Cultura

O ritmo da pétala | Cecília Kemel

fotografia de Adriano Wintter.

O ritmo da pétala_1

Pétalas são componentes delicados, de suavidade quase mística. Desprender-se uma pétala da corola é ato natural. Porém, ao poeta, esse movimento assume um significado amplo, avassalador, digno de um tratado ou mais de um. Assim é Sobre a queda de uma pétala (ed. Lumina, 2025), de Adriano Wintter: um conjunto de poemas que incitam a contemplar e vivenciar a pétala em sua integridade e desintegração.

 

A obra está dividida em quatro partes chamadas Tratados, subdivididos, por sua vez, em artigos contendo poemas identificados, no corpo do livro, como § (Parágrafos). Do início ao fim, Adriano Wintter desafia a estrutura poética tradicional na composição de versos que não ultrapassam as cinco sílabas. Vai além, no entanto, explorando termos linguísticos de uso restrito, embora amplos sejam os significados imanentes a cada poema.

 

A aliteração e a assonância, congregadas a uma cuidadosa métrica, conduzem o ritmo dos textos, enxutos e melodiosos, e fazem da leitura uma fruição harmônica ao ouvido, atingindo a mais remota sensibilidade do leitor. A par dessa característica, nenhum dos poemas é superficial: todos têm, ao mesmo tempo, abrangência e luz única, abrindo-se a interpretações várias e reflexões maiores. São construções elaboradas com esmero para serem lidas e apreciadas, uma a uma, em seu próprio contexto: cada composição, uma pétala.

 

Destaco, por sua especialidade, o Terceiro Tratado, composto de um só artigo, que abrange sete poemas, todos cuidadosamente desenhados em assonância fechada: /o/. Essa característica contribui para a ideia sombria que vem ao encontro da titulação desta parte, Theatrum Belli / inferno apétalo:

 

                              no recôncavo

                              cabouco

                              imbondo: bojo

                              fordo

                             de lodo

                             zona

                             zopa: mogo

                             morboso

                            ou ponto

                            de peçonha

                            III, art. único, § 3.°, p. 99.

 

O Quarto Tratado, o último, composto de sete artigos com vários poemas, diferencia-se também, embora pela exploração da sonoridade em /i/:

 

                             flamívola fibra

                             inicia

                             com sua investida

                            no labirinto

                           um exercício

                           de ascetismo

                           que consiste

                          em dirigir

                          o ínfero

                          ao sublime

 

                          IV, art. 6, § 2.°, p. 160.

 

Nos demais Tratados, a assonância alterna-se com a aliteração, em cuidadoso trabalho do autor no sentido de associar ritmo e texto:

 

                             a flor frange

                            (bolsa bamba)

                            sob a brisa

                            (bomba lisa)

                            e sua ponta

                           (pingo longo)

                           flutuando

                          (lança d’anjo)

                           rasga a vida

                          (rocha ríspida)

 

                          II, art. 4, § 1.°, p. 85.

 

É notório que o poeta executou um trabalho de fina pesquisa, conjugando seu talento em produto poético de alta qualidade. Da utilização de recursos distintos resultaram os versos exclusivos destes Tratados de Sobre a queda de uma pétala.

 

fotografia de Adriano Wintter.

Adriano Wintter (Porto Alegre, 1971) é poeta e tradutor, autor de A Busca da Luz (1992), Luz Léxica (1993–1995), Apotheosis (1996), Polimusa (2010), Mero Verbo (2010), Porto Alegre Desolada (2011), Clara Mimese (2012), O Ciclo do Amor Recomeça (2013), Ágrafo (2014), O Plectro & as Horas (2015), Quórum da Luz (2016), Sob o Baque do Belo (2017–2021), Totelimúndi (2022), Suma Lúcida – Poesia Reunida (2023) e Sobre a Queda de uma Pétala (2025). Foi traduzido ao inglês, francês, espanhol e catalão, colaborando em revistas da Espanha, Portugal, México, Argentina, Chile e Colômbia; além das publicações nacionais, como a Revista da Academia Brasileira de Letras, Sibila e Suplemento Literário de Minas Gerais. Traduziu José Kozer (Cuba), Fernando Bensusan (Espanha) e os uruguaios: Victor Sosa e Alfredo Fressia. entre outros.

 

Fotografia Cecilia Kemel

Cecilia Kemel é mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1978). Poeta, escritora e crítica literária, ocupa a cadeira número 13 na Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, além de integrar a Academia Cachoeirense de Letras, a Academia de Belas Artes do RS e a AGES (Associação Gaúcha de Escritores). Participou em mais de 15 coletâneas e antologias. É autora de Sírios e Libaneses: aspectos da identidade árabe no sul do Brasil (antropologia, Edunisc, 2000), O Livro (poemas, Ed. Bestiário, 2022), Para mulheres que… (contos, Ed.Bestiário, 2023 – com versão para o francês: Pour les femmes que… Ed.Capital Intellectuel), Eduardo Jablonski, o maestro das letras (ensaio, Ed. Bestiário, 2024), Moinhos moem o tempo (poemas, Ed. Bestiário, 2024), Cleber Pacheco, o artífice de mundos (ensaio, Ed. Bestiário, 2025), Angra (poemas, Ed. Bestiário, 2025), O plural é singular (romance, Caravana Editorial, 2025) e Não derramarás o vinho (poemas, Ed. Litteralux, 2026).

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