
Era de noite o tempo em que a casa respirava. Uma respiração táctil, espessa, cheia de corpo. Toda atravessada dele. Não era a respiração nas paredes, não. Era ela. A casa como um cavilhame, um esqueleto de navio afundado, uma nave espacial. E o vapor das horas lá fora. Ou como um submarino povoado de histórias, ressonante de conversas antigas, também elas vivas, também elas corpo. Tudo na casa eram ecos, vozes, rumores, que tanto me chegavam uníssonos ou se dispersavam pelos vários cômodos, pelos quartos, pela sala, a cozinha e, sobretudo, a biblioteca. A casa da livraria como eu gosto de a chamar. Aí, sim, é muito comum eu ouvir esse murmurejar de sons dispersos numa espécie de parda cintilação. E não são vozes de mortos ou, pelo menos, eu não as entendo assim. Ou, ainda não as entendo assim. Nestes tempos de silêncio, tudo ganhou ainda maior espessidão, mais carne, mais lábio, mais gengivas. Nada disto é seco. A casa orgânica, viva, húmida, pulsante. Chovia muito lá fora, lembro. Um Abril de águas, um Maio de ventos. Tudo numa aparência igual à de sempre. O natural não se confunde com a realidade dos homens. Já tem de se bastar com os problemas que estes lhe causam. Por isso, os elementos cumpriam o seu papel, o seu tempo, a sua condição. Cá dentro, não. Dentro das casas, o calendário fazia figas às contas. Nada era igual ao de antes. As horas, que já nem ouvimos nos relógios de parede, ou nos despertadores de corda, mantinham a cadência que lhes tinham doado quando fatiaram o tempo. Elas, na verdade, não existem, são mais um invento da nossa espécie. As horas sabem dos alvores e dos poentes, e dos intervalos que há entre uns e outros, onde tudo se regula, tudo se realiza, menos o desregulamento que a nossa raça lhe adita, cada vez mais impunemente. Parece que foi aqui, que de há uns tempos para cá, tudo parece ter mudado. Parece, pois a consciência histórica obriga a saber que as boas intenções que nos chegam pelos arautos, sobretudo os que navegam nos espaços cibernéticos, não passam disso mesmo: de boas intenções. E a punição da natureza, do cosmos, do divino, serve apenas para as cruzadas, as cadeias com velinhas e chamas tremeluzentes, as redes que se formam pelas redes sociais, onde toda a gente, de um modo geral (eu incluída) são pessoas de bem. Todos! A não ser os outros. E os amigos dos outros. Nós e os nossos, não! Pensamos todos da mesma maneira, temos todos os mesmos gostos, as mesmas opções estéticas, os mesmos valores. Somos todos indignáveis quando a televisão nos traz as notícias do horror. Somos todos pela Menina Valentina, e abominamos o infanticida. Somos todos pelo homem negro morto por asfixia às mãos do polícia americano. Às mãos, não, que ele tinha as mãos nos bolsos para não as sujar. Somos todos solidários e vamos recarregando as caixas de comida que espalhámos pelos bairros, de Norte a Sul do País. Juntamo-nos, e logo numa noite de emissão televisiva, arranjamos milhares de euros para um hospital de campanha. Num ápice, transformamos as linhas de montagem de lojas de roupa chic em máscaras e equipamentos protectores para os hospitais. Os restaurantes de cinco estrelas fazem comida que vão entregar aos médicos e enfermeiros de serviço. Os bombeiros vão com os carros e as escadas de incêndio cantar os parabéns aos meninos que estão presos em casa sem saber muito bem por que razão não podem ter o seu bolo, a sua festa com os amigos, e muito menos estar com os avós. Assim é. De repente, avós e netos ficaram inimigos uns dos outros: fazem-se mal uns aos outros. Ao princípio isolavam-se, blindados. Depois começaram a ver-se muito ao longe, da rua para as varandas com muitos andares de permeio. Finalmente a aproximação, os avós escondidos atrás dos vidros dos carros, atrás das máscaras, atrás da dor. O gesto estendido, as mãos ao longe, os lábios escondidos a esconder a dor. A estranheza, a aflição. E se isto for sempre assim? E se nunca mais pudermos brincar com os meninos? Se nunca mais pudermos ir buscá-los à escola? E se eles nunca mais puderem ir à escola? E os filhos?
E se?
Se?
(…)
Um dia, essa longa noite terminou. Tudo voltou ao seu lugar. Os meninos, também. A casa-cavilhame começou a despejar os sons, o ar respirado,a corpórea presença das horas. Alguém repetia, com a convicção dos inocentes, que o mundo, finalmente, iria tornar-se um lugar habitável.
Que nos resta, pois? Se não, continuar.
Uma ladeira por dia. Entre poalha de águas e brumas, seguir o falso estio.
Contudo, não sabemos se estamos vivos.
Maria Adelina Amorim
Maria Adelina Amorim: (Investigadora Integrada do CHAM Investigadora Doutorada do CHAM- Centro de Humanidades da FCSH- Universidade Nova de Lisboa).
Nasceu em Coimbra, Portugal. Doutorada em História pela Universidade de Lisboa. Mestre em História e Cultura do Brasil pela Faculdade de Letras da UL-Lisboa. Bolseira da JNICT e da FCT, de mestrado e doutoramento. Investigadora Doutorada do CHAM- Centro de Humanidades, da FCSH- Universidade Nova de Lisboa e do CH – Centro de História da Faculdade de Letras de Lisboa. Licenciada em História. Formadora em História/ História de Portugal e História das Civilizações.
Foi Professora Associada na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia; Investigadora sénior do CLEPUL- Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da FLUL.
Pertence a várias instituições académicas e científicas nacionais e internacionais. Tem realizado conferências e palestras em instituições científicas de Portugal, Espanha, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Goa e Macau, e a organiza encontros científicos e de divulgação cultural nacionais e internacionais com actas publicadas, bem como diversas exposições científicas. Com livros e diversos artigos publicados em revistas nacionais e internacionais nas áreas da História e Cultura do Brasil, Missionação, Ordem Franciscana, História Colonial, Lusofonia, escravatura, artes, língua e património lusófono, literatura de viagens e mirabilia, Bestiário, entre outras, integra diversos projectos de investigação, com destaque para a História Colonial (Brasil e Atlântico), a Literatura de Viagens e a Lusofonia. Na ficção, destaca-se o livro de poesia HILUS.










