
Por Clécio Branco
Psicólogo clínico
Teólogo
Mestre e Doutor em filosofia
Fragmento do livro: Encontros com o Mestre I
Editora: Apris – Brasil – 2024.
Instagram: @clecio.branco
“Quando você resolve tratar, cuidar de uma pessoa, já tomou partido dela, ou seja, daquilo que você acha que seja sua saúde. Não existe neutralidade nem distanciamento, o que existe é discrição, silêncio, um silêncio que significa consentimento. Consentimento com a existência da pessoa, e isso é uma posição de amor. A pessoa adoece por carência de verdadeiras relações pessoais. Se você lhe der impessoalidade e neutralidade, dará exatamente o que lhe causou a doença. A tarefa da psicanálise é a da construção do encontro e não há encontro que seja impessoal; impessoal é o desencontro ” (Hélio Pellegrino – A burrice do Demônio)
Lucas 8:43-48 – Na Linguagem de Hoje
São Lucas, Lucano ou simplesmente Lucas, conforme Taylor Caldwell o “único apóstolo que não era judeu, nunca viu Cristo, e tudo que está escrito em seu Evangelho foi adquirido por meio de pesquisas e dos testemunhos da mãe de Cristo, dos discípulos e dos apóstolos. Mesmo assim tornou-se o maior defensor da fé cristã e, como Saulo de Tarso (mais tarde Paulo, o apóstolo dos gentios), não acreditava que o nosso Senhor tinha vindo apenas para salvar os judeus. Justamente por isso, os dois homens encontraram muitas dificuldades com os primeiros discípulos de Jesus. Lucas foi, antes de tudo, um grande médico (…)”1.
Nisto, chegou uma mulher que fazia doze anos que estava com uma hemorragia. Ela havia gastado com os médicos tudo o que tinha, mas ninguém havia conseguido curá-la. Ela foi por trás de Jesus e tocou na barra da capa dele, e logo o sangue parou de escorrer. Jesus perguntou:
– “Quem foi que me tocou?” Todos negaram. Então Pedro disse:
– “Mestre, todo o povo está rodeando o senhor e o está apertando”. Mas Jesus disse:
– “Alguém me tocou, pois eu senti que de mim saiu poder. “Transgredindo as normas de sua religião judaica. Ele as tocava e se deixava tocar e acariciar por elas até no caso da hemorroísa , que além de ser pagã e, por tanto pestilenta para os judeus, era impura por sofrer de um fluxo de sangue”.2
Então a mulher, vendo que não podia mais ficar escondida, veio, tremendo, e se atirou aos pés de Jesus. E, diante de todos, contou a Jesus por que tinha tocado nele e como havia sido curada na mesma hora. Aí Jesus disse:
– “Minha filha, você sarou porque teve fé! Vá em paz”.
Essa mulher era uma Outis, literalmente significa ninguém, substantivo masculino da língua grega, referido nos comentários de Haroldo de Campos na Ilíada de Homero, a respeito da falta de hospitalidade dos Cíclopes. Ela era uma desconhecida, uma ninguém. Além do mais deveria se ocultar, vivia anônima por sua condição de doente. As hemorragias das mulheres em menstruação, eram vistas como uma impureza, ela sofria de uma doença de doze anos. Portanto, não deveria querer ser vista em público por todo esse tempo. Doze anos são quatro mil trezentos e oitenta dias, sangrando, possivelmente vivendo no anonimato, ninguém mais além dos médicos deveriam saber de sua doença. Ela, essa Outis, uma ninguém e sem nome, nunca havia visto Jesus, apenas ouviu falar dele. De longe, no anonimato, nasceu-lhe tamanha fé e coragem de sair e ser vista em público. E mais, decidiu tocar na pessoa do Cristo, correndo riscos reais de ser exposta e humilhada.
Pausa para pensar
Faço aqui um retorno à Ética de Espinosa nesse encontro. A pergunta chave da Ética, o que pode um corpo(?) se encontra em meio aos encontros de corpos nessa história. Pouco importa a avaliação racional que se possa fazer do texto, não quero provar nada, não quero levar ninguém a uma crença. Quero expor um comentário pessoal sobre a narrativa, inventar um ramo no texto. Escolhi a versão de Lucas, por ele ser um médico segundo a tradição dos comentaristas, e por ele estar relatando a cura de uma pessoa. A visão de um médico sobre a doente dentro do aglomerado de pessoas. A questão espinosista do corpo está aqui, e desejo pinça-la das leituras rápidas que se faz na maioria dos casos, ou aprisionados no pieguismo religioso em que se lê os mesmos. A questão é de ética, e me refiro à ética em Espinosa. O poder de um corpo se mede pela capacidade de ser afetado, diz Espinosa. O filósofo caracteriza os afetos em três categorias: afeto desejo, afeto alegria e afeto tristeza. E a efetuação dos afetos se realizam na prática dos encontros. Ou seja, tem que haver encontros para que o corpo possa descobrir a sua capacidade de ser afetado em um desses três modos.
De volta ao texto
A cena do acontecimento se dá em público, numa rua ou numa praça. O jovem Cristo está caminhando em meio a um pequeno aglomerado de pessoas, discípulos, admiradores, seguidores, pessoas curiosas, outras em busca de uma cura etc. A personagem central é a de uma mulher com uma hemorragia de longo tempo, doze anos segundo o relato em Lucas. Além do sofrimento físico, somava-se a rejeição e isolamento social. As mulheres que sangravam eram consideradas imundas e desprezíveis. Tudo indica que não era uma pessoa rica, já havia ido a muitos médicos e pessoas que tentaram em vão curar a sua doença – uma hemorragia. A multidão cercava o jovem galileu ao ponto de dificultar a aproximação da paciente ao “seu médico”. Vejam que o relato de Pedro, mas segundo Lucas:
“- Mestre, todo o povo está rodeando o senhor e o está apertando”. Isso porque Jesus havia sentido um leve toque em suas vestes. Daí ter perguntado:
-“Quem foi que me tocou?
O que a neurociência diria hoje sobre o toque? O Nobel de medicina, Eric R. Kandel diz do efeito no cérebro em relação ao toque: “O tato ativo e o tato passivo evocam respostas semelhantes nos mecanorreceptores”. Pode haver algum questionamento das razões de se evocar aqui uma teoria tão atual num caso que se passou e permaneceu apenas como um milagre. Não se menospreza a crença no milagre para se introduzir explicações científicas. As explicações não dirão que o acontecimento sai do campo do milagre. Existe o milagre coexistindo com as explicações científicas. O meio em que o toque se dá entre a mulher com hemorragia e Jesus é com os dedos (ou um dos dedos) da mão. Nas pesquisas de Kandel,
“A mão tem quatro tipos de mecanorreceptores(…). A maciez e a flexibilidade da pele desempenham um papel importante no sentido do tato. Quando um objeto entra em contato com a mão, a pele amolda-se a seus contornos, formando uma imagem especular da superfície do objeto (…). Os campos receptivos definem a zona de sensibilidade ao tato. Os testes de discriminação de dois pontos medem a percepção de texturas. As fibras de adaptação lenta detectam a pressão e a forma de objetos. As fibras de adaptação rápida detectam o movimento e a vibração. Ambas as fibras, de adaptação rápida e de adaptação lenta, são importantes para o controle da pressão”3.
Temos a percepção tátil dos dedos sobre o tecido da roupa, uma leve pressão do toque sobre o vestido, a vibração e a pressão. Seguindo os níveis em que o acontecimento do toque se dá, podemos concluir que, nos dois cérebros – doador e receptor – acontece uma modificação sináptica, uma agitação percebida e declarada na pergunta:
– “Quem me tocou?”
“O ser humano também é capaz de reconhecer objetos colocados na mão apenas pelo tato”4.
A questão não é a de muitos toques ou um toque, os empurrões, as roçadas de corpos, as esbarradas entre os corpos na multidão.
“O toque é definido como o contato direto entre dois corpos físicos. Nas neurociências, o tato refere-se ao sentido especial pelo qual o contato com o corpo é percebido conscientemente. O tato pode ser ativo, como quando se move a mão ou outra parte do corpo contra uma superfície, ou passivo, como quando se é tocado por outro alguém ou por algo”.5
Ressalto a expressão conscientemente que denota uma vontade declarada. Como se ela disse, “eu seu exatamente o que eu quero”, se eu quero, eu posso. Não importa se “os pontos de contato são pequenos devido à alta densidade de receptores nas pontas dos dedos. Os campos receptivos tornam-se progressivamente maiores nas falanges proximais e na palma da mão, o que é consistente com a menor densidade de mecanorreceptores nessas regiões”.6
Na Ética, Espinosa está transmitindo informações à neurociência. Tratou como ninguém a questão dos encontros e dos afetos que, afetando um corpo, também é por ele afetado. Na troca de afetos há um aumento da potência de ação ou de diminuição da mesma. Os neurocientistas chamam de “potencial de ação” quando um neurônio ou um sistema inteiro recebe carga elétrica capaz de emitir e receber sinais. Conforme Kandel e colaboradores,
“AS INFORMAÇÕES CONDUZIDAS DENTRO dos neurônios e transferidas dos neurônios para as células-alvo através de sinais elétricos e químicos. Os sinais elétricos transitórios são particularmente importantes por conduzirem informações sensíveis ao tempo de forma rápida e por longas distâncias. Esses sinais elétricos transitórios – os potenciais de receptor, os potenciais sinápticos e o potencial de ação – são todos produzidos por mudanças temporárias na corrente elétrica dentro e fora da célula que alteram o potencial elétrico da membrana celular, desviando-se do potencial de repouso. Essa corrente representa o fluxo de íons com cargas negativas e positivas através dos canais iônicos na membrana celular”7.
Podemos não estar pensando na junção mente-corpo nesses exemplos citados aqui, mas está junto todo tempo. A noção cartesiana da alma e do corpo fica absolutamente superada. A sabedoria de Ellen White, no final do (século XIX), também confirma a neurociência. Aquilo que Espinosa tinha afirmado no (século XVII): “A relação existente entre a mente e o corpo é muito íntima”8. Para a autora, em consonância com Damásio, “O cérebro é o órgão e instrumento da mente”9, mas a mente é a consciência e extensão do corpo.
Quando um é afetado, o outro também o é. Cada filamento nervoso, distribuindo nos dedos em terminações nervosas, são ao mesmo tempo, mente-corpo. O desejo ou a fé, que são considerados como expressões da mente, estão, ao memo tempo, agindo e reagindo juntamente com o organismo cerebral. Espinosa, na Ética faz essa aproximação, antes de haver uma neurociência. Nas observações de Damásio, estudioso de Espinosa, a mente percebe não só as modificações do corpo, mas também as ideias de tais modificações10. Uma dupla via no caso que estamos discorrendo, a mulher toca as vestes de Cristo com consciência, sente que a hemorragia estancou. Ele percebe o toque nas vestes, extensão material do corpo, e sente que algo lhe ocorreu fora do comum – lhe saiu virtude. Para Damásio,
“todos os organismos vivos, desde a humilde ameba até o ser humano, nascem com dispositivos que solucionam automaticamente, sem qualquer raciocínio prévio, os problemas básicos da vida. Esses problemas são os seguintes: encontrar fontes de energia; incorporar e transformar energia; manter no interior do organismo um equilíbrio químico compatível com a vida; substituir os subcomponentes que envelhecem e morrem de forma a manter a estrutura do organismo; e defender o organismo de processos de doença e de lesão física”11.
Essa vontade de estar e viver no mundo, organizar-se e se manter, Espinosa chamou de conatus. A biologia médica atual utiliza “a palavra ‘homeostasia’: ela descreve esse conjunto de processos de regulação e, ao mesmo tempo, o resultante estado de vida bem regulada”12. Achei também em Mancuso, as mesmas proporções do conatus e da homeostasia na botânica:
“Ser capaz de manter a própria organização interna diante do impulso natural para a degradação e a desordem é uma característica que qualquer organismo deve ter, independentemente de seu nível de complexidade. Isso se manifesta na habilidade demonstrada por ser seletivo e fazer escolhas certas. Por exemplo, escolher algumas moléculas do substrato em que se vive em vez de outras, distinguir amigos de inimigos, expandir ou contrair em função da disponibilidade de recursos. Um organismo é um sistema aberto, no qual a informação flui para o ambiente e vice-versa. Em síntese, cada ser troca com o mundo que o rodeia os elementos que lhe permitem sobreviver”13.
Poderá se perguntar, qual o sentido de incluir neurobiologia e botânica num texto religioso, no encontro de Cristo com a doente? O que teria de relação o toque dos dedos dessa mulher nas vestes de Cristo com as plantas e o cérebro humano? As plantas não precisam de muita coisa para sentirem ação e reação, plantas nunca são ruidosas. Uma folha de planta dentro de casa se dirige vagarosamente em direção à janela em busca de um raio de sol. A planta, segundo Mancuso, não tem uma memória curta. O fato dela se mover para cima, para os lados, com suas folhas e talos, como se fossem braços e mãos em busca do necessário para crescer, é um tipo de memória.
“Ao contrário de muitos aspectos da vida vegetal que apresentam semelhanças significativas com o mundo animal e têm uma história de estudos, que, embora não seja longa, já está bastante consolidada (penso em inteligência, habilidade de comunicação, capacidade de desenvolver estratégias de defesa, comportamento etc.), no caso da memória, os testes comparativos são bem mais recentes. No entanto, o primeiro notável a abordar esse tema que justifica a longa espera: trata-se de Lamarck. Ou melhor, Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, cavaleiro de Lamarck (1744-1829)”14.
Clécio Branco é psicólogo clínico, Mestre e Doutor em Filosofia. Autor das obras Ensaios de A a Z para mentes inquietas e Encontros com o Mestre I. Disponíveis na Amazon em versão Kindle e física.01










