
NOVOS TERRITÓRIOS I
Uns dias após o funeral
do meu avô paterno,
de abalada para a América,
despedia-me da minha avó.
Nunca antes a tinha visto
chorar junto à casa branca
que ele havia construído
no cimo do cerro.
E o mar dava a volta
ao horizonte a Sul
a atar os montes
às casas, às estradas,
às pedreiras, às vilas,
às praias e aos faróis.
E o frio gelava cada canto
dos olhos e dos ossos.
E uma vizinha veio
ao nosso encontro.
E a sua mão nodosa
embateu de rompante
contra o rosto saliente
da minha avó.
Basta mulher
que já lá vão três dias.
E a ventania agitava o branco
dos cabelos e o luto dos xailes
de ambas — como bandeiras.
NOVOS TERRITÓRIOS II
Durante o funeral
do meu avô paterno,
seguia o carro funerário
a acompanhar a minha avó.
Nunca antes tinha eu vindo
tão à pressa da América,
a adiar reuniões, a trazer
a nova família.
E um mar de gente
seguia-nos lentamente
inundava a rua
de passos, de calçada,
de lamentos, de silêncios,
de luto e de casacos.
E o frio gelava as cantarias
suspensas sobre a vila.
E o meu marido ia à frente
a caminhar ao meu lado.
E os seus braços estrangeiros
erguiam ao colo a nossa filha,
tão nova, tão perfeita,
a única bisneta.
Oh, vieram de tão longe
só por três dias.
E da multidão ela sobressaía
no seu novo vestido preto
de veludo — como bandeira.
Sofia Correia cresceu na Margem Sul, estudou Arquitetura e Urbanismo em Lisboa e na Columbia University, em Nova Iorque, onde viveu durante dez anos e onde começou a estudar narrativa com os The Writers Studio, poesia com Cynthia Cruz e, posteriormente, forma poética com The Loft Literary Center. Desde 2013 vive no Barrocal Algarvio, a terra dos seus pais e avós, com o seu marido e filhos. É empreendedora criativa da sua marca artesanal Oficina Poeta Azul e da loja Colectivo 28 em Loulé. Tem publicado poemas em várias revistas locais e da Andaluzia. Em julho de 2025 lançou o seu primeiro livro, O Labirinto das Duas Árvores, com a Editora Urutau.










