Cultura

Uma manhã como outra qualquer | Silvia Quinteiro

Foto de qi na Unsplash

Era uma manhã como outra qualquer. As mãos frias no volante, o rádio ligado na estação do costume, o pensamento nos pequenos afazeres de casa que tinham ficado para mais logo, o telefonema da colega que a aguardava para o primeiro café do dia. A rotina. E, logo em seguida, o espanto.

 

Abrandou. Encostou o carro na rua quase vazia, baixou o tapa-sol e ficou presa à imagem: as máquinas paradas, o vazio irregular deixado pela demolição iniciada.

 

Baixou o vidro. Sem filtros entre ela e a paisagem, à sua frente, o fantasma de uma menina atravessou a rua e entrou pela porta inexistente do edifício. Era ali, ou algures por ali.

 

Entrou, como entrara tantas outras vezes. Um jogo de cartas depois do jantar. Uma conversa demorada. Sem pressas. Das que aconteciam antes dos telemóveis. Quando a televisão era a preto e branco e a emissão encerrava à meia-noite. Quando os adultos tinham tempo para conviver e as crianças para brincar. E ela brincara tantas vezes na antiga Moagem. A memória dessas noites nunca a abandonara. Na verdade, recordava-as sempre que ali passava. Os adultos à mesa, o fumo. Fumavam imenso. O casal que ali vivia tinha filhos, ou filhas — não se lembrava. Como não se lembrava da razão por que ali moravam. Já das correrias, dos gritos no escuro, do eco, de brincar aos monstros… ah, ainda sentia a frescura do ar, o cheiro das paredes, a alegria desses instantes.

 

De vez em quando, pensara em perguntar quem eram aquelas pessoas. O que faziam ali? Como se chamavam? Para onde tinham ido? Mas nunca chegara a fazê-lo.

 

Apeteceu-lhe impedir a demolição há muito inevitável. Desejou, com todas as forças, que o mundo parasse e que pudesse resgatar ainda esses fragmentos.

 

Nunca percebera por que razão as noites na Moagem permaneciam tão presentes na sua vida. Porquê aquelas? Não tinham sido decisivas. Nem particularmente marcantes. E, no entanto, relatava-as frequentemente aos amigos. Como se precisasse confirmar, com regularidade, a sua existência. Passar por ali e repetir “Sabes que…” impedia-a de as perder.

 

E agora, a demolição. O que havia de concreto a desaparecer. A consciência de estar a perder mais do que um lugar. De que aquelas paredes, mesmo em ruínas, não sustentavam apenas um telhado. Eram apoios, pilares da sua própria história. Um sítio onde, mesmo imprecisa, a recordação lhe garantia que aquelas pessoas tinham existido, que aqueles instantes de felicidade tinham sido reais. Aquelas paredes eram as últimas testemunhas desse fragmento da sua existência que, na sua ausência, se apagava.

 

Chorou. Havia muito tempo que não chorava. Chegara mesmo a acreditar que já não conseguia. Mas chorou.

 

O noticiário na rádio disse-lhe que estava atrasada.

 

Ligou o carro. Esfregou as mãos nas calças de ganga, tentando aquecê-las. Bafejou os dedos. Aumentou ligeiramente o volume do rádio e arrancou.

 

E foi então que uma outra imagem a visitou. Outra pequena memória. Persistente. Reiterada.

 

Uma mulher jovem. Percebia-lhe o rosto fresco, apesar de não conseguir distinguir as feições. Lenço atado sob o queixo. Roupa de camponesa. Uma pequena cesta de empreita na mão. Corria — ou caminhava muito depressa — por entre um campo de favas. Do céu azul e limpo desciam raios de sol que a emolduravam.

 

Sabia bem quem era. Contaram-lhe que a bisavó morrera com uma gripe apanhada ao atravessar um faval encharcado. Talvez a impressionasse, ainda hoje, a estranheza dessa morte. Morrer por ir à fava… inglório.

 

Nunca a conhecera, nem a quem com ela tivesse privado. E, no entanto, esta imagem instalou-se na sua mente como verdade absoluta. Naquele dia, porém, foi diferente. Entrou por ela adentro. Sentiu as pernas molhadas, depois o resto do corpo. Caminhou timidamente em direção à rapariga que fazia o percurso do costume. Cruzaram-se. Sorriu-lhe, mas ela nem sequer deu pela sua presença.

 

Ainda assim, foi o suficiente. O rosto. A semelhança inequívoca. Esse fragmento — inventado ou herdado — levou-a pelos corredores da Moagem, pelos campos molhados, pelos túneis vertiginosos do pensamento, e depositou-a num regaço seguro.

 

Não sabia ao certo de onde vinham estas imagens. E, ainda assim, era como se cada uma lhe dissesse, em silêncio: estiveste aqui, pertenceste a alguém.

 

E isso bastava-lhe. Porque tinha de bastar.

fotografia de Silvia Quinteiro.

Silvia Quinteiro: Professora Coordenadora na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve. Investigadora integrada do CIAC da Universidade do Algarve, onde coordena o grupo Lit&Tour. Colabora com redes e projetos internacionais, como a Rede Entremeio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o projeto LITESCAPE.PT – Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental e o projeto RuTIC das Universidades de Valência e Barcelona. Cocoordenou a criação da Rota Literária no Algarve e foi membro das equipas que elaboraram a Rota Literária Saramago no Algarve e a RuTIC; Coautora do livro Turismo Literário – Construção e Exploração de Roteiros (PACTOR).

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