Cultura

EDITORIAL: O Longo Braço da Memória | Alfredo Soares-Ferreira

Imagem: José Coelho / LUSA
Por estes dias, entre o Abril em flor e o Maio maduro da nossa imaginação, ressurge sempre o primeiro dia do mês, a festa e a Luta, numa associação plena de afirmação no que tenta ser o contraste entre a energia popular de setenta e quatro e a cruel frieza burocrática de certas decisões políticas actuais. Na dúvida, clamamos Abril e Maio, defendendo a esperança perante os sórdidos propósitos de governantes sem um pingo de dignidade.
Arrastados na onda reaccionária, os trabalhadores remam contra a maré, fazendo valer a beleza da luta proletária. Se temos ou não “a graça”, como sustenta o realizador italiano Paolo Sorrentino, no seu admirável filme “La Grazia”, ora em exibição, ficamos pelo menos com um pensamento singular: “a graça é a beleza da dúvida”, que resume o espírito da obra e que
afirma, com toda a firmeza, que o exercício da dúvida é uma qualidade rara na política atual.
De memória se fala neste tempo, com toda a propriedade. De quem a preserva e de quem sistematicamente trabalha, na sombra ou às claras, para a destroçar. Contrastes bem nítidos entre atitudes assumidas ou declaradas, umas e outras merecem destaque pelas melhores e pelas piores razões. O historiador francês Pierre Nora, da terceira geração da Escola dos
Annales, terá concebido o conceito “lieux de mémoire”, ou “lugares de memória”, que dá nome a uma obra monumental de sete volumes publicada entre 1984 e 1992, que reuniu mais de uma centena de autores para inventariar os símbolos, espaços e rituais onde a memória colectiva francesa se cristalizou e de que são exemplos concretos, entre muitos outros, o Panteão, o Tour de France e a Declaração dos Direitos do Homem. Na cidade do Porto, as memórias andam por aí, à procura de lugar, pela mão de Luís Monteiro, museólogo e investigador, que desenvolve investigação em Estudos do Património, com o projecto “Memória e Projecto: subsídios para um museu activista do antifascismo no Porto”. As gráficas clandestinas, os cafés da resistência, os objectos escolhidos como símbolos de memória e
resistência, as esquinas onde a PIDE esperava, são precisamente lieux de mémoire, lugares onde a memória se cristaliza, desde que haja “vontade de recordar”. O que Monteiro propõe e realiza é devolver vontade a lugares que o esquecimento oficial tentou neutralizar.
Do outro lado, há quem diária e sistematicamente esteja a “produzir” um trabalho de apagamento e silenciamento. A administração direitista, aliada ao grupo de choque da extrema-direita, decide que a sua tarefa número um é a ofensiva contra os trabalhadores, consubstanciada no “pacote laboral” e na perseguição a todos os símbolos de Abril e Maio, esvaziando a Comissão Comemorativa dos cinquenta anos do 25 de Abril, reduzindo o
financiamento a museus e arquivos ligados à resistência antifascista e afastando ostensivamente os responsáveis do Museu do Aljube e do Teatro do Bairro Alto. O “braço longo” da memória, que deveria proteger o passado, é aqui truncado por uma guilhotina reaccionária. Não se trata de questões meramente administrativas, mas sim uma tentativa de deslegitimação da própria luta que tornou possível a democracia. Para o filósofo francês Paul Ricœur o esquecimento não é apenas uma falha natural da memória, mas uma eficaz arma política. Quando um poder decide apagar determinados acontecimentos da narrativa colectiva, não está a permitir o esquecimento natural, está a impor esquecimento. Ricœur define assim, na sua obra “A
história, a memória, o esquecimento” de 2001, o chamado “esquecimento comandado” (“oubli commandé“). A sua tese resume-se em que a memória impedida e o esquecimento comandado de modo abusivo fracturam a identidade do homem capaz. Esta é a evidência da acção perniciosa do actual governo da República, um bando triste e incompetente de funcionários, comandado por um indivíduo com problemas com a Justiça, todavia sempre
“escondidos” e “esquecidos” por uma comunicação social rasteira e presa fácil dos interesses do dinheiro e completamente dominada pelas corporações capitalistas. Não admira pois, o comportamento e a atitude dos reaccionários, individualmente ou em grupo, perante a memória. Eles serão sempre o sustentáculo do esquecimento. Deles apenas será de esperar a reacção a todos as intenções e movimentos colectivos para a salvaguarda da memória e a
preservação do conhecimento. O historiador português Manuel Loff, tem insistido num ponto incómodo: não há regimes democráticos consolidados sem uma política de memória activa. O que vemos hoje, sustenta ele, é a emergência de “memórias reaccionárias” que tentam branquear o passado fascista e deslegitimar a revolução de Abril.
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A beleza da dúvida reside, neste campo de Luta, em determinadas certezas: tivemos cinquenta anos de regime fascista, uma guerra colonial injusta, uma polícia política suporte da prisão e da tortura, um povo analfabeto e uma sociedade prenha de infelicidade. Mas, a luta contra a ditadura exige a certeza de que o regime foi criminoso, de que a tortura existiu, da eliminação indiscriminada de jovens quadros, enfim, certeza de que Abril foi necessário
e de que a memória não é um arquivo morto, mas sim, um campo de batalha.
Há memórias que não cabem em arquivos. Vivem nas paredes das cidades, nas esquinas onde se falava baixo, nas oficinas onde o mimeógrafo cheirava a luta. O 25 de Abril e o 1.o de Maio são, nesse corpo vivo da memória, duas coordenadas irrepetíveis: o dia em que se derrubou o regime fascista e o dia em que se celebrou, pela primeira vez em liberdade, a força de quem trabalha e resiste. Mas meio século depois, o longo braço da memória parece
esticar-se entre dois mundos opostos: o do apagamento deliberado e o da recusa obstinada do esquecimento. Porque lembrar incomoda, reafirmamos que houve greves pagas com sangue, que houve presos políticos, que houve tortura sistemática e tudo isso desmonta a narrativa confortável de que “o fascismo foi um mal menor”.
Este governo, ao decidir apagar oficialmente os rastos da resistência, provou que o braço da memória pode ser atacado pelo poder. Mas não cortado.
23 Abril 2026
Alfredo Soares-Ferreira

Fotografia de Alfredo Soares-Ferreira

Alfredo Soares-Ferreira é Autor de várias intervenções, comunicações e publicações sobre Cooperação e Educação para o Desenvolvimento, Cidadania e Geopolítica, em Portugal, Angola, Cabo-Verde, Espanha, Guiné-Bissau, Itália, Moçambique e Timor-Leste. É membro dos Colectivos “Porto Com Norte, Fórum de Cidadania”, “Fórum Manifesto”, “Liberdade e Pensamento Crítico” e “Tanto Mar”. É Redactor do Jornal on-line Diário 560. É co-Autor de “Portugal, Revolução, Unidade Socialista” (1977), “Bracarenses na Crise Académica de 1969” (2019) e “Paranhos em Poesia, Antologia Poética” (2021). É Autor de “Reflexos do Rio Torto” (2014), “Rio Torto- A Nascente” (2021), “Rio Torto- A Margem Esquerda” (2023) e “Escrita da Leitura” (2024). É Engenheiro de Telecomunicações, pós-graduado em Gestão e Estratégia Empresarial e em Administração Educacional. Actualmente aposentado de funções públicas, foi Consultor e Avaliador de Projectos Internacionais e Professor em diversos graus de ensino, secundário, profissional e superior.

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