Cultura

Antônio Henriques Leal e José Loredo Filho: ciranda de humanistas | Rossini Corrêa

Foto de Felipe Albertella na Unsplash

José Loredo Filho é mais do que um príncipe renascentista, posto que a sua ancoragem cosmoperceptiva antecede, em muito, a aurora da modernidade agônica, transmutada em pós-modernidade em crise. As evidências? As disputas pela hegemonia global, a multiplicação de conflitos bélicos diretos, vicários e/ou consorciados – de que a Faixa de Gaza, a Venezuela, a Croácia e o Irã, à sua maneira, são exemplos, bem como a construção midiática da aparente normalidade da barbárie, com as vísceras expostas sob a sombra nuclear do ciberespaço.

 

O reinado do caos, neste III Milênio em curso, sem rebuços, despontou como a regra, ou a antirregra, de vida da época do mundo, tornando cândidos, miseravelmente, aqueles cenários e personagens que Hannah Arendt retratou em Homens em Tempos Sombrios, os quais a levariam, frente a frente com o seu burocrático autor, a relatar a banalidade do mal, em Eichmann em Jerusalém. Compreende-se o sentido profundo da reflexão de Jean-Jacques Rousseau, no Discurso sobre as Ciências e as Artes, com o qual, em 1750, venceu o concurso da Academia de Dijon, ao responder pela negativa, para espanto quase geral, à seguinte pergunta: se o restabelecimento das ciências e das artes contribuiu para o aprimoramento dos costumes?

 

Ressignificando, ao retorquir e reverberar, o Cidadão de Genebra colocou em pauta a dissonância entre o progresso científico e tecnológico, de extrema velocidade, revolução após revolução, contraposto à marcha do ordinário na esfera da evolução moral da humanidade, descerrando o horizonte para uma vida social em que a aparência asfixia a essência dos seres e das coisas e o artifício reina soberano, como se fosse a culminância da verdade. De onde Norberto Bobbio, em A Era dos Direitos, ter resgatado a preocupação do rousseauniano Immanuel kant, com a sua busca de um signo prognosticador de um futuro a melhor, superior, para a humanidade, expresso no opúsculo A Paz Perpétua, no qual defendeu, nas pegadas do mestre genebrino, o advento da Liga das Nações, por suposto, a garantir a vigência de uma federação de povos livres, regidos por um direito cosmopolita, à luz de uma convivência universal, para sempre exonerada da guerra, sem fronteiras, sob a dialética do direito à hospedagem retribuído com o respeito e a gratidão. Aquele direito à hospedagem subjacente ao pensamento do Barão de Montesquieu, desembarcado na reflexão jurídica fulgurante de Rudolf von Jhering.

  

Eis o sentido finalístico do pensamento de Max Weber, desapontado com a racionalidade instrumental, fria e calculada, em tudo probabilística, a qual embargou e preteriu a racionalidade substantiva, levando a vida à despoetização contábil do mundo. Do telemóvel ao aparelho de televisão, em tempo real, foi possível, em todos os quadrantes, em quaisquer dos hemisférios, ser testemunha do bombardeio de uma escola de meninas em tenra idade, matando 175 crianças e funcionários e deixando feridas em Minab, cidade pertencente à província de Hormozgan, situada ao Sul do Irã. Em seguida, os senhores da guerra, disputando entre si protagonismos, passaram a decantar em prosa e em verso, o sucesso da operação, de hipotéticos veneráveis resultados, em que houve, em recorrência ao pânico psicossocial, a antecipação atômica do dia e da hora em que uma civilização multimilenar desaparecia para sempre, no aviso prévio do cometimento de crimes de guerra. Sim: operação poderosa e brilhante… Trinta e dois dias que sucederam o genocídio da Faixa de Gaza, massacre que deixou crianças, mulheres e idosos, antecedido pela tresloucada incursão do Hamas em festa e fazendas de Israel, causadora de mortes e promotora de sequestros, expondo toda uma comunidade desarmada e subjugada à fúria sanguinária e destrutiva dos que ambicionam ter para si a Faixa de Gaza, visando a sua ampliação territorial ou objetivando a construção de ressortes de infinitas estrelas… 

 

Esse é o mundo em que existe o humanista José Loredo Filho, a um só tempo, em paralelo, varão de Plutarco e homem de Unamuno. Editor, erudito, escritor, bibliófilo e pesquisador, não por acaso a sua casa publicadora tem por denominação Livraria Resistência Cultural Editora, posto que é o livro, este mínimo objeto máximo, parte necessária da construção de sentido para a sua lorediana intervenção de resistente, por meio da cultura e de sua democrática partilha editorial, do pão do espírito. À semelhança de Joaquim Nabuco, José Loredo Filho é um aristocrata quanto a valores, com efeitos democráticos, em consequência, quanto a seu agir concreto. Há quem, por preconceito ou por douta ignorância, discrimine a autodefinição lorediana como monarquista e tradicionalista, esquecido da improcedência da correlação de setores do movimento iluminista, segundo a qual, por suposto, toda monarquia seria absolutista e toda república seria democrática, quando a contemporaneidade da vida do mundo revela que algumas das melhores democracias são monárquicas, enquanto as repúblicas autocráticas, desejando a morte das democracias, multiplicam-se do Oriente ao Ocidente.

 

A divisão das águas, neste estarrecedor III Milênio, não se encontra, de forma central, entre capitalismo ou socialismo, mercado ou Estado, enfim, república ou monarquia. Está, a bem da verdade, no abismo existente, sem pontes possíveis, entre a barbárie reinante e supremacista ou a civilização plausível e a solidária. Eis que José Loredo Filho é humanista e solidário, sobre ser, removendo escombros bélicos, essencialmente pacifistas, como alguém da família espiritual de Rabindranath Tagore: “Adormeci e sonhei que a vida era alegria; despertei e vi que a vida era serviço; servi e vi que o serviço era alegria”. De onde o presente serviço da alegria contida na reedição de Locubrações, livro do médico, escritor político, biógrafo, historiador e publicista maranhense, uma legenda a serviço da amizade, Antônio Henriques Leal, como testemunham os cuidados póstumos com as obras de Antônio Gonçalves Dias e de João Francisco Lisboa. Livro indispensável para o conhecimento do Maranhão e do Brasil, a reedição de Locubrações é um congraçamento, entre o serviço e a alegria, de dois humanistas: Antônio Henriques Leal e José Loredo Filho. Está de volta o Plutarco Maranhense, reposto em circulação com os Apontamentos para a História dos Jesuítas no Brasil, o Pantheon Maranhense e a edição autônoma da biografia Antônio Gonçalves Dias, por mim sugerida, quando das comemorações do bicentenário do nascimento do poeta, assim como pelas vitoriosas Locubrações. Parabéns, José Loredo Filho. Bem Haja! 

 

Fotografia de Rossini Corrêa

Rossini Corrêa: Escritor, Advogado e Professor, membro da Academia Brasiliense de Letras, da Academia Maranhense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, da Academia Maranhense de Cultura Jurídica, Social e Política e da Sereníssima Academia Agostiniana.

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