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NATURóLÊNDEA | Elisa Scarpa

oto de m na Unsplash

Legenda: “NATURóLÊNDEA_1”: colagem de Elisa Scarpa, “LZ C6F18 Précalipse Vendido”.

“NATURóLÊNDEA_1”: colagem de Elisa Scarpa, “LZ C6F18 Précalipse Vendido”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vinde —— Vinde

Coelhos da NATURóLÊNDEA

 

Brancas bolas fofas de neve

Ligeiras belezas a correr

Na insânia do sol

Ante as urzes

No sopro

Dos zénites

Zéfiros

Alados.

 

Vinde —— Vinde

Entes da NATURóLÊNDEA

 

Animais de pura candura

Urdiduras pesadas 

Com almas 

Em desânimo!

 

Vinde ——- Vinde

Coelhos da NATURóLÊNDEA

 

Rápidas flechas de olhos

Ardentes a atravessar 

O fogo-frio.

_ Não vos dividais,

Esperai de peito-feito

As inclinações do pânico.

E não penseis

Que os seres afins 

Do Bom-Fim

Não estão do vosso lado!

Que a pólvora sairá

Dos abetos e dos carvalhos

E da funda terra

Que tristeza arrota

Para vos dar o que 

nas entranhas treinou

por tão delongado momento.

 

Os que sabem viver são ágeis

Descem no escuro

Para da mina

Arrancarem

O que os outros

Com gargalhadas

Nem subtis

Nem gentis vão 

Capturar.

 

Lêndea é esta natureza

Que de mim me quer

Também matéria.

 

Armou-me de presas 

Resistentes

Deu-me 

Pele-fúria

Roupa-rapace

Força 

De forca

Conselho

De fim:

Aniquila

Desembainha

A sórdida

Espada

Da vitória

Fere!

 

São estes animais,

Os tais,

Tão distintos 

Dos mais!

Inventam 

e presumem

Os outros.

Atribuem-lhes

Chefes

Na variedade 

das mãos

situam

o prazer infindo

de apertarem

as gargantas

até

que o fôlego da

fundação

soçobre.

 

_ NATURóLÊNDEA

Diz-me como agir!

A que horas chegar ao emprego

A que horas sair do emprego

A que horas dar o espectáculo do

Amar

E o outro vário-extravagante-vário

Do ódio-raiva, rage, râge, rabbia!

Lustre ostentatório

No vasto salão que é o

PLANETA TERRA.

Implacáveis botões

Que se accionam

Montanhas que cobrem

Os que já foram aflitos

E passaram a quedos letais

Caminhando nas sombras.

Não queriam eles, ser puros

Espíritos?

A lêndea natureza

Dos irmãos de espécie

A essa clareza de definição

Os determinou:

Ser desrazão para ser poder.

 

Vinde —— vinde

Coelhos da NATURóLÊNDEA

 

Secundar o bode-expiatório

Que já entrou em palco.

Olhos vítreos com medo dos apupos

E na panóplia dos insultos

Estaca os cascos.

Não abdica de ser apedrejado

Até 

Tombar

No palco.

E são os coelhos

da NATURóLÊNDEA

Naturólêndea que 

o tiram da arena,

DESFEITO.

Foi a natureza, a incontornável

Natureza, dizem

Que o desfez.

Antes de sair do palco,

Ainda fala e diz:

_”Na Síbéria não há palmeiras.”

O que quis ele dizer com esta frase?

Que na terra só há terráqueos,

Criaturas desta terra, rebeldes

De pacotilha,

Cuja sabedoria maior

É fazer cumprir a

Sina

do DESFAZER?

Os esqueletos transitam aos pares:

Entrechocando as tíbias e os perónios,

Os fémures e as ulnas, as costelas e 

Os crâneos.

Seres afins

Despenteados, sem carne

Ou hálitos, defecados

Pelo imenso nada da ágil

E extensa fenda que engole

Os naturais.

Seres afins,

E os ditos,

São aqueles que já não são.

Afastem-nos da fecunda facécia,

Que é lutar pelo Tal, que tem

As costas largas, e há quem

Pense que está em todo o lado.

 

_Vinde —- vinde

Coelhos da NATURóLÊNDEA

Empalar tamanhos animais!

Que eles sejam bandeiras de mau

Cheiro, que atraiam as

Moscas e os abutres, as formigas

E as hienas.

Que as câmaras de vídeo 

Sejam vazadas pelas

Lentes ávidas da Natureza

Dos que não respiram!

Vinde naturais da Natureza!

E se o humano é o piolho

Que suga o humano, bastará 

Ignorar a lêndea? 

 

Às pedras caberá contar

O conto do tempo das fábulas

Em que os animais falavam

E os homens tinham emudecido,

Não falavam _ 

Porque eram finalmente

Mais do que 

Animais.

 

NATURóLÊNDEA

 

Estarei aqui,

Na lêndea,

Pronta a eclodir?

 

Bodes-expiatórios

Respiram

No meu pescoço

As passadas 

Historietas

Da História

E a natural frase

De natureza exposta:

_ Sempre foi assim!

E não vou escrever

A 2ª parte desta sentença _ 

Não vou!

 

Procuro um jardim, 

Não um Éden sem

Insectos que picam

E pivetes 

Bio-desagradáveis.

Mas 

Um jardim 

Real

Em que sinta os

Lilases.

 

Lilases

Com cheiros de açucenas

Açucenas com cheiros de salmão

Salmão travestido de courgette.

Sou carne mecânica

Teclo-me

Em esforço de memória.

Os dedos curto-circuitos

Avançam entre lilases

Courgettes e écrans. 

Avançam em busca

De um novo cheiro.

 

Permaneço em

Busca

De uma nova

NATUREZA!

 

De elisa scarpa

“NATURóLÊNDEA_2”

Elisa Scarpa nasceu a 7 de janeiro de 1964 e há-de morrer.

 

PALAVRAS-CHAVE: LITERATURA; POESIA; POESIA PORTUGUESA

 

 

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