Cultura

Dois poemas | Rita Tormenta

Mãe e Filha, de Rita Tormenta

Conselhos para a Minha filha, para as mulheres que podiam ser minhas filhas e para mim como se fosse filha de mim mesma.

NÃO SUSSURRES O DESEJO.

O desejo não foi feito para ser sussurrado.

Sussurra o medo, sussurra o amor mas o desejo, como a fome, não se anuncia em sussurro.

Quantos cilícios invisíveis pendem ainda sobre as nossas cabeças?

Quantos?

Uma mulher não solta gargalhadas, dá risinhos, não come com ganas de fartote, Petisca, não deseja alto, insinua-se.

Enganaram-te.

Digo-te eu, enganaram-te para que não reclames  o direito ao desejo.

Grita o teu desejo, dá sonoras gargalhadas se te apetecer, podes até bater com as mãos nas coxas, fuma cachimbo e dança na Rua, come mão de Vaca com grão se gostares, nada disso fará de TI puta. 

Puta só mesmo aquela que sabota a irmã e a outra que se esquarteja para caber num lugar estreito onde não pode gritar o seu próprio desejo.

 

Depois de todos os gritos, se quiseres, sussurra o medo e o amor, escolhe com parcimónia os teus escutadores, assegura-te que  saberão guardá-los. 

Mas Não SUSSURRES o desejo!

É um morrer de fome quando a carne és tu própria.

RT

Maio 24

Foto de Rita Tormenta

Tragam-me um ou dois poetas.

Prefiro que sejam bege ou cor de areia, assim não destoam dos tons da sala.

Que sorriam e gracejem Quanto baste, não precisam ser doutos ou geniais, prefiro-os cordatos e civilizados.

Podem ter opiniões, filiações, religiões, só não podem misturar roxo e vermelho, é do senso comum saber que TAL mistura é de muito mau gosto.

E aos poetas atura-se quase Tudo menos o mau gosto.

Talvez tenhamos que os alimentar antes de os pendurar na sala, parece que vivem esfomeados.

Talvez tenhamos que os perfumar antes de os servir aos convidados parece que exalam odores intensos.

Talvez tenhamos que os anestesiar antes de carregar no on, parece que teimam em dizer coisas inconvenientes.

Sim, tragam-me dois poetas, pode ser em bege ou cor de areia assim passam despercebidos e ficam bem com os cortinados e o sofá, prefiro que rimem, é mais gostoso para quem ouve, a toada, entende? A toada. Não é obrigatório que façam muito sentido, imprescindível é que Liguem bem com ostras e espumante, entende?

Faça-me o obséquio, tragam-me dois poetas, bege de preferência ou cor de areia, para não se evidenciarem muito.

Infelizmente nesses tons Temos apenas poetas mortos

Oh que maravilha, esses são mais valiosos. Tem a certeza que estão mortos?

Estes são de um bege irrepreensível, são nados mortos, os mais adequados Às suas exigências

Fotografia de Rita Tormenta. Autora da fotografia: Elisa Scarpa.

Rita Tormenta nasceu no Porto em 1970, cresceu em Lisboa e vive desde 2018 em Almada.

Formação académica superior na área do Teatro.

Já foi professora, estalajadeira, empregada de mesa, coordenadora de projectos, cantoneira digital, actriz e marionetista.

Tem filhos, uma gata, algumas plantas, alguns amigos e alguns ideais, nem sempre acerta na quantidade de água a dispensar a cada um.

Publicou o primeiro livro “Centrifugar angústias a 1600rpm” em 2022, o Segundo “O Pequeníssimo livro de TI” em 2023 e o terceiro, “Jugular exposta” em 2025.

Neste momento mantém ( com Luís Filipe Sarmento) a tertúlia mensal “3 às 4as” em Almada, co-organiza ( com Elisa Scarpa) o evento Anual- AQUI VAI LIVRE- um lançamento literal e colectivo de livros, e tem paricipado desde a 1ª edição na Noite da Literatura Ibero-Americana (curadoria de Lauren Mendinueta).

 

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