Cultura

Cadernos de Gethsemani II: La transmutación del portador de las aguas, de Moisés Cárdenas | Jorge Vicente

Foto de Jeremy Thomas na Unsplash

  • A espera de um novo planeta. Os animais das águas [os peixes] criando – como Deuses – seres primitivos que, com as pedras brancas, tomam em suas mãos a construção de um novo mundo.

 

  • A espera de um novo planeta. Ainda as águas. Mas também o momento mágico em que o ser humano [ou o Poeta] [ou um Ser Primitivo dotado de inteligência] é tocado, talvez, pelo Anjo.


  • O Poeta levado pelo espaço sideral, visitando planetas, asteroides, “mundos estranhos”, estranho mundo em que uma inteligência cósmica espalha a sua pintura numa página em branco.


  • Levado por um estranho pássaro castanho para a lua / para um cometa / para a constelação do Cisne e contemplar o fogo, evocando Heraclito e o seu universo em permanente devir.


  • Voando, abrindo as portas para novo mundo [o portão] [a abertura mágica para o Aberto do cosmos], ao som e com as asas do pássaro de fogo Zhar-Ptitsa. Desse canto, o nascer do poema e da água.


  • A água / o gelo / Plutão, o pequeno planeta / Plutão, o deus da antiga mitologia. O gelo evocando a morte. O gelo guardando [prendendo] as águas glaciais da terra. Lúcifer preso no gelo. Que Plutão, Moisés, evocas?


  • Urano, deus dos céus entrega a safira nas mãos do Poeta. Safira / nobreza, sabedoria e a generosidade do deus / o sétimo anjo / o sétimo círculo / o sétimo planeta. É para onde vais, Poeta, é esse azul que te foi entregue.


  • Para onde, Poeta, vão esses animais regurgitados / cuspidos? De que névoa primordial as tuas águas são feitas?


  • Águas do instinto, águas do nascimento humano, águas do porvir da linguagem? Que mente e que cérebro habitará o réptil do Poeta?


  • Que réptil, que Minotauro, que espada, que vingança poderá ser escrita quando, no final da tua visão, for desenhada a filosofia da fluidez? Elohim tocarão as tuas mãos, ou as tuas mãos tocarão a polaridade do teu humano?


  • A tua escritura / as águas da Poesia sempre regressarão ao colo fértil da metáfora.


  • A Poesia é pássaro / Verbo viajante / Verbo que alimenta sóis e exoplanetas e retorna sempre ao Azul.


  • A Poesia é incerteza e trindade: Poeta, Poema, Poesia. Mundo.


  • Esgotaremos a Palavra? Estaremos dispostos a ceder a esse sangue, que nos banha e resiste? Estaremos condenados [ou abençoados] a criar sempre novos sóis, purgando o Velho?


  • E da tinta dos relâmpagos da mão de um Anjo que pisa o céu, a Palavra, o Verbo [talvez demiúrgico, talvez com a luz da serena fúria].


  • E dessa potência, os cinco raios que o Anjo toma do universo / e lança / e abala a estrutura da Poesia.


  • E da música dos Anjos nasceu-se uma terra [uma nova terra], melodia e força e potência / e majestade sobre as suas cabeças.


  • E a sereia é pássaro e voa até ao sol / e enfeitiça com prazer subterrâneo. Será a Palavra prazer subterrâneo que se espera e se acende?


  • Surge o elemento Terra: a terra escondida, invisível, mas geradora e que faz brotar. O casamento e a consagração: novos mundos, novas possibilidades, o oceano cabalístico.


  • Sempre a água. A dimensão elemental da água. E os beijos / os amorosos beijos estendidos numa entrega líquida.


  • E tu, Moisés, acederás a esse segredo?


  • Ou terás de buscar os demónios / os três demónios assassinos de Hiram Abiff? E buscando-os [regenerando-os] transmutarás as palavras.


  • A lua [o duplo, a dobra da lua] reflecte a sua própria existência. Reflectes tu a tua, Poeta? Será o poema reflexo amoroso de si próprio?


  • Sacudirás os teus próprios espelhos, a tua própria imagem? Sacudirá a Terra a sua própria reflexão? Sacudir-se-á para deixar entrar o Aberto?


  • Dançarás com as três mulheres dos trajes de seda? Alimentarás o fogo / resplandecerás?


  • Beberás o vinho pousado na mulher das três serpentes? Que árvore escreverás tu? Que escritura saberá nascer do desejo escorrendo palavras?


  • O mundo. O mundo segurando o talismã, a protecção e a língua: a  música. A tua [nossa] melodia na língua de uma guitarra.


  • O mundo. O mundo novo. O novo lugar onde insectos sobrevoam a terra húmida. A terra dos inícios. As nossas marcas [as tuas] são a voz desse lugar.


  • Esse lugar onde os cristais iluminam o ocaso.


  • Esse lugar onde nos perguntamos o que é Poesia e onde ela está. E Está. E É. E sabemos que É em tudo.  


  • As águas antigas [sempre antigas], mas tão reais e físicas como as gaivotas voando para as ondas.


  • E a chuva. E os aguaceiros. E os pequenos [e grandes] Seres dançando e transpirando no éter e nos seus sonhos. Toda a escritura dança com as asas de uma borboleta.


  • E que pássaro será esse, Moisés? Pássaro que traz a libertação / folhas de ouro caídas das árvores? Que pássaros são esses que trazem o som / a chuva / que se lançam sobre a Poesia?


  • Aqui, o Inverno, o recolhimento, a capa das nuvens. A velha árvore que descansa / os pássaros que guardam o seu canto. Chuva / pequeno dilúvio que recolhe o sol.


  • O vento agreste. Crepúsculo. Do recolhimento [Pralaya], abrirá o sol os seus olhos e estenderá as suas mãos para tudo o que vive: a velha ameixeira, tu, eu. Nascerá daqui nova manifestação [Manvantara] e um novo Éden?


  • O Azul. Brota água do Azul. Brota água da rocha que se olha / se deixa observar. Brota água da montanha azul. Brota água.


  • O Amarelo. A luz do sol. O zimbro que estende as suas mãos [ramos] para o astro luminoso. A escritura [a página] iluminada. Apesar das lágrimas, das tuas serenas lágrimas. O zimbro. O zimbro é planta medicinal e renasce a primavera.


  • O teu pássaro azul e a tua Terra Nova. Não cedas à angústia da procura. Caminha com a serenidade do descanso e absorve o que de transcendente Elyon te oferece. O vaso nupcial do teu paraíso.


  • Deixa-te voar com quem te voa. Os querubins. Quando pisares a terra [o teu solo mágico], olha, observa as esferas que voam / a flor que te observa e que tu [sem passado nem futuro nem julgamento] olhas com olhos de eternidade. A viagem é sempre recordação, voar é uma escada aberta para uma outra dimensão. Recordas o planeta / recordas-te a ti no voo e no solo.


  • Mesmo na triste viagem, na natureza agreste, no silêncio quase espectral, sem canto de acordar e enlevar, surge sempre a luz e a voz elemental da fada que te atravessa [como ponte para outro mundo].


  • O Poeta parte. Com todas as suas incertezas, com todas as suas leituras, com a sua história, com a sua mala azul, com o seu corpo e a sua própria viagem. Viagem através de montanhas, constelações, caminhos. E encontra os pássaros. Agora negros, com clarões de laranja. Que se lançam e bicam o espaço. Que espaço, a qual residência se lançam na tremura da tua viagem?


  • A literatura espalhada, estendida, ritualizada. A literatura companheira, com todos os elementos naturais que a acompanham: os pássaros que voam / se escapam, os cães que cheiram e se abraçam, a ave que olha, a lua que clama, a borboleta que se desprende e voa. A literatura e os livros falam e conjugam o cosmos junto de si. Mas a melancolia e a terra que se deixou para trás são pedaços de silêncio e ausência que permanecem. Que névoa demorará os poemas?


  • Aqui os cristais. Os cristais caem. Os cristais iluminam. Ali, no teu lugar de origem, a névoa cai. A névoa entranha. Tudo que importa é a mudança, a transformação [transfiguração] do Ser que vive, que és e que Há.


  • O poema é um ser vivo e é chama no Reino do Sol. Que reino, que Verbo guardarás para ti, Poeta? Mesmo quando as pedras dormem e o jardim é podado?


  • Descansarás, beberás água de uma taça de cristal e ser-te-á renovada a alma. Caro Moisés, o teu belo Pássaro Azul és tu mesmo.


  • E as pequenas águas subterrâneas, que lastimam e que se mantêm adormecidas serão nascente e visão agora e no futuro.


  • Serão os olhos do tigre conjugação perfeita de um tempo cristalizado nos elementos? Serão os olhos do tigre o tempo observando-nos na sua real multiplicidade?


  • O sol incendiando a Poesia e transformando-a em escuta, em som. O Verbo ouve-se / e pensa-se no templo da cabeça, o nosso Sol central.


  • A Poesia [e os seus olhos] se deixam iluminar pela simplicidade do que acontece: o galo canta, os cães bebem a água da fonte, do colibri poderão nascer flores. A Poesia é comunicação e testemunha do Vivo.


  • A Poesia é ritual, invocação, olhar de criança, rega e consagração. A voz que temos dentro é-nos trazida por nós mesmos quando chegamos à margem do rio.


  • As idades. As idades perdidas. O tempo perdido. O passar do tempo na transitoriedade da vida. Já não brilhas como criança, és memória e perda, mas o rio ainda tem luz a fluir.


  • E essa luz flui de novo. Renasce. E brota do toque da guitarra. E assustará o deus das trevas. Que visitantes habitarão a tua luz e a tua escritura?


  • Sonharemos de novo a liberdade? Seremos capazes de criar um novo céu e uma nova terra com compasso e esquadro? Veremos nós de novo as mãos de Hiram Abiff construindo as ideias?


  • Teremos a capacidade de saudar quem nos olha, mesmo na obscuridade de um buraco negro? Olharemos nós o nosso próprio reflexo com leveza e brevidade / espelho que reflecte e que é forma e lamento?


  • O poema é quase felino / quase gato. Um poema-felino que se perde e que é testemunho e que foge por entre os arbustos e que pode narrar. Narrar a fuga, o encontro, o lugar e os lugares. Narrar, narrar ao ouvido, contar histórias / narrar a escritura de todas as galáxias.


  • E poderão as tuas palavras voltar a florir?

Jorge Vicente, Sintra, Portugal

“Cinco_1: fotografia de Jorge Vicente. Fotógrafo: Ozias Filho.

Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas, participando, igualmente, nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem seis livros publicados, sendo o último Os ventos e as marchas (Urutau: 2025).

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