Cultura

A INTERMITÊNCIA, A ATEMPORALIDADE: MAURO SANTA CECÍLIA E SEU BOFETE | Letícia Ferro

Foto de Krišjānis Kazaks na Unsplash
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
 ‒ Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
Manuel Bandeira, em “Consoada”.

Tornar verso, quanto maior o rebuliço causado pelas batidas do coração, escrita de poesia que se espaça pelo diário íntimo, nele, ritmando o que, além de delicado, tem-se de aguerrido (e mesmo de intermitente como nunca antes dito), é o que impulsiona Mauro Santa Cecília, com seu Bofete (2024). Divisá-lo, assim, é aceitar o convite mais pujante e mais consciente do alicerce de seu mundo ‒ reconhecível ao universo de quem o alcança. A percepção do poeta, em ponto de inflexão com a de quem, no presente, a ele se entrega, se (des)vela, além de espanar, com golpes de vista, o que na memória reside. E, nesse caso, importa não só o que ali se entrevê, frente a um sem-número de recursos subjetivamente condicionados, mas de que forma os estímulos insuspeitos ao colóquio com a palavra mais pessoal e prosaica (e enferma) podem receber o esmero poético “para recriar tudo” (p. 14) e fundar “uma nova ideia/ um novo dia” (p. 13), um novo futuro que não o previsível. (A despeito do tempo vivido ser, persistentemente, distópico.)

 

A devolutiva de imagem que se forma frente a isso não poderia ser melhor do que a de uma bofetada, na medida em que, de poema a poema, a força, com que vige, faz a vida (a)tender à escrita e o olhar sobre ela, a cura nas mãos de Santa Cecília. Enfeixado na surpresa dos dias, com suas “[v]elhas novidades” (p. 87), o poeta se adivinha, (in)tensionado-se nos versos, diante da latência de frames do cotidiano sucedidos por escrutínios, observações, elucubrações, confissões, desafogos… sua forma de ser e estar no mundo e (salva)guardar os seus – “[…] filho, família, amigos […]” (p. 45): “Viver é um tapa na cara. ∕ Mas não sei como a gente resiste” (p. 45). Mauro flerta com o biografema ao trazer à baila suas próprias fragilidades – das que “[e]ntr[am] de vez na minha alma” (p. 16) –, e, nesse caso, a maior delas: o estado oncológico que o assombra algum tempo, e que o dá a ver, pela janela da (sobre)vivência quimioterápica, um “[h]orizonte” tão mais “invertebrado” (p. 47) quanto mais redimensionado. Sua atual condição, mola motriz do verso e do bilhete de passagem, que não deixa de o tomar de susto e assalto, mas que, independente de todos os “[…] raios e trovoadas […]” (p. 45) insurgentes no meio do caminho, também, transmuta para conferir maior valor apenas e tão só ao que importa. Eis o movimento reverso de Santa Cecília, seu “[…] bofete de volta” (p. 45). Já que “[q]uando se vê o fim de perto ∕ O valor de certas palavras ∕ Como solidão, raiva ou afeto ∕ Recebe sua verdadeira carga” (p. 16-17).

 

“Bofete”, qual seja, “de volta” ou não, não mira em palavras de autoajuda, tampouco de pena ou pieguismo. Ao contrário. Colhe seu rendimento na coragem poética que engendra astúcia e sentido inverso ao reaver o cotidiano, ido e redivivo, talhado nas entranhas do fino sentimento perene vazado de atemporalidade. Já que “[o] futuro […]” mesmo sendo inevitável e parecendo “[…] tão próximo ∕ […] pode ser outro” (p. 26). Adiado, pelo menos. Evolam-se, assim, “[a]lguns dias de prêmio” (p. 27), subtraídos, naturalmente, do “[…] pior medo ∕ Antes do início ∕ De outro começo ∕ ∕ Como o ressentimento ∕ No tempo rei ∕ Da ansiedade” (p. 27). É sobre a lida com “[a] dor física ∕ A dor moral da não autonomia ∕ A impotência que nos torna bebês” (p. 29), nos vulnerabilizando, a tornar “[c]ombustível[…]”, halo da poesia, qual “[…] panaceia […]” (p. 27), porque é dela o poder de surrar, dirimir, esquecer, expurgar como de fazer durar, lembrar, ostentar, incensar o que avulta e é imprescindível. Com efeito, o poder soberano repousa sobre o espólio poético de cada bofete dado ou recebido no intercurso de uma existência, cuja forma há muito por (querer) dizer, constituir-se, como, ainda, passar adiante, qual numa “[c]onversa entre pai e filho” (p. 20).

 

Mauro Santa Cecília realiza o máximo de vida até com o que é naturalmente finito, o horizonte da existência, em que a nuance significativa das relações é extraída para justapor os momentos distintos ao tempo de um só: ao momento da poiesis – permanência de tudo e de todos –, afinando estritamente com o “[…] essencial ∕ […] a economia de gestos ∕ E o silêncio […]” (p. 17), que é ora “mais […]”, ora “[…] menos incólume” (p. 21), mas, à criação literária, sem sombra de dúvida, inerente. Sem pôr a perder as hesitações – “[z]igue-zague”(p. 69) – formais, o poeta não submerge, assim, ao mundo reduzido de sua estrutura estanque, como a da forma fixa do soneto, não por acaso em voga, que, embora se distancie do intercurso de longa data de Santa Cecília, funciona, aqui, exatamente como contrabalanço do que facilmente se esvai: “um poema adentra o corpo∕ e trapaceia a morte […]” (p. 34; grifo do autor). A alta voltagem poética, sua guiança, vai sendo trançada ao movimento crítico da passagem das formas e do tempo como estratégia de ampliação e alcance da palavra – a “[s]enha”(p. 28) para as diferentes etapas do vivido. O livro todo é um elogio à experiêcia, um chamado à “[s]íntese” (p. 34) dos anos acumulados e dos que ainda serão (bem-)sucedidos, “[m]as não a qualquer preço” (p. 34), posto que “[o] mundo não está nenhuma maravilha” (p. 34), o que só confirma e endossa a distopia (no) presente: dentro e fora de quem nele se (des)encontra.

 

Versos de antes e depois do maldito pathos, cunhados na “[m]emória da pele […]” (p. 35), são compartilhados com ênfase meditativa, e com contagem menos de quantidade que de qualidade, já que, a cada modulação temporal, vislumbra-se a expressão lírica como menina dos olhos parcimoniosos de Mauro: a contenção em prol apenas do que se deve dizer. O necessário, somente. E nada mais. Gesto seminal do porvir. À poética, Santa Cecília tributa o direito de poder falar ao outro aquilo que é calado até para si mesmo. Por essa razão, ressente-se com os limites impostos pelas condicionantes do perecível, quando também a poesia a isso se reduz, considerando que sua verdadeira função deslinda-se, alhures, em, pois, justamente “aguentar o máximo ∕ não conseguir mais respirar ∕ até explodir em chuva” (p. 43). Com Bofete, nocauteia-se qualquer pricípio ascético, imposto pelo destino, cujas “[p]oucas certezas” (p. 72) aprisionam e dão ao poeta munição para “[…] bolar minha própria história” (p. 73) e ter a livre escolha de passar adiante, para sempre, a “indesejada das gentes”, como Bandeira já dizia.

 

REFERÊNCIA

 

SANTA CECÍLIA, Mauro. Bofete. Bofete. Rio de Janeiro: 7Letras, 2024.

Fotografia de Letícia Ferro

Letícia Ferro é Doutora em Letras e Linguística pela UFG, editora, crítica literária, que hesita entre Gyn e Rio. E-mail para contato: let_ras@hotmail.com

 

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