Cultura

Em nome de Neruda: a crítica | José Eduardo Degrazia

Desde cedo Pablo Neruda (1904-1973) acostumou-se a grandes elogios, mas também a poderosas críticas. Dentre os primeiros, estão Garcia Lorca, Gabriela Mistral, Rafael Alberti e muitos outros poetas e críticos. No livro do poeta e político francês, Jean Marcenac, Pablo Neruda, Ed. Paisagem, Porto, s/d, livro de um admirador sincero de Neruda, vemos que chega a elevar a poesia do poeta chileno ao nível do sagrado, p. 115: “Solenidade, sim, “solene”… eis a palavra que eu procurava ao longo deste estudo. É com ela que eu quero concluir: a poesia não é nada mais do que a palavra humana quando o homem a usa para o culto do homem. E Pablo Neruda é um poeta sagrado.” Estranho, partindo de um marxista como Marcenac, designar Neruda como sagrado, mas é compreensível, diante da cosmogonia e da entrega do poeta Nobel de 1971 ao cosmo pré-colombiano, e ao tom referencial de suas odes aos ritmos de muitas literaturas religiosas e míticas do passado americano. Neruda não era nem um pouco sagrado, mas sua poesia, algumas vezes, sim. O próprio autor deste pequeno livro, diz na p. 85: “Onde encontrar hoje um canto mais profundo que o de Pablo Neruda? Pois que não é preciso enganarmo-nos nisso: eis-nos com este imenso volume do ‘Canto General’, perante uma poesia “total” da poesia. Não o esforço de fazer dizer ao poema isto ou aquilo; de povoar, de alentar, de explicar, de exaltar ou de auxiliar um ponto preciso ou particular; mas o bom uso do verso, o que se encontra quando a poesia é necessária, fora, afirmação da história, moral e conhecimento alternadamente, ou se preferem, cosmogonia.” Autor do livro “El lector de… Pablo Neruda”, Editorial Océano, Barcelona, 2000, Arturo Marcelo Pascual dedica algumas páginas aos detratores e inimigos de Neruda, diz, na p. 84, tradução minha: “É bem certo que a maior parte de seus adversários desaprovou sua poesia desde o ponto de vista moral ou político, ou se empenhou em converter suas virtudes em defeitos.” Neruda às vezes levava a sério estas críticas e escrevia poemas agressivos contra eles, e não os perdoou em suas memórias, como o fez com o poeta uruguaio Ricardo Paseyro (1925-2009) e com o seu compatriota Pablo de Rokha (1894-1968); já com outro grande poeta chileno Vicente Huidobro (1893-1948), foi bem mais generoso em suas memórias. Talvez, a crítica que mais tenha doído em Neruda tenha sido a do prêmio Nobel Espanhol Juan Ramón Jiménez (1881-1958): “Um grande mau poeta”. Eu, apreciador, leitor e tradutor de Neruda, fico com as palavras de Garcia Lorca: “(…) um autêntico poeta que tem os seus sentidos educados num mundo que é o nosso e que pouca gente percebe. Um poeta mais perto da morte do que da filosofia; mais perto da dor que da inteligência; mais perto do sangue do que da tinta”. 

 

fotografia de José Eduardo Degrazia.

José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951.  Médico oftalmologista, atualmente aposentado. Publicou 40 livros de contos, poesia, romance, teatro e infantojuvenil.  Tradutor de espanhol e do italiano, publicou 14 livros, entre eles, sete de Pablo Neruda. Colabora em jornais e revistas com crônicas e ensaios. Principais Prêmios Recebidos: prêmio Biênio da Colonização e Imigração, com Lavra Permanente, 1974; prêmio de teatro do SNT com a peça A casa dos impossíveis, 1975; finalista do Prêmio de contos Nestlé de Literatura, de 1996, com “O atleta recordista”; finalista do Prêmio Açorianos com Os Leões Selvagens de Tanganica, 2003; prêmio O Sul de Melhor Tradução com livro de Pablo Neruda, 2006; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores com o romance O Reino de Macambira; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de escritores com os minicontos de Deus Não Protege os Certinhos, 2021; prêmio Mihai Eminescu da Academia Internacional da Romênia para obra em Prosa, 2012; prêmio Internacional de Poesia de Trieste, 2013; prêmio de Poesia da União dos Escritores da Moldávia, 2015; prêmio de Tradução da Associação de Editores da Romênia, 2016; prêmio Karamanov da Macedônia do Norte, 2022.

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