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A Guerra de Febres (1888) (o maior motim popular após a Maria da Fonte): II parte | Manuel Cidalino Madaleno

Por Roque Gameiro - A TRIBO DOS PINCÉIS: Quadros da História de Portugal (1917), Domínio público

 

As vítimas civis

 

A Guerra de Febres, com os seus seis mortos e um número indeterminado de feridos, terá sido a maior insurreição ocorrida no país após a Maria da Fonte. Por isso, não é de admirar que o mais importante órgão da imprensa regional da época – o diário O Conimbricense – tivesse dado, diariamente, grande destaque aos acontecimentos. O cruzamento da documentação disponível permite atestar o rigor da informação reportada por este jornal, tanto no concernente às ocorrências como no que se refere às vítimas militares (um morto e três feridos) e ao número de civis mortos (cinco). Já o número de populares feridos nunca foi aclarado, embora houvesse permanentes alusões que ele tivesse sido elevado.

 

Os assentos dos óbitos ocorridos em Febres no dia 9 de janeiro atestam que o ponto culminante da Guerra terá ocorrido cerca das nove horas da manhã, momento em que terão tido morte imediata quatro elementos da população e em que uma das idosas feridas viria a falecer cerca do meio-dia. Estas três horas, durante as quais a anciã agonizou, ter-lhe-ão permitido ser a única vítima à qual foram ministrados “… os Sacramentos da Confissão e Extrema Unção …”. Nesses mesmos documentos se pode verificar que os funerais foram realizados, no dia 10, não pelo pároco, que havia sido obrigado a fugir para Coimbra, mas pelo padre coadjutor José Ferreira dos Santos.

 

A fuga do pároco

 

De todos os relatos decorre que, numa primeira fase, a fúria da população contra o lançamento dos novos impostos camarários recaiu, por equívoco, sobre o pároco de Febres, Francisco Nazareth, que, “… depois de ser indignamente insultado e ameaçado, correu risco iminente de ser assassinado, como o foram vários indivíduos, a pequena distância da residência paroquial (…) e só com a maior das dificuldades se pode ocultamente evadir da freguesia, quando tinha de todo perdido as esperanças de salvar a vida, em razão de estar a sua casa cercada de numeroso povo armado, com ameaças até de incêndio” (CO 4278, 1888).

 

Ter-lhe-á valido, na circunstância, o sacristão José Pereira, cuja ajuda lhe terá permitido esconder-se e fugir durante a noite “… vestido de gandaresa” (NC 203, 1914). Dias depois, pediu a demissão das funções de pároco da freguesia, que exercia desde 1874, por considerar não estarem reunidas condições de segurança para a ela regressar. A sua solicitação mereceu a compreensão e o apoio do bispo.

 

Em agosto de 1888, O Conimbricense noticiava que “… até hoje, porém, havendo já decorrido mais de sete meses, não tem podido obter colocação; e se não fosse o agasalho de seu extremoso irmão (…) teria passado as mais duras privações.” O mesmo jornal referia ter sido publicada nesse mês, na Revista das Instituições Cristãs, “… uma portaria do Ex.mo Sr. Bispo Conde em que se mostra, pelo procedimento altamente criminoso de grande parte do povo da freguesia das Febres, que o reverendo pároco Sr. bacharel Francisco Rodrigues dos Santos Nazareth se acha moralmente impedido de voltar a exercer o seu cargo paroquial; e isto por ter sido zeloso no cumprimento das ordens do governo e do Ex.mo prelado diocesano, com respeito ao inquérito agrícola. Sendo, pois, este pároco uma vítima do cumprimento dos seus deveres (…), encontra-se impossibilitado de regressar àquela freguesia, que tão involuntariamente deixou” (CO 4254, 1888).

 

O sacerdote viria a ser mais tarde nomeado Cónego da Sé, cargo que exerceria até ao seu falecimento em 1914 (NC 213, 1914). Entretanto, em 1902, seria também provido no cargo de Promotor na Câmara Eclesiástica da Diocese de Coimbra (JC 666, 1902). Em 1911, a sua subsistência passou a depender da pensão que o regime republicano atribuía aos membros do clero que não recebessem côngrua.

 

A fuga do administrador do concelho

 

Após a retirada forçada das tropas e a fuga do pároco, a raiva do povo virou-se contra o administrador do concelho, António José da Silva Poiares, a quem tentou assassinar, culpando-o, não apenas pelas consequências da intervenção militar, mas igualmente pelos penalizadores impostos decretados pelo Município presidido pelo seu genro, sobre o qual ele exerceria o “poder oculto”15:

 

“Tais foram os erros económicos, as medidas tomadas e os vexames do imposto, que o povo cansado e justamente indignados se sublevou e tiveram então lugar os acontecimentos de janeiro. O Dr. Poiares, publicamente enxovalhado na praça de Cantanhede, onde o povo, num daqueles movimentos desordenados, levado pela ira e ódio, embriagado pela indignação, queria arrancar a vida ao homem a quem devia todos os vexames, todos os impostos desmedidos, conseguiu escapar à ira popular e fugiu para Coimbra depois de o povo lhe ter atirado à cara a lama da rua, o excremento dos animais” (DP236 37, 1889).

 

Sobre estes acontecimentos, e com a espuma dos tempos já dissipada, António Cabral, então administrador do concelho da Figueira da Foz e futuro ministro, escreveria:

 

“… homens e mulheres de Murtede, empunhando armas de fogo, paus e foices, invadiram a vila de Cantanhede, dando morras ao administrador do concelho e levantando vivas estridentes à República. O administrador, Dr. Poiares, refugiou-se no edifício da Câmara e Tribunal, não tornando a aparecer, durante a revolta. O regedor de Murtede foi morto pelos populares, assim como o sargento Pessoa, comandante do destacamento militar, que marchava para Febres, contra o qual foram disparados tiros, que, além da morte do sargento, feriram muitos soldados. O destacamento, assim atacado, fez fogo sobre a multidão dos revoltosos matando cinco. Além disso, o povo, enfurecido, tentou incendiar o edifício onde se achavam instaladas as repartições públicas da vila de Cantanhede e matou o negociante, Ferreira Machado (…). Durante seis ou mais dias, no concelho de Cantanhede, reinou a desordem, a confusão e o desassossego”.16

 

Duas semanas após os sangrentos acontecimentos de Febres, O Conimbricense deixava implícito que havia sido o ódio do povo a constranger Poiares ao abandono do cargo de administrador do concelho e a mudar a sua residência para Coimbra:

 

“Está nesta cidade o Sr. bacharel António José da Silva Poiares, administrador do concelho de Cantanhede, resolvido a abandonar esse emprego e estabelecer banca de advogado em Coimbra” (CO 4216, 1888).

 

“Mudou a sua residência de Cantanhede para [Coimbra] o Ex.mo Sr. Dr. António José da Silva Poiares, abalizado jurisconsulto e ex-administrador deste concelho. Os motivos que obrigaram S.ª Ex.ª a tomar tal resolução são bem sabidos em todo o concelho …” (CO 4217, 1888).

 

Só vinte anos depois, Poiares se voltaria a envolver diretamente na luta política cantanhedense, ao encabeçar, como independente, uma chamada Lista do Concelho patrocinada pelo emergente Partido Republicano que se opôs, nas eleições municipais de 1908, à lista do monárquico Partido Regenerador.

 

A insensibilidade do governo e as novas matrizes

 

Para os objetivos do povo, o balanço da Guerra parece ter sido relativamente contrastado: a Câmara recuou, anulando o agravamento dos impostos municipais; mas o governo, “sequioso de dinheiro” e indiferente aos tumultos, ordenou o prosseguimento do inquérito agrícola, “… exigindo dos secretários que, por meio de avaliações elevadas (…) fizessem aumentar o rendimento do Estado, as contribuições” (VP 21, 1889).

 

Percebendo os perigos daqui decorrentes, num momento em que as feridas da Guerra de janeiro estavam ainda bem abertas e o clima social se mantinha explosivo, a Junta da Paróquia de Febres, na sessão de 10 de maio de 1888, “… constando-lhe que várias freguesias do concelho haviam requerido reforma de matrizes e obtiveram nova louvação (…) e visto que a matriz ultimamente feita na freguesia das Febres subira a um total, além de desigual, incrível e vexatório [decidiu suplicar, por abaixo-assinado, a S.ª Majestade] uma nova avaliação de prédios (…) razoável e aceitável.”17

 

Contudo, as súplicas dos povos não apiedavam os governantes que, surdos aos desesperados clamores, continuavam a esbanjar “… todas as gotas do suor do povo …” na gestão “extravagante” dos dinheiros públicos.

 

De tal insensibilidade resultou que, exatamente um ano depois, em maio de 1889, os povos retomassem as manifestações de fúria. Desta vez, porém, o hipocentro da revolta fixou-se em Arazede, onde o povo, “… obedece[ndo] à força insustível de uma indignação justa, grandiosa, sublime, excitada pela precisa defesa da sua propriedade, pela fome que se avizinha, [e] pelos sagrados cuidados que lhe merece o futuro dos seus filhos, [fez] tocar os sinos a rebate como se uns salteadores lhes invadissem a freguesia; os delegados do Estado são apedrejados e obrigados a fugir para salvarem a vida. (…) outros povos se insurgirão contra as espertezas do governo!” (VP 21, 1889).

 

O mesmo jornal explicava que a fúria popular era ainda maior porque este aumento de impostos havia surgido “… numa ocasião desgraçada…” em que “… a filoxera, a lagarta e outros males [tinham] diminuído o rendimento [dos agricultores, havendo] lavradores outrora abastados [que ficaram] empenhados, sem esperança de resgate” (Ibidem).

 

Os motins de Arazede e outros que, entretanto, se multiplicaram fizeram com que as autoridades, temendo novas ocorrências graves, interrompessem as operações de avaliação (JC 8, 1889). Esta suspensão manter-se-ia até 1895, quando foram “… ultimadas as matrizes prediais (chamadas novas) de Covões, Febres, Cadima e Tocha …”, das quais resultaram aumentos das contribuições cuja moderação foi, finalmente, pacificadora (JC 314, 1895).

 

UM POVO EM REVOLTA DURANTE DÉCADAS

 

Os motins de Febres, de Murtede e de Arazede haviam provocado nos habitantes da região uma espécie de duradouro trauma coletivo. Sobre eles parecia pairar em permanência o espectro de que, a qualquer momento e sob o mais ínfimo pretexto, novas rebeliões pudessem ser atiçadas. Em 26 de maio de 1889 – quase um ano e meio volvido sobre a Guerra de Febres – o jornal A Voz do Povo questionava:

 

“Quem sabe se, em breve prazo, serão fracas as baionetas dos soldados para conterem os ímpetos da multidão desesperada e perdida, [que reage] contra as espertezas do governo [e] contra a opressão dissoluta das camadas superiores”? (VP 21, 1889).

 

Com a notada exceção do Executivo municipal, era então manifesto que os agentes políticos, aos diversos níveis, haviam tomado plena consciência de que a menor centelha poderia propiciar novas deflagrações de violência. Por prova, o mesmo jornal saudava o bom-senso de alguns políticos locais que haviam abortado um comício progressista marcado para Cantanhede, “inquietos” com o receio de que nele aparecessem “… os povos de Arazede, Murtede e Febres …”

 

Ainda assim, menos de seis meses após a Guerra de Febres e a Sublevação de Murtede, o Executivo do Município pretendia, a toda a força, deliberar um novo aumento de impostos. Valeu, na emergência, a sensatez dos quarenta maiores contribuintes do concelho, que impediram que tal medida fosse adotada.18

 

Apesar destes três gestos pacificadores – anulação do comício, rejeição do aumento das contribuições e suspensão das avaliações prediais – as sequelas dos acontecimentos continuavam de tal forma presentes que o povo se recusava a obedecer a tudo quanto fossem decisões das autoridades, ainda que viessem do próprio governo e ainda que nada tivessem a ver com tributação. Em dezembro de1890, O Conimbricense noticiava que “… na freguesia de Febres, (…) o povo se recusara a aceitar os boletins para o recenseamento geral da população, sendo este serviço agora feito na administração do concelho por informações que ali vem prestar o regedor da mesma freguesia.” E concluía: “Efetivamente levantou-se na freguesia de Febres uma certa má vontade contra o recenseamento da população (…). Essa má vontade foi acalentada pelos mesmos que, por ocasião do recenseamento agrícola, fomentaram o estado violento em que o concelho então se colocou” (JC 80, 1890).

 

Tal observação reincidia na ideia propalada pelas autoridades concelhias de que a população de Febres havia sido a principal responsável pelo clima de revolta que, embora com graus de violência diferenciados, havia alastrado a todo o concelho. E como não era a primeira vez – nem seria a última… – que o povo de Febres escolhia procedimentos vigorosos para protestar contra decisões que considerava vexatórias, O Conimbricense via esta forma de reagir, não como testemunho de forte temperamento coletivo, mas como demonstração de profunda incultura:

 

“Tal freguesia é um verdadeiro Estado no Estado. Para ela não há lei nem autoridade. (…) Quanto pode a ignorância e, mais que tudo, a impunidade!”

 

A verdade é que os febrienses, em sucessivos momentos das décadas seguintes, tudo fizeram para justificar esta reputação. De entre elas, destaca-se a sobrevinda em 8 de janeiro de 1906 – no dia do 18.º aniversário da sua Guerra – em que “… uma grande massa de povo das Febres, viera armado de varapaus e outras alfaias à sede do concelho, com o fim de agredir o escrivão da fazenda que teve de fugir pelas traseiras da repartição. O povo das Febres mostrou por uma forma muito significativa o seu protesto contra as exageradas indústrias que este ano lhes foram lançadas (…). [Exigiam] saber a razão por que apareciam coletados sem fundamento para o ser (…).

 

Independentemente das polémicas, o que o povo de Febres sentia era que, na sua forte arremetida contra a administração fiscal havia saído, mais uma vez, vitorioso porquanto “o digno e mui ilustrado administrador deste concelho, ao ter conhecimento das justas reclamações dos povos das freguesias de Febres e Cadima, deu conhecimento à autoridade superior do distrito [e] obteve pronto deferimento,por parte do governo para que aquelas freguesias continuassem a ser coletadas como terras de 6.ª ordem e não de 5.ª (…) (JC 869, 1906).

 

Notas

 

15 Poiares era líder concelhio do Partido Progressista, ao qual havia aderido em circunstâncias controversas. O próprio Partido acusava-o de traição e de gerir a partilha dos poderes em Cantanhede entre si, o seu genro, alguns fiéis amigos e o Conselheiro Ferreira Freire, seu teórico adversário, deputado e chefe local do Partido Regenerador. Assim, os Executivos municipais seriam meros “… fantoches camarários que só dançam e bolem quando o dito Sr. Poiares puxa pelos cordelinhos” (VP 31, 1889). Por agir na sombra, era alcunhado de “poder oculto”, epíteto que considerava uma “infâmia” (JC 13, 1889). Tendo sido expulso do Partido Progressista em maio de 1888, na sequência dos erros cometidos na Guerra de Febres, e embora não mais tendo ocupado cargos políticos, nunca deixaria de exercer o “poder oculto” através do genro e dos amigos.

 

16 CABRAL, António (1929), As minhas memórias políticas – Cinzas do passado. Lisboa, Livraria Popular Francisco Franco, pp. 110-111.

 

17 Livro de Atas da Junta da Paróquia de Febres – 1876-1894, pp. 78v.-79.

 

18 Desde 1882, por determinação legal, os orçamentos municipais eram apreciados e aprovados pelos quarenta maiores contribuintes de cada concelho.

 

Fotografia de Manuel Cidalino Madaleno

Nota biográfica:  Nascido em Febres, em 1953, Manuel Cidalino Cruz Madaleno concluiu o curso da Escola do Magistério Primário de Coimbra em 1972. Obteve, posteriormente, o Diploma Superior de Estudos Franceses e os graus de Licenciatura e de Mestrado em Ciências da Educação, na Universidade de Lille (em cujo Departamento de Educação Permanente lecionou), bem como a Licenciatura na variante de Português-Francês. Traduziu várias obras para a língua portuguesa, colaborando em revistas e jornais editados em Portugal e na França. 

Manuel Cidalino Madaleno é autor do ensaio Educação ou Armadilha Pedagógica? (2006), de um extenso Contributo para a História do Território da Primitiva Freguesia de Febres e 10 volumes da Coleção “Construir a Memória da Região de Cantanhede”. 

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