Procuro sempre o que a escrita me faz perder. O pensamento só por si não garante o acto de escrever. Há uma perda em tudo o que se escreve. É essa negação do pensamento que nos faz duvidar da certeza do que é escrito. Seria preciso sacrificar a razão para recuperar essa espécie de escrita que passa pela profundidade do que pensamos enquanto escrevemos. A escrita rejeita-se a si mesma. É uma luta entre o que se escreve e o que se deseja captar como escrita perdida. Escrever é ir de perda em perda. Não deixar que aquilo que não quer ser escrito seja uma fuga no teu pensamento – eis o conflito. Usar o pensamento como um filtro que se imponha a todas as formas de negação. O que se perde do que é escrito é a verdadeira escrita, a sua dor; o que ninguém lê, nem mesmo aquele que escreve.
PENSAMENTO OCULTO
A verdade é que nem tudo o que se pensa é para ser dito. São pensamentos estruturais, existem como ensaio do que importa realmente dizer. Este tipo de ocultação do pensamento não deve ser confundido com um modo de insinceridade em face dos outros, uma vez que estes pensamentos ainda não estão organizados para exercer o poder da linguagem oral. Tudo o que não se diz permanece em acto de pensar. Seria excessivamente incómodo se todos os pensamentos que temos sobre alguém ou alguma coisa resultassem em mensagem. O pensamento é agressor quando exposto na sua forma primária, sem preparação ou ordem de entendimento. Pensar implica uma espécie de reciclagem do pensamento. O que nunca chega a ser dito aos outros é aproveitado para figurar noutros pensamentos. Nada é perdido se acreditarmos que o pensamento é um desconhecido que um dia se dará a conhecer.
A DISTORÇÃO DA ESCRITA
A escrita exige de quem escreve a sua própria transformação. Se alguém decide escrever com uma determinada indisponibilidade, a escrita anula-se na fraqueza de todos os actos da sua vida. Há uma força sem a qual a escrita não prossegue; uma presença interior que faz a ligação entre o pensamento e o escrito. A transformação é o desejo da diferença. É preciso respirar mais alto que qualquer palavra a ser escrita. Quando se escreve, a vida não pode ser pensada nos mesmos termos com que se vive. Há uma distorção da escrita, e uma distorção da vida; talvez seja a sua perfeição perante a realidade. Distorcer o pensamento para a escrita ser perfeita. A escrita torna-nos estátuas do nosso próprio pensamento.
O POEMA
1.
A escrita de poesia é a escrita que nos foge, que não controlamos. É como se caminhássemos por um lugar e não imaginássemos a quantidade de passos que é necessário dar para se chegar ao fim do poema. Como se pode prever que um verso entra dentro do poema se o primeiro pensamento é o poema todo ainda em construção? Tens uma imagem do próprio poema, mas ignoras o objecto da imagem que a escrita te impõe. O pensamento em poesia dá-te a dimensão do poema apenas como forma de trabalhares a intensidade do que sentes. A intensidade é um desespero e apresenta-se como obstáculo da própria escrita. A dimensão do poema é uma abstracção do escrito onde o poema vive em estado de representação emocional. Não é ainda o poema em condição real.
Há em ti uma abstrusidade no acto de escrever poesia que impede o poema de se revelar para além da sua qualidade mental. O pensamento figurativo do poema não garante a sua forma. Faz uma leitura do que pensas e questiona: será o teu pensamento que lê o poema que está a ser escrito, ou, pelo contrário, será o poema que lê o teu pensamento de modo a permitir que haja poesia? O poema só reconhece a sua existência se se identificar na leitura do teu próprio pensamento. A escrita de poesia está mais próxima da anulação do que da realização do acto poético. Se o poema já existe em consciência, perfeito na sua dimensão e objecto de interioridade intensa, então só é necessário entender o que o poema rejeita como escrita excessiva. É como se escavássemos a face de uma pedra de modo a anularmos a matéria que impossibilita a leitura da imagem que ela nos quer transmitir.
Sabes que para chegar ao interior de um poema é imperativo abandonar alguns pensamentos como quem abandona as ferramentas desnecessárias em face de um determinado objectivo. Só dessa forma o poema estará disponível para se deixar captar pelas regras da anulação. Em acto criativo, um poema nunca se apresenta como um fim. Não há um limite para as palavras que constituem o poema. Se uma pintura (um quadro) é condicionada pelo espaço de representação; se uma escultura vive da matéria que lhe é reservada; o poema impõe-se como complemento da sua fragmentação. O pensamento sobre o poema continua mesmo fora do poema. E é sempre assim nessa fuga e perseguição que a escrita de poesia exerce a sua atracção.
Publicou, entre outros, Na Escrita e no Rosto (poesia) – Prémio Inasset Revelação de Poesia do Centro Nacional de Cultura; Conversas Terminais (romance) – Bolsa de Criação Literária pelo Ministério da Cultura; Brutal (romance); O Carteiro de Fernando Pessoa (romance); A Caverna de Deus (romance) – Prémio Literário Cidade de Almada; Humanidade (poesia); Arte Humana (poesia); Coreografias da Linguagem (poesia); Fuga Intempestiva (poesia); Um Estudo do Humano (poesia); Um Homem Parado na Esquina do Mundo (romance) – Prémio Literário Alves Redol; A Força Única – Escrever (crónicas).










