Cultura

Camilo duzendos anos depois | Henrique Prior

RETRATO DE CAMILO CASTELO BRANCO Alberto Aires de Gouveia 1918

Se é verdade que há uma alma de Portugal, essa alma é a língua portuguesa. E, então, poderemos afirmar que a alma de Portugal encarnou num poeta, Camões, e num prosador, Camilo Castelo Branco.

 

Camilo nasceu em Lisboa mas, como escreveu Teixeira de Pascoais, em O Penitente, é como se Maomé tivesse nascido no Polo Norte.

 

Na verdade, o Portugal de Camilo é o Portugal mais antigo e profundo, o Portugal que, no dizer do Penitente, em O Retrato de Ricardina, “procedia de

Ordonho I, rei das Astúrias”, o Portugal de Entre Douro e Minho e Trás os Montes, espaços onde se localizam a terra e os homens do seu mundo romanesco – embora, por ironia bem camiliana, o torturado de Seide falasse ao modo de Lisboa, “dizendo tudo como quem canta, com aqueles gemebundos < ans> como cauda das palavras” como ele próprio escreveu em Estrelas Funestas, uma marca da cidade onde passou os primeiros dez anos da sua tempestuosa vida.

 

Camilo nasceu em Lisboa a dezasseis de Março de 1825,   filho natural de um fidalgote de Vila Real de uma família alcunhada de “Os Brocas”, (alcunha que Aquilino Ribeiro, em O Romance de Camilo, afirmou que se devia a um dos seus antepassados comer muita broa) e da sua empregada doméstica.

 

A mãe morreu quando Camilo tinha apenas dois anos de idade, e o pai aos dez anos. Por essas fatalidades, Camilo e a sua irmã tiverem de ir viver para Vila Real ao cuidado da sua familiar mais próxima, a tia Rita Emília da Veiga Castelo Branco.

 

Entre Vila Real, Vila Pouca de Aguiar e Ribeira de Pena moldou-se a alma inquieta e atormentada de Camilo. De Vila Real foi viver para a pequena aldeia de Velarinho de Samardã após duas das suas primeiras fugas para o Porto e Lisboa em consequência do mau relacionamento com sua tia, porque sua irmã, Carolina Rita, mais velha que Camilo quatro anos, tinha casado, entretanto, com o médico Francisco José de Azevedo, com o qual vivia seu irmão padre, António José de Azevedo. Foi deste padre que Camilo teve as suas primeiras lições de latim, francês e cantochão.

 

Como a sua tia Rita Emília tinha uma filha a viver na aldeia de Friúme, concelho de Ribeira de Pena, hoje uma aldeia insignificante mas, ao tempo, com alguma importância, em deslocações a Friúme conheceu Joaquina Pereira de França, filha de um pequeno comerciante local, com quem viria a casar, ele com dezasseis e ela com quinze.

 

Passou a viver nessa aldeia agachada na margem esquerda do Tâmega, trabalhou em Ribeira de Pena como amanuense de um notário, e foi em a Friúme que nasceu, daquele casamento, a sua primeira filha.

 

Porque, invocadamente, era perseguido por um fidalgote e seus familiares devido a uma versalhada que teria pregado à porta da Igreja de São Salvador, em Ribeira de Pena, fazendo chacota do casamento do fidalgote com uma simples camponesa, teve de fugir de Friúme, continuando a errância que o acompanhou até à morte.

 

Camilo era “irrequieto, desassossegado como a ventania”, no dizer de João de Araújo Correia em Uma Sombra Picada das Bexigas.

 

Lisboa, Vila Real, Porto, Vilarinho de Samardã, Friúme, Porto, Coimbra, novamente Lisboa, novamente Porto, Viana do Castelo, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Seide, foram alguns dos tantos lugares por onde repartiu a sua penosa vida de Penitente, como lhe chamou Teixeira de Pascoais numa das mais belas biografias que, até hoje, se escreveram.

 

Em As Memórias do Cárcere escreveu Camilo sobre si mesmo: “A irmã de meu pai, decrépita e cadavérica, disse- me que era necessário ser desgraçado para não contradizer os fados da nossa família”

 

E no Discurso Preliminar desta mesma obra escreveu também:

“Cavalguei em direção a Vila Real, pátria de meu pai e a minha primeira paragem depois da orfandade, aos nove anos, com a sua escolta de infortúnios, começou a andar comigo de inferno em inferno”

 

Em No Bom Jesus do Monte recorda Camilo as últimas palavras de seu pai moribundo: “Que será de ti meu filho sem ninguém que te ame.”

 

Afirma Aquilino Ribeiro que, picado das bexigas, Camilo nunca foi amado. E talvez mesmo ele acreditasse que nunca foi amado, apesar de tanto amar.

(continua)

fotografia de Henrique Prior

Henrique Prior É advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da Rádio Transforma.

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