Cultura

Lançamento no Brasil: “A vida, a morte e outros penduricalhos”, de Luís Giffoni, resenha, um conto | Caio Junqueira Maciel, Luis Giffoni, Rogério Faria Tavares, Myrian Naves, org.

Foto de Brazil Topno na Unsplash

“A vida, a morte e outros penduricalhos”, de Luis Giffoni, Editora Patuá

 

Lançamento no Sempre um Papo: “A vida, a morte e outros penduricalhos”, de Luís Giffoni, resenha, um conto

 

Sempre um Papo com Luís Giffoni e Caio Junqueira Maciel

 

 

 

No dia 4 de maio de 2024, o escritor Luís Giffoni participou do Sempre Um Papo, no Brasil, na Academia Mineira de Letras. A conversa foi mediada pelo escritor e professor Caio Junqueira Maciel. 

 

Na ocasião, Giffoni apresentou seu novo livro de contos “A VIDA, A MORTE E OUTROS PENDURICALHOS” (Editora Patuá, São Paulo, 2024). A obra aborda momentos cruciais da passagem humana com humor e ironia. Nas tramas, as tensões de vida ou de morte, bem como de acontecimentos importantes, levam a uma interpretação do momento atual do Brasil urbano, com seus sonhos, trapaças, violências, crenças, crendices, lutas, tesões e desencantos. As histórias se passam em diversas cidades, em diversas camadas sociais, com personagens saídos da nossa realidade.

 

Luís Giffoni tem 26 livros publicados, entre romances, contos, crônicas, teatro, ensaio e literatura para jovens. Recebeu alguns dos mais prestigiosos prêmios literários nacionais. Dedica-se, há mais de vinte anos, à divulgação da importância da leitura para o bom funcionamento do cérebro. Participou de feiras do livro e proferiu palestras em todo o Brasil, nos Estados Unidos, Canadá, México, Peru, Argentina e Europa. Curte longas caminhadas e os netos. Ocupa atualmente a Cadeira 33 da Academia Mineira de Letras.

 

A Associação Cultural Sempre Um Papo é uma sociedade civil sem fins lucrativos, de caráter cultural. Sua missão é contribuir para o desenvolvimento de políticas de incentivo ao hábito da leitura a fim de formar cidadãos mais críticos. Criado em 1986, pelo jornalista Afonso Borges, o “Sempre Um Papo” é reconhecido como um dos programas culturais de maior credibilidade do País. Em sua história, já ultrapassou os limites de Belo Horizonte e chegou a 30 cidades, em oito estados da Federação, além do Distrito Federal, tendo sido realizado também em Madri, na Espanha. Com o tempo, vieram outros projetos e iniciativas que visam o incentivo à leitura e possibilitam, conjuntamente, a associação entre cultura, educação e responsabilidade social.

 

(O Sempre Um Papo, de acordo com as leis brasileiras, é viabilizado por meio do patrocínio da Cemig e da Emgea, com o apoio do Itaú, via Lei Federal de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, Lei Rouanet.)

 

QUANDO O NOME É MAIS DO QUE UM PENDURICALHO

Caio Junqueira Maciel

 

Zuenir Ventura, na orelha do livro de Ana Maria Machado O Recado do Nome (Rio de Janeiro: Imago, 1976) observa que “o Nome próprio, em Guimarães Rosa, não é uma etiqueta distintiva e aleatória, mas um sistema carregado de intenções e significações. Compreendê-las é indispensável para fruir toda a riqueza do universo de Rosa.” Creio que não apenas em Guimarães Rosa, mas em vários autores de nossa Literatura, a começar com José de Alencar e Machado de Assis, a maioria dos nomes de protagonistas – e, em muitos casos, até de personagens secundários – são emblemáticos para a urdidura de suas narrativas.

 

Se o trabalho de Ana Maria Machado buscou “examinar a relação entre o sistema onomástico e a estruturação da narrativa” na obra rosiana, nosso objetivo, aqui, é apontar a significação de alguns nomes ligados às narrativas do livro de contos A vida, a morte e outros penduricalhos, de Luís Giffoni (São Paulo: Patuá, 2024).

 

O primeiro conto, “Sapatinhos de bebê”, é narrado por Jurema, nome que remete à planta cujo licor enfeitiçou Martim, amante da índia Iracema, fazendo-o com ele a engravidasse. A gravidez, já sugerida no lírico título, é o ponto central da estória: Jurema, que é tratada por Ju por seu amante, deseja engravidar-se, contrariando seu amante, Gotardo – tratado como Dinho. Este solta um palavrão, “porra”, ironicamente inserido após a sugestão de ele ser pai. Em seu nome, aliás, vem a “gota” por que tanto almeja Jurema. Acho curioso que “gota” também me faz lembrar de um antológico conto do italiano Dino Buzzati, “Uma gota”, publicado em As montanhas são proibidas (Tradução de José Paulo Paes, São Paulo: Companhia das Letras, 1993). Não preciso dizer da semelhança entre Dino e Dinho, embora o autor me garanta não conhecer esse texto do Buzzati.

 

Em “A garota que tinha nome de música”, há um triângulo amoroso que se transforma em ménage a trois envolvendo os jovens Douglas, Hélio e Ruby Tuesday – a misteriosa moça cujos olhos “têm o tom da carambola pouco antes de amanhecer”; nela não se pode pendurar um nome, como diz a canção dos Rolling Stones. O nome é revelado ao final, Celestina, embora houvesse já uma dica ao saber que a diarista que faz limpeza se chamava Celeste. Essa moça se divide entre Douglas (cujo nome significa águas turvas, e Hélio, relacionado ao Sol). A gravidez de Ruby vem quebrar o desenfreado erotismo como vinha se desenrolando a narrativa. Nesse conto, há uma passagem em que Ruby brinca com os pênis de seus amantes comparando-os com as espadas de Luke Skywalker e Darth Vader. E esses são personagens do célebre filme que dá título ao oitavo conto, “Guerra nas estrelas”, em que o menino Raul, nome que significa “o que segue o conselho dos lobos”, e por ter dez anos, é encarregado de levar seu primo Carlos, de 4 anos, para assistir a esse filme de George Lucas. Raul, cujo nome é luar de trás para frente, nada tem da suavidade de um plenilúnio: age como uma espécie de lobo mau, sua fala é marcada por palavrões e ele tenta induzir o primo a falar mentira para poder entrar na sessão proibida para menores de cinco anos. Fiel ao nome, que significa guerreiro, o menino Carlos luta de certo modo, evitando mentir.

 

E a mentira está no título do nono conto, “Os mentirosos”, ambientando em Trindade, nas proximidades de Paraty, onde um jovem músico, “Joleno”, pastiche de John Lennon, se envolve eroticamente com uma senhora mais velha, que diz que se chama Carol, nome que remete à canção de Neil Sedaka, dos anos 1950. Mas ambos são escolados em mentiras. O nome verdadeiro de Carol é Gertrudes, que significa aquela que é íntima da lança. Menos pelo significado, embora haja um quê de fálico, o que importa é o caráter velhusco do nome, que remete também à mãe de Hamlet.

 

Em “A nave rosa-choque”: pai (Elias) e filha adolescente (Isabella) estão em uma loja para aquisição de azulejo para banheiro. A menina quer tudo em rosa, mas o material não está disponível. Pessoas estão olhando celulares e telas de TV, pois um OVNI rosa-choque paira sobre a Casa Branca. O pai da garota crê a princípio que tudo é farsa, mas pouco a pouco vai se convencendo da espantosa verdade, outra nave paira sobre Jerusalém, um comentarista diz “Será que todos morreram? Será que esses invasores mataram milhares de inocentes, sem qualquer piedade? Meu Deus, hoje é o dia mais terrível para a humanidade. Hoje é o dia da ira”. O nome da adolescente remete à realeza, mas o mais significativo é o nome do pai, associado ao Elias bíblico, profeta hebreu citado nos Livros de Reis I e II e que subiu ao céu numa carruagem de fogo, primeiro caso de abdução que se conhece.

 

Nomes bíblicos não faltam em “O Profeta”, pois aqui o narrador tem o nome de Josué, e a intertextualidade que norteia a trama é o Deuteronômio – o livro da Segunda Lei –, quinto livro do Pentateuco, primeira parte da Bíblia. Josué, no texto bíblico, é o sucessor de Moisés, atua com verdadeiro militar, e tudo faz para possuir a Terra Prometida. No conto, Josué tem como companheira Dinorah, que está desaparecida. Na Bíblia, há o nome Dinah, que é filha de Jacó e Lia (aquela feiosa, irmã de Raquel, filhas ambas de Labão). Ainda, segundo o texto bíblico, Dinah é daquelas mulheres que fica à margem dos relatos, condenada ao esquecimento e reduzida ao pó. Detalhe que vai surpreender o leitor no final do conto, pois a esposa de Josué já está morta. O narrador protagonista ouve vozes na pia, privada, chuveiro, gemidos de pessoas que sofrem e ele conclui que tais ruídos nasceram de sua própria dor, da sua perda. Há uma passagem alusiva ao sol parar, que remete a uma citação bíblica. Josué frequenta igreja evangélica e um pastor lhe diz para não colocar quadros com figuras humanas nas paredes. O irmão de Josué é Davi, um marginal que acaba baleado pela polícia, mas que possui muito senso de humor, ironizando o sofrimento do irmão, aconselhando-lhe ir a um psicanalista. As vozes incitam o personagem a matar o irmão, e, ao frequentar outra igreja, inesperadamente Josué começa a falar trechos do Deuteronômio, justamente passagens que há maldições aos que desobedecem às leis. E há trecho também do Livro de Reis falando em cozinhar e comer o próprio filho. Quem não sabe que a Bíblia tem intensas histórias de horror e de sexo? A narrativa apresenta nas linhas finais um fluxo de consciência em que se encadeiam verborreia, alucinação, chacina: penduricalhos no caos de um mundo agônico. 

 

Podemos considerar duas narrativas relativamente próximas, no que diz respeito ao desejo, à busca, ao inconsciente. São os contos “Um coelho corre na Serra do Curral” e “Amigos”. O texto do coelho é estruturado em cinco blocos, enumerado de um a cinco e mais outros dias. A protagonista tem o mesmo nome da personagem de Lewis Carroll e com ela se confunde em suas confusões de mulher senil. Ela tenta fazer um sapatinho de crochê para a bisneta, cujo nome esquecera. O nome fugiu, até que ela chega no apelido Gil, derradeira sílaba do verbo fugir no passado. O seu trabalho no crochê remete a uma velha crônica de Giffoni, marcado por um olhar de lirismo, aqui retomado: “Por isso, as velhas gostam tanto de crochê: prendem o tempo nas malhas, empurram o esquecimento para o futuro, ganham sobrevida no mundo. Enquanto se distraem, tecem a própria permanência. Quem não admira um crochê bem feito?” À medida que os dias se sucedem, vamos acompanhando a demência da velha, seu delírio a evocar as viagens de Alice em seu mundo de maravilhas. 

 

Em “Amigos” um psicanalista chamado Jamil (formoso, belo) contrata o detetive Pereira para procurar um amigo de adolescência chamado Menahem. (antigo rei de Israel), mas abrasileirado para “Menachen” sugere o trocadilho “me achem”, inevitavelmente associado à busca, E fica claro que esses amigos têm nomes que remetem aos povos em eterno conflito, árabes e judeus… O detetive traz uma foto em que Menachem exibe um bigode com pontas que lembram anzóis, “como se quisesse fisgar o tempo perdido”. Há toda uma carga de homossexualismo velado no interesse que o psicanalista tem pelo amigo, que será reencontrado numa praça em homenagem a Rita Lee, que corre o risco de ser vandalizada, como sói ocorrer com monumentos urbanos.

 

Há outros textos assinalados por morte e/ou violência. Em “Crucifixos”, uma moribunda sintomaticamente chamada Dolores está em seus momentos finais, rodeada pelas filhas Laura, Leila Lydia, e o filho Betinho. A narrativa, de certo modo, retoma aspectos que Giffoni desenvolveu no romance Adágio para o silêncio, com cenas de humor negro e elementos grotescos envolvendo os rituais da morte. O humor vai se desenrolando num crescendo, como se vê, por exemplo, no apelido do sacristão Lucrécio, Incenso, que emprestará um crucifixo avantajado para o velório de Dolores. O nome Lucrécio (rico) pode estar ligado à má fama de Lucrécia Bórgia, cujo pai foi Papa. A própria figura de Lucrécio, curvado e com “a passividade arregalada” de seu olho de vidro, evoca o Quasímodo de Victor Hugo. Há mesmo a junção do sagrado com o profano, envolvendo masturbação, São Tarcísio, e o viés paródico do qual não escapa sequer o “ecce homo” e o gran finale de uma via crucis.

 

Em “O túmulo”, o narrador Laerte, nome que significa “o que levanta pedras”, é intimado a ir ver o túmulo que seu amigo, o previdente Zé Marcondes havia mandando edificar, seria “seu spa definitivo”. Há muita ironia na referência aos suntuosos túmulos ao redor, em que os milionários mortos são vistos como bandidos. Há um defunto chamado Denário, nome que remete à sua vida de usura. Laerte, arquiteto que optou por ser contador de histórias infantis, será responsável, junto a um empreiteiro, para a construção do túmulo. O texto tem um desfecho com pitadas de humor e o realismo fantástico. O lauto jantar num restaurante italiano. O tiramissu, e o irônico significado: me leve pra cima. O morto-vivo que é recebido por Denário.

 

Em “A despedida”, Antony é o protagonista, moribundo em um hospital. A cena me lembrou de um episódio da série Família Soprano, em que o protagonista, também Antony, estava em coma, rodeado por seus amigos mafiosos. O grotesco do conto reside nos palavrões do moribundo que considera Deus como o maior fake news… 

 

Um dos mais fortes textos da coletânea é “Bala perdida”, que apresenta a iniciação de Helinho, (pequeno sol), de 13 anos, no mundo do crime, ele que já trabalhava como “aviãozinho” para seu primo Nando, (ironicamente o nome Fernando significa ousado para atingir a paz) numa das bocas de fumo do Rio de Janeiro. O menino vai ser submetido a uma prova de fogo para receber as honrarias de seu primo, numa passagem extremamente cruel contrapondo civilização x barbárie. Sua primeira vítima fatal, de nome Clarisse, foi sua professora de português e seu nome, óbvio, tem ressonâncias clariceanas, e ela vai ter sua hora da estrela. 

Em “O velho tem que morrer”, reaparece Nando, que estimula sua namorada Tiffany (nome oriundo de teofania, manifestação de Deus) a dar um tiro num velho que lê e escreve, ao lado de esculturas de Quixote e Sancho. Como em “Bala perdida”, “A polícia sempre dizia que as mortes nos bairros ou nas escolas tinham sido causadas por bala perdida, como se bala mudasse de direção no meio do caminho e não soubesse mais pra onde ir.”

Em “Ternura”, a mãe do traficante assassinado foge com o neto. È o único texto que não contém palavrões e justifica o pinheiro da capa do livro: A mulher vai se esconder em São Lourenço, nas imediações da Serra da Mantiqueira, onde há muitas araucárias.

Embora perpassem pelos contos de Luís Giffoni muita morte e violência, o que mais me agrada nesse escritor é a verve humorística, com destaque ao humor negro e a ironia – o que pode ser atestado em muitos dos nomes de seus personagens. Assim como em Guimarães Rosa, segundo vê Ana Maria Machado, “um autor para quem tudo significa, e em cuja obra o grande personagem é a palavra”, também em Luís Giffoni, apesar da abordagem do caos e da barbárie, o autor cré que “a Palavra tudo cria, gera e gerou”, mas há que se questionar se a Palavra é inflexível lei que permite massacres e carnificinas.

 

Trecho da apresentação do livro, escrita por Rogério Faria Tavares

 

“Se o título do novo volume de Luís Giffoni sintetiza – não sem ironia – a condição humana, a epígrafe que antecede as histórias, assinada por Robert Frost, é uma eficiente chave para compreender o que propõe o livro: “Posso resumir em três palavras o que aprendi sobre a vida: a vida continua”. Engenhosa, a frase ecoa no contato com o universo ficcional gerado pelo autor em uma dezena e meia de textos. Neles, a existência e o seu fim são faces da mesma moeda, acontecimentos tão imbricados um no outro que às vezes fica até difícil distingui-los. Há um tanto de vitalidade na morte. E vice-versa”.

 

PÃO DE QUEIJO

Um conto de “A vida, a morte e outros penduricalhos”, 

Luís Giffoni

 

 

Não aguento mais pão de queijo. Já comi uns dez. Ou vinte. Comi sem fome. Sem vontade. Toda hora a moça vem com a travessa, a mesma travessa de louça branca que começou a servir desde cedo, cheia de esparramar, você não quer mais um, querida, tiraí, eu digo obrigada, ela insiste que eu coma esse pão de queijo mais murcho que maracujá murcho, eu fico sendo educada, pego outro, mastigo o tempo, o tempo dura tanto quanto o pão de queijo na boca, torci pra travessa cair e quebrar, e a moça ir embora ou sumir. Acho que está com dó de mim. Quer me encher de comida pra eu esquecer. Eu é que enchi antes.

 

Quando ela me vê outra vez e parte pra cima de mim, eu levanto depressa, olho pra mamãe, peço um socorro que não vem, corro pra fora, chego até à porta da rua, as pessoas passam, levam a vida de correria nesta bosta de cidade metida a capital da galáxia, os carros zunem na Rua São João Paulo II, todos me ignoram, não querem saber o que acontece comigo, ou com ninguém além deles mesmos, um celular toca, o mesmo barulho do meu, nada mudou desde a manhã desse pesadelo, nem aqui nem no mundo, todos sentem o mesmo calor que eu, volto vítima de todos os olhares na sala que não largam o meu pé desde que aqui entrei, e penso que sou idiota. Muito idiota. Devia dizer não, fim, chega, não quero mais pão de queijo. Muito mais simples. O problema é que estou sem lugar. Mas lugar não falta. A sala é grande. Tem muito sofá e poltrona. E cadeira junto das paredes. Gente que nunca vi veio me ver, dar dois tapinhas no ombro, trazer o cumprimento deles e do fulano que não sei quem é, tem o beijinho no final, o olhar comprido pra mim, o comentário de duas palavras e, quando veem a mamãe, fazem o sinal da cruz que nem cruz faz de tão rápido. Ela está tranquila. Estranho que esteja tão tranquila. Eu não estaria. Poria muita revolta no rosto.

 

Ainda não acostumei com a ideia. Como não acostumei com este cheiro pesado, que ocupa todo o ar, mas que nunca cai no chão, fica parado, cada vez mais largo e pesado, cada vez mais dentro da minha cabeça, cada vez mais espremendo meu coração. E esse zumbido do vozerio que não muda de assunto nem de tom. Igual colmeia. Gosto muito da minha mãe. Tive muita sorte de ter mãe assim. Ela é puro carinho. Papai também. Adoro eles. A gente era feliz. Passo a mão nela outra vez e sento na cadeira ao lado que reservaram pra mim. Um segundo depois, levanto. Mais gente que nunca vi. Mais dois tapinhas nas costas e as duas palavras infalíveis. Depois ouço que dona Aurora não pôde vir, mas adorava minha mãe. Abro meu sorriso e agradeço. Acho que percebem que sou fingida. Agora não importo mais. Podem achar o que quiserem.

 

Hoje não fui na escola. Não teve como. A escola toda veio até aqui, as amigas chorando, os meninos com cara de quem fez coisa errada, olho no chão, mudos ou resmungando coisas que parecem ter engolido sem mastigar. Estão engasgados. Mas me dão energia boa. Até o Naldo foi gentil, ficou segurando minha mão um tempão, sem coragem de olhar direto nem falar gato. Eu que queria tanto segurar a mão dele não senti nada, fiquei bobalhona, encarando ele com um pouco de vontade de chorar, sem coragem de ir em frente. Era só destampar um pouco, e meu mundo desmontava de vez. Segurei, segurei, o choro e a mão. O máximo que aconteceu foi eu deitar no peito dele, ficar ali fazendo ninho por quase um minuto. Um ninho que eu queria pra nós dois. Ele chorou, eu não.

 

Tio Zé chegou, fico feliz. Amo meu tio, meu favorito numa dúzia de um lado e do outro da família. É o irmão mais novo da mamãe, sempre brincou muito comigo, quando me via me levantava e rodopiava até a cabeça ficar zonza, hoje a gente toma sorvete no shopping toda sexta depois da aula e ri de tudo, me chama de Princesa desde que eu era menina. Mas ele me ignora e vai depressa falar com o tio Marcão, o mais transtornado dos parentes, solta a dor igual aqueles sapos que não tomam ar entre um coaxado e outro, e só fica alisando o cabelo da mamãe sem parar, de olho atravessado pra mim. O olhar dele me dá um pouco de medo. Arrumou um amor diferente que não é amor, é uma coisa mais funda, vem de onde o amor desama. Tio Zé agacha no ouvido do tio Marcão. Eu dobro a atenção. Redobro. Sou muito curiosa, a mamãe sempre fala. E diz que isso é bom. Se ninguém fosse curioso, a gente ainda vivia na Idade da Pedra.

 

“Tudo ok, Marcão”.

 

“Deu trabalho?”

 

“Não”.

 

“38?”

 

“Na cabeça”.

 

“Seguro?”

 

“Seguro”.

 

“Depois me conta o resto”.

 

“Estou preocupado com a Princesa, sem pai nem mãe”.

 

“Preocupa não. A gente junta e acaba de criar ela. Nosso sangue”.

 

“E eu, quando eles descobrirem?”

 

“Fica calmo, Zé. Calmo, viu? Finge que nada aconteceu. Tudo dura uma semana neste mundo de Deus. Só a morte de nossa irmã é para sempre” – tio Marcão acaricia a mão da mamãe por baixo do filó.

 

“O filho da puta mereceu” – tio Zé me olha como se eu não existisse.

 

“Se mereceu. Matar a esposa pra pegar dinheiro pra crack… Puta que pariu. Puta que pariu. Nossa irmã, Zé, nossa irmã morreu por conta de crack. Não dá pra acreditar. Não posso acreditar”.

 

“Não vou arrepender nunca”.

 

“Você vingou a nossa família. Fica tranquilo”.

 

O tio Zé levanta, passa a mão no cabelo da mamãe, beija a testa dela, faz o sinal da cruz e vem me abraçar. Fala, Princesa, Princesa querida, te amo, minha fofa, tudo vai ficar bem, sempre vou estar do seu lado, ele não para de repetir essas coisas. Me aperta com tanta força, tenho vontade de pedir pra parar, ele insiste, Princesa, Princesa, minha querida… Chora tanto que eu percebo as lágrimas no meu pescoço. Eu afasto o chorão. Seu olhar tem ternura, mas não tem mais amor. Eu também esfrio. E esquento. Se pudesse, se tivesse coragem, eu dava três tiros nele. 38. Na cabeça, igual ele falou.

 

“Você quer um pão de queijo, querida?”

 

“Não quero não!” – eu grito. – “Estou cheia dessa bosta de pão de queijo! Cheia!”

 

Todos me olham como se eu tivesse matado alguém.

***

 

fotografia de Luis Giffoni

Caio Junqueira Maciel, escritor brasileiro, mineiro de Cruzília. Mestre em Literatura Brasileira, pela UFMG, Professor, editor, autor de livros didáticos. Livros: Um estranho no Minho, O sangue que rejuvenesce o Conde Drácula, A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota, entre outros.

 

fotografia de Caio Junqueira Maciel.

Luís Giffoni, escritor brasileiro, tem 26 livros publicados, entre romances, contos, crônicas, teatro, ensaio e literatura para jovens. Recebeu alguns dos mais prestigiosos prêmios literários nacionais. Dedica-se, há mais de vinte anos, à divulgação da importância da leitura para o bom funcionamento do cérebro. Participou de feiras do livro e proferiu palestras em todo o Brasil, nos Estados Unidos, Canadá, México, Peru, Argentina e Europa. Curte longas caminhadas e os netos. Ocupa atualmente a Cadeira 33 da Academia Mineira de Letras.

Caio Junqueira Maciel, escritor brasileiro, mineiro de Cruzília. Mestre em Literatura Brasileira, pela UFMG, Professor, editor, autor de livros didáticos. Livros: Um estranho no Minho, O sangue que rejuvenesce o Conde Drácula, A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota, entre outros.

Qual é a sua reação?

Gostei
1
Adorei
1
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Cultura