Cultura

É o tempo da Kambansa | Amoi Ribeiro

Foto de Chethan Kanakamurthy na Unsplas

A palavra kambansa ou cambança significa a travessia de um rio na língua crioula falada pelo povo de Guiné-Bissau. E travessia é certamente um dos mais apropriados sinônimos para literatura. Kambansa é o nome escolhido para nomear a primeira edição, em Lisboa, do encontro literário Terceira Feira- Literaturas das Margens do Mundo, que ocorre anualmente em Diamantina, em Minas Gerais. E, a partir de 2025, com um pé no solo europeu, atravessando continentes.

 

Terceira Feira / Kambansa homenageou os países africanos de língua oficial portuguesa em seus 50 anos de independência. É uma iniciativa da organização não-governamental brasileira Instituto de Desenvolvimento Humano Daghobé, fundada em 2008, por Anelito de Oliveira, com o propósito de ultrapassar fronteiras através da literatura. O instituto concebe e implementa projetos a fim de facilitar o acesso à literatura nas regiões interioranas do Brasil, além de construir uma ponte entre autores e autoras brasileiros, africanos e os de língua portuguesa/brasileira da diáspora. Como em um verso de Agostinho Neto: em harmonia para o mundo.

 

De 14 a 18 de abril, a Terceira Feira / Kambansa (TF/K) contou com uma riquíssima programação cultural, acadêmica e literária em Coimbra, Porto e Lisboa, com a participação de Tony Tcheca (poeta guineense, jornalista), Zetho Cunha Gonçalves (poeta angolano, tradutor, editor), João Fernando André (poeta angolano, professor e pesquisador, Universidade de Lisboa), Viviane de Santana Paulo (escritora brasileira radicada na Alemanha), Dorinha Grossi (representante de Edu Tolenda, escritor brasileiro falecido), Victor Benetti (professor da Puc e quilombola), Francisco Topa (professor de literatura de língua portuguesa, diretor da Cátedra Agostinho Neto, Universidade do Porto), Anelito de Oliveira (poeta, professor, fundador da Daghobé e diretor da Imensa Editorial), além de Pilar Del Rio, Presidenta da Fundação José Saramago, e Suaré Baldé, pesquisador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa de Guiné-Bissau. A moderação ficou por conta de Janaelle Neri.

 

Em Terceira Feira / Kambansa (TF/K), realizou-se o lançamento de duas importantes obras literárias, estreando as atividades da Inmensa Editorial em Lisboa. O romance República das Rosas, de Edu Tolenda, narra as experiências do autor que viveu nos Anos de Chumbo. Não trata diretamente da ditadura, mas ela está presente no enredo como uma sombra na vida de um jovem descobrindo a vida, o amor, as relações sociais e políticas em um tempo de opressão e controle. Em A Habitante, de Viviane de Santana, a autora cria uma narradora potente e persuasiva, sob uma linguagem experimental, que suscita reflexões filosóficas sobre a vida, o tempo, a sociedade, a arte e a inteligência artificial. O livro é uma mescla de gêneros literários, uma espécie de romance-teatro que descortina elementos constitutivos da distopia contemporânea. Segundo Godofredo de Oliveira Neto, o entendimento da alma cultural e política do Brasil, e as suas necessárias correções, tem em Viviane um dos seus aliados mais expressivos.

 

Nesta época de retrocessos e turbulências políticas repletas de tendências fascistas, a Terceira Feira / Kambansa oferece uma visão de mundo humana e abrangente, apresentando autores e autoras, preferencialmente do sul global, que trazem uma interpretação diferente da vida, da política e da arte, e novas experiências em uma realidade que ainda permanece desconhecida para muitos leitores e leitoras. É tempo da kambansa, e se não ousarmos a fazê-la agora, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos.

Amoi Ribeiro nasceu em 1942, em Poço Verde. Estudou Letras na Universidade Federal de Sergipe. Emigrou para a Alemanha, onde reside há mais de cinco décadas e trabalhou como tradutor junto ao Tribunal de Justiça de Berlim.

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