
1.
ávida de vazio,
a pele é um ponto de verdade
na transparência das águas.
2.
tudo respira
no inundamento da linguagem
e dos fluidos menstruais,
saber atravessar a fronteira
é desenhar na cabeceira
a fome e a leveza
líquida das mãos.
(in Land art: inédito)
3.
não existe dualidade entre um pássaro
e uma tempestade
se abres a linguagem ao voo e ao relâmpago,
tens a leveza do mundo nos teus olhos de
trovão.
4.
caminho entre exorcismos de linguagem,
exercícios espirituais e poéticos,
um corpo dobrado na sombra mais alta,
caminho e não preciso da força motriz do pensamento,
apenas água pelos joelhos e um rosto que
me interpela,
sei que não tem a luminosidade de uma fábula,
mas sabe saltar sobre as rochas com uma
leveza quase infantil.
5.
que o tempo responda de plenos vulcões às palavras:
não consigo dizer noite nem coragem nem ventos
nem marchas nem mar atravessado
por corpos reluzentes
trago o infinito dentro da mais solene esperança
mas o tempo ainda é incerto
apenas existe quando Cloto assim o permitir
o verde o azul o amor
o longo fio que tece e que treme e que é
vizinho da longa descida,
essas terras baixas que trago nos pássaros
e nas escamas.
(in Os ventos e as marchas: Urutau, 2025)
Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas, participando, igualmente, nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem seis livros publicados, sendo o último Os ventos e as marchas (Urutau: 2025).










