universo fantástico a várias línguas que colhe no universo dos mitos, do imaginário popular, das lendas (o gnomo, o pé de cabra) uma imensidão de histórias e imagens, trocadilhos que usam uma imaginação abundante no uso da plasticidade da língua. A poesia de António Gancho serve-se do português, do espanhol, do francês, do inglês, do italiano e do alemão, cruzando muitas vezes as diferentes línguas num exercício de aproximação e concreção de um sentido mais inteiro. O jogo de palavra puxa palavra faz-se então sentir de uma forma fluída e constante: “Noel Natal com mel” (p. 84), “que fiume só o gaio em Maio” (p. 90), como em “a ave pelicana”: “a mana faz entre os homens de ave pelicana / sacrifica-se quando irmana.” (p. 79) ou em “Moscovo”, “Moscovo casca onde se põe o ovo”, “Muitas moscas Moscovo / Moscovo ou muitas moscas” (p.77), a rima viva: “Perfeito raio de sol / exprimes-te como um arrebol” (p. 126) em que a assonância gera musicalidade numa fruição constante, em que o registo fónico do texto é a parte central da materialidade dos símbolos, da imaginação e dos sentidos múltiplos que os jogos de palavras criam muitas vezes com recurso ao trocadilho ou ao provérbio popular, à simulação da oralidade usada criativamente com a quebra das expetativas da própria oração “quando se vem ou cão”. Uso de alterações imprevistas do sentido da frase ou anacolutos numa fluidez e tom narrativo de verso longo e irregular. A poesia, criação de António Gancho está do lado de uma surpresa – encadeamentos em que a fruição da imaginação, no sentido de pensar por imagens, adquire uma dimensão mágica, de espanto e perplexidade. A luminosidade da própria manhã e do gaio é ao mesmo tempo física e espiritual e mostra uma dimensão do mundo erótica e infantil em que o amor e a imaginação são elevados à dimensão de uma força mágica de que se tece o próprio tecido do mundo físico, tudo físico, inclusive o pensamento, também ele uma força alquímica e transformadora de todos os elementos do nosso mundo, o pensamento como uma força mágica “a phisis”, o próprio amor em movimento, na fluidez também do poema. A poesia de António Gancho assegura como um risco inicial e constante a vitória da fluidez, do mágico, do inesperado e do intuitivo, daquilo que não se detém e é interior, daquilo que no nosso mundo é expansão do ser e da imaginação. A poesia enquanto empatia e aumento mágico do mundo.
Referências: António Gancho. O ar da manhã 1960/1967. Porto: Assírio e Alvim, 2022.
Nuno Brito, Cidade do México, 30 de Dezembro de 2025
Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É Professor Visitante no Departamento de Línguas e Culturas Românicas da Universidade de Buffalo em Nova York e autor dos livros: Delírio Húngaro (2009), Antologia (2011), Crème de la Crème (2011), Duplo-Poço (2012), As abelhas produzem sol (2015), Estação de serviço em Mercúrio (2015), O Desenhador de Sóis (2017), Ode menina (2021), Escrever um Poema sobre a Liberdade e vê-lo arder (2022), e Olá Liberdade! (2025)










