Cultura

A alegria de ler Delírio animal de João Habitualmente | Nuno Brito

Foto de Tim Mossholder na Unsplash

João Habitualmente. Delírio Animal. Porto: Exclamação, 2024

 

 

É sempre com grande alegria que a poesia acontece. A Alegria é complexa. Tem também ela muitas faces, mas a alegria mais completa é também, ainda que por instantes, ver todos esses ângulos, porque alguém que amamos nos veio dizer o que está do outro lado, e do outro ainda, e quanto mais amamos mais vemos e mais completamente unimos uma visão de conjunto, e talvez essa é a felicidade, (Vemos o colosso de frente, dos lados, de trás, de cima). Vemos de todos os lados porque vemos também de dentro. Esse é o momento de criação poética, ver a partir de dentro: o lugar onde vive o que é inteiro e se expande então por tudo. O lugar das histórias que nos compõe fisicamente enquanto seres humanos: “Somos feitos de histórias assim como somos feitos de ossos, de sangue, de nervos” (Mia Couto: O Universo num grão de areia). 

 

Habitualmente, o João deixa-nos sempre o melhor de si, da sua história e das suas histórias. Habituamo-nos a esperar do João o melhor que uma história pode oferecer, a surpresa, a perplexidade, o espanto e o maravilhamento diante do mundo.  O João conta com sabedoria e conta com prazer. Há um prazer em ler o João, há também uma admiração, mas há sobretudo alegria e riso, um riso inteiro, infantil e cheio. Muitas vezes me ri muito ao ler este “Delírio Animal” e isto não é tão comum ou habitual como se pode pensar. Poucos livros, histórias, poemas nos fazem rir, rir genuinamente, e rir com felicidade – não camadas de riso irónico, não o sorriso, o sorriso de cumplicidade, o sorriso tímido, mas a verdade pura do riso, que é a própria vida a fluir de espanto, de força e de verdadeira felicidade), o riso de “Delírio animal” é próxima do riso inteiro que nos fala Cesariny em “Pastelaria”, com os dentes brancos à mostra, o riso jovial e humano que nos acompanha em “Delirio animal” é também um rir (de tudo e com tudo) porque vitalmente há uma alegria e um delírio criador, pulsante, vital a celebração. Este é então um momento de felicidade, de celebração do delírio que há na criação. É por isso este um livro cheio e profundo mas também de uma grande transparência e vitalidade. 

 

Se o poeta brasileiro contemporâneo Manoel de Barros nos falava de uma sabedoria animal, João Habitualmente nos lembra também para uma sabedoria animal, uma sabedoria partilhável e risível, no que o riso tem de mais puro, sábio e contagioso. E por isso as micro-narrativas que o compõe nos contam cada uma sobre um animal ou conjunto de animais, quase todas remetendo para memórias infantis, relações e referências pessoais e familiares. São eles todos relatos curtos, quase todos não excedendo uma página de uma riqueza imagética tão dialogante com as lindíssimas ilustrações de Helder Carvalho que as intervalam. São 54 relatos breves onde se organizam as diferentes espécies por ordem alfabética: da andorinha, relato inicial de uma grande vitalidade humorística à Vaca (Vaca 1 e Vaca 2), passando pelo burro, o caracol, o gafanhoto, o louva-a-deus, o pica-pau, a pulga, o polvo, a sardinha ou o porco, numa unidade que celebra a biodiversidade e a opulência da diferença no mundo animal; numa unidade que parte da atenção vívida, diremos nitidez ou espanto inicial ao detalhe, que se serve da riqueza expressiva das expressões populares, dos provérbios, das expressões idiomáticas, da canção tradicional, a cantilena, a música popular portuguesa e sobretudo de um constante jogo de trocadilhos em forma de palavra-puxa-palavra geradora de um teia textual criativa, amplamente imagética, onde acontece uma constante criação de palavras. O neologismo é neste delírio animal uma forma natural de gerar humor e de criar imagens inusitadas, mas também de nivelar a linguagem com o espanto e delírio da vida animal: “criar para dizer a verdade / criar para corresponder e criar para ser sincero, num exercício de geração de verdade, as palavras que designam os animais vão se desdobrando em múltiplas palavras novas e num jogo de palavras que valoriza a musicalidade e o tecido sonoro do texto num próprio exercício inventivo de estranhamento  naquilo que Mia Couto chamava de “brincação” com as palavras: “A ameijoa vejo-a e almejo-a” (p.77) “o garnijosé” (p.63), “esquilofrénico”, “esquilómetros quadrados”, “esquileto” (p. 53), “percevejo” (p. 93): invenção de palavras que vêm da fala  infantil: “faganhotos” (p.61), inventiva por natureza como lembraria Manoel de Barros: “a criança erra na gramática mas acerta na poesia” (Manoel de Barros, 2010). A criação de João Habitualmente acerta na poesia, na criação e na verdade da linguagem, que para ser transparente e nos dizer algo tem de ser acertada e correspondida por um dizer inicial, e original, aquilo que Guimarães Rosa diria como um método, uma forma de escrever: “que implica na utilização de cada palavra como se ela tivesse acabado de nascer, para limpá-la das impurezas da linguagem cotidiana e reduzi-la a seu sentido original.” (1965). Os automatismos da linguagem, artificiais encontram a sua desconstrução também nas formas populares originais de expressão artística como a cantilena popular que João Habitualmente lembra, “eu sou a formiga rabiga que te salta em cima e te fura a barriga”; também a música popular de Zeca Afonso é constantemente relembrada, “também ele um naturalista” lembraria João Habitualmente, “a formiga no carreiro” (p.59), “Maio Maduro Maio”, “Do Choupal até à Lapa”, “Coro da Primavera”. A música em vários géneros torna-se então presente, das referências com bastante humor aos concertos dos Scorpions em Portugal, ao universo da música eletrónica com as raves e os festivais do universo hippie, presenças e pegadas humanas de um encontro artificial com o mundo natural que que são contrastadas com a opulência vital do mundo animal, no que ele tem de insólito livre e impulsante de um delírio e de uma vitalidade excessiva a que o riso dá mais ampla expressividade e poder sugestivo. Dessa forma, o centro unitário deste livro é também o amor enquanto estado e ofício de estar no mundo, expressões como: “amar o marisco como a nós mesmos” (p.77) são usadas enquanto centros que nos lembram o essencial, a transparência a criatividade e a empatia aqui presentes, amplificadas pelo humor, são na sua essência em Delírio animal o resultado de um amor imenso ao mundo, ao animal e ao humano, um amor imenso à vida e à loucura criadora que o excesso de vitalidade parece fazer transbordar em tudo. Este é, por isso, um livro de opulência e de liberdade, de vitalidade, transparente e sincero,  um livro cheio de imaginação e de invenção e por isso mais verdadeiro. Lembraria ainda Manoel de Barros “Tudo o que não invento é falso” – É por isso esta criação e este Delírio animal um festival de verdade e da possibilidade, um dizer intenso a diversidade e da vida, a vida mais ampla, a vida com riso, a vida com risco, a vida cm humor, complexa simples, a vida verdade. 

 

Nuno Brito, 

Buffalo, 18 de Dezembro de   

2024.

 

REFERÊNCIAS: 

 

COUTO, Mia. O Universo num grão de areia. Lisboa: Caminho, 2019.

 

HABITUALMENTE, João.  Delírio Animal. Porto: Exclamação, 2024. 

 

ROSA, Guimarães. Diálogos com Guimarães Rosa, entrevistado por Günter Lorenz. Disponível em: http://www.elfikurten.com.br/2011/01/dialogo-com-guimaraes-rosa-entrevista.html. Acceso em: 02 de Fev do 2023.

CÉZAR, Pedro (Dir.) Manoel de Barros. Só dez por cento é mentira. (Filme documental Brasil: 2010) Em: https://www.youtube.com/watch?v=VG4P_mWWAI0  Acesso em 18-12-2024.

 

Fotografia de Nuno Brito

Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É Professor Visitante no Departamento de Línguas e Culturas Românicas da Universidade de Buffalo em Nova York e autor dos livros: Delírio Húngaro (2009), Antologia (2011), Crème de la Crème (2011), Duplo-Poço (2012), As abelhas produzem sol (2015), Estação de serviço em Mercúrio (2015), O Desenhador de Sóis (2017), Ode menina (2021) e Escrever um Poema sobre a Liberdade e vê-lo arder (2022).

Qual é a sua reação?

Gostei
0
Adorei
1
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Cultura