
III
Se os temas recorrentes da novela camiliana são a felicidade e o conflito, eles são sempre tratados à luz do sarcasmo e da dor. Muito mais do que a suave ironia, geralmente assinalada pelos que estudam a obra de Camilo, é o cortante sarcasmo, em Camilo filho da dor, uma constante da sua obra, quer na sua totalidade, como sucede em A QUEDA DE UM ANJO, quer circunstancialmente, como sucede na mais romântica das obras de Camilo, AMOR DE PERDIÇÃO, onde o clero é objeto do seu sarcasmo:
“Apeou Mariana defronte do mosteiro, e foi à portaria chamar a sua amiga Brito.
– Que boa moça! – disse o padre capelão, que estava no raro lateral da porta, praticando com a prioresa, acerca da salvação das almas, e dumas ancoretas de vinho do Pinhão, que ele recebera naquele dia, e do qual já tinha engarrafado um almude para tonizar o estômago da prelada.
– Que boa moça! – tornou ele, com um olho nela e outro no raro, onde a ciumosa prioresa se estava remordendo.
O sarcasmo de Camilo foi já classificado por alguns (TEIXEIRA DE PASCOAES, por exemplo, em O Penitente) de demoníaco. Outros, porém, como Unamuno viam em Camilo exatamente o contrário do demoníaco. Como refere EDUARDO LOURENÇO,
“Unamuno colocou Camilo entre os santos da sua predilecção, vendo nele a encarnação da intimidade original da nossa alma com a Dor e o Sofrimento”
Para PASCOAES, o demónio atravessou a infância de Camilo: filho natural de um juiz e da sua empregada doméstica, portanto rejeitado pela sociedade, a sua orfandade, o naufrágio, o conflito com a tia que o espoliou, as fugas, tudo isso fez de Camilo um ser que lançou nos seus romances uma sarcasmo demoníaco.
Foi, no entanto, RAUL BRANDÃO, o maior perscrutador de almas da língua portuguesa, quem melhor soube interpretar o sarcasmo do Penitente de Seide:
“ O sarcasmo é sempre diabólico, o sarcasmo diante da vida é a risada horrível de Mesfistófoles. A não ser que o sarcasmo seja um produto da dor; só se resulta de lágrimas, só se é tão amargo que representa dor concentrada, e, melhor ainda, a dor dos que não querem mostrar quanto sofrem. Suponho eu que o riso de Camilo seria deste quilate. Ria-se do fantasma – e da sua alma. Da tragicomédia da vida. Quando o seu mundo moral era uma derrocada, vinha-lhe o protesto com golfadas à boca com sabor a fel.”( MEMÓRIAS, vol. II)
E, em Camilo, o sarcasmo foi o produto da dor: da perda dos pais, da hostilidade da tia que sobre ele tinha o poder por morte dos pais, da constante inquietação que o levava a fugas sucessivas, dos amores frágeis, da luta pela sobrevivência.
Há novelas em que o propósito central de Camilo foi o sarcasmo, como sucede com A QUEDA DE UM ANJO. Outras em que surge como uma abordagem do caráter das personagens, ou dos costumes ou da sociedade, em particular da política, de então e de todos os tempos. Leitor de Balzac, Camilo ridicularizou a comédia humana, em particular da nobreza decadente. como em O FILHO NATURAL:
“Vasco, beliscado no seu orgulho, jurou ser eleito à sua custa, comprando a consciência aos eleitores. Naquele tempo, a consciência de um eleitor rural regulava entre dois pintos e quartinho com jantar de cabrito guisado e vinho à descrição.”
. Outras ainda como modos de interpretação da condição humana, como acontece em MARIA MOISÉS:
Que Josefa, quando foi exorcismar-se à capela de S. Bartolomeu, a Cavez, não tinha no corpo o espírito imundo; e acrescentou em parêntesis que não duvidava da existência de demónios súcubos e íncubos.
E demonstrou que havia obsessos, autorizado com S. Gregório, Santo Atanásio, Santo Hilarião, que lutou com eles em forma de mulheres. O escrivão replicava que todos os homens eram Hilariões, e cada qual era o demónio de si mesmo; porém não citava autor digno de crédito; toda a sua erudição neste importante assunto era um fragmento de má e velha poesia francesa que dizia assim:
On se livre à la volupté
Parce qu’elle flatte et qu’on l’aime;
Et si du diable on est tenté,
Il faut dire la vérité:
Chacun est son diable à soi-même.
O sarcasmo sobre a condição humana é o propósito central de A QUEDA DE UM ANJO, uma das obras primas de Camilo.
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, natural de Caçarelhos ( o nome e o lugar mostram a finura do humor em Camilo), no termo de Miranda do Douro, lá onde Portugal teve os seus primórdios e se confunde com o Reino de Leão, descendentes dos Barbudas, nobres de sangue puro pelo menos desde Afonso I, casado com sua prima Teodora Barbuda de Figueiroa, mais feia do que convinha a uma mulher honrada, enquanto esta se dedicava à administração dos bens do casal, dedicava-se a aturadas leituras, esclarecendo Camilo:
Os livros de Calisto Elói eram cronicões, histórias eclesiásticas, biografias de varões preclaros, corografias, legislação antiga, forais, memórias da Academia Real da História Portuguesa, catálogos de reis, numismática, genealogias, anais, poemas de cunho velho, etc.
Genealogista emérito,
Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse o passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de João das Regras e Martim de Ocem, como o mosteiro da Batalha, as Ordenações Manuelinas como o convento dos Jerónimos.
Foi este homem que vivia e pensava como se estivesse nos tempos da segunda dinastia, ou, pelo menos, algum tempo antes do terramoto de 1755, o escolhido pelo povo eleitor de Miranda para seu representante como presidente do município de Mirando. Mas cedo teve conflitos com os seus vereadores que riram na sua cara por querer restaurar as leis do antigo foral de Miranda. Face à oposição e troça dos vereadores a tal proposta, abandonou o cargo e,
convicto da podridão dos vereadores em particular, e da humanidade em geral, prometeu a onze retratos, que tinha de onze avós, pintados indignamente, nunca mais tocar o cancro social com as suas mãos impolutas.
Mas tocou. Depois de um discurso inflamado perante os lavradores locais, o mestre escola e o boticário, em que invocava Calígula e Diocleciano para caraterizar o Portugal liberal de 1840 decidiram os seus pasmados ouvintes que teria de ser ele o representante das terras de Miranda e Vimioso nas Cortes da nação.
Nas eleições esmagou a concorrência, e assim foi ele para Lisboa com mulas carregadas de livros todos eles com mais de cento e cinquenta anos, bom presunto e alheira de Miranda e vinho velho.
Chegado o Lisboa foi alojar-se no bairro de Alfama onde ele pensava ficar rodeado de monumentos. Mas não. Só viu sujidade, escorregou, caiu na lama, foi objeto de riso de mulheres e marujos, e decidiu mudar-se para um lugar mais limpo.
Esperava ele encontrar em Lisboa bons ares, águas puras e cristalinas, ótima cura para os males de garganta, como diziam os livros antigos Mas só encontrou água pesada e salobra. Por isso passou a beber apenas do seu vinho, que foi ótima cura para a sua garganta.
Vagueando à procura da procura da fonte de El-Rei e do chafariz dos cavalos, desaparecidos com o terramoto de 1755, Calisto Elói foi objeto da chacota dos lojistas aos quais perguntara onde ficavam essas relíquias do passado, mas só conseguiu ser objeto de zombarias. E conclui Camilo:
Com estas zombarias é que em Portugal os sábios são premiados. Se Calisto fosse um parvo, o Governo dava-lhe um subsídio até ele achar o chafariz dos cavalos.
A sua primeira intervenção nas foi para combater proposta de baixa do imposto sobre a importação das sedas invocando que isso fomentava o luxo que tinha sido a causa da destruição dos povos, desde os persas aos romanos, e recordando as leis de D.Sebastião contra o luxo, tudo em termos tais que causou o riso mas também o espanto e até o apoio entre alguns deputados.
Outra intervenção sua que teve o mesmo impacto na Câmara dos Deputados foi um discurso contra o apoio do governo aos teatros, que considerava semeadores de maus costumes e devassidão.
Cavaleiro andante e anjo da guarda, procura e consegue a “salvação” de Catarina, filha casada do amigo Desembargador Sarmento que mantinha uma relação extraconjugal com um jovem, incentivando este a abandonar essa relação.
Mas eis que o seu caráter de ferro antigo começa a ser posto à prova nas suas relações lisboetas. Jogando a sueca com Adelaide, irmã solteira de Catarina, caiu numa paixão assolapada por esta. Explica Camilo:
Foi neste instante que o morgado de Agra de Freimas sentiu, no lado esquerdo do peito, entre a quarta e a quinta costela, um calor ventoso, acompanhado de vibrações elétricas e vaporações cálidas, que lhe passaram à espinha dorsal, e daqui ao cérebro, e pouco depois a toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor mais virginal.
Desprezado e troçado por esta e pelo namorado, vem então a segunda queda do anjo.
Desta vez é Ifigénia Ponce de Leão, viúva desamparada de um brigadeiro, que lhe veio pedir ajuda para obtenção de uma tença pelos serviços prestados à pátria pelo falecido marido.
A beleza de Ifigénia, que descobriu ser sua prima afastada, foi uma chispa no coração de Calisto. A fiel Teodora, o parlamento, os velhos e honrados costumes foram postos de lado pelo apaixonado morgado de Caçarelhos. Montou rica casa onde passou a viver com Ifigénia. Teodora, sabendo da sua traição, veio a Lisboa para reconquistar o marido. Debalde, porque, sabendo da sua vinda, Calist fugira com Ifigénia para Paris. Mas em Paris recebeu a notícia de que Teodora se vingara e abandonara o solar de Caçarelhos pelo seu solar de Travanca, levara tudo o que trouxera para o lar conjugal, modernizara o seu guarda roupa e os seus costumes, e passara a viver com o primo Lopo de Gamboa de quem teve um lindo menino.
Entretanto, também Calisto, feito barão de Agrade de Freimas tivera de Ifigénia dois meninos que o faziam feliz cavalgando nos costados.
Na qualidade de anjo, Calisto sem dúvida seria mais feliz; mas, na qualidade de homem a que o reduziram a paixões, lá se vai concertando menos mal com a sua vida. Eu, como romancista, lamento que ele não viva muitíssimo apoquentado, para poder tirar a limpo a sã moralidade deste conto.
Assim termina A QUEDA DE UM ANJO com dois finais felizes, fruto da corrupção dos costumes: Calisto Elói, que clamara contra a sociedade corrompida, acabou corrompido pela sociedade.
Henrique Dória é advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da Rádio Transforma.










