
VAZEI, ZEUS MEU!
Coberto pelas nuvens… Monte Olimpo… Sagrado Abrigo… Palácio dos Deuses… Morada de Zeus, do Céu, supremo Deus, da ordem, da justiça, dos relâmpagos, dos trovões…
Naquele Palácio… Palácio dos Deuses… Sala do Trono… Final de expediente…
Zeus um tanto quanto cansado, irritado, estressado. Ar- condicionado, limpeza, temperatura, umidade, pressão, fluxo de ar? Tudo terceirizado pelo Centrão, tudo a desejar. Até a energia elétrica, recentemente, privatizada, deu uma fraquejada.
Acúmulo de serviço, calhamaço de processos, problemas vários.
O Deus supremo nas últimas e nos últimos.
Impossível algo mais para coroar as agruras do dia Dele! Pois, sim! Até Gaia, a Deusa da Terra, montou processo provando ser a Terra plana. Antheia, a Deusa das Florestas e dos Pântanos reivindicando o título de “Bombeiro Honoris Causa” para o gado bovino de um tal e qual lugar chamado Brasil.
Tadinho do Zeus! Igualzinho ao Cara que, ao perder o emprego, arrasado, ao deixar a empresa, inda foi assaltado por Milicianos do Escritório do Crime.
E não é que, apressado, esbaforido e arquejante, adentra na Sala do Trono o Anjo Agathos e, aos gritos:
- Deus Zeus, meu Deus! É ela! Ela chegou! Bem que ela avisou, pelo WhatsApp, nem que fosse na marra, seria recebida e ouvida pelo nosso Zeus! O que eu faço, Zeus Meu? Ela tá possessa! Ela tá com o Deamon no corpo!
- Agathos, são os ossos do ofício, Anjo Meu! Como Chefe, preciso dar umas pedaladas de quando em vez, sem provas, mas com convicção. Deixe-a entrar! Além do mais, este Zeus tem uma dívida imensa para com ela. Dívida que levarei para a eternidade. Ela! Ela mesma! Prejudicada, pois deveria ter guardado sua virgindade, porém, parti pra cima e, na fritada dos ovos e na assada da linguiça, uma exorcizada aqui, outra exorcizada ali, três filhas geramos: Equidade, Lei e Paz. Como se não bastasse, meu Caro, Agathos, de quebra, nasceram mais duas Fraquejadas: Horas e Parcas. E nas idas e vindas da vida, eu ainda atribui a Ela uma missão das mais difíceis missões, Agathos. Depois Dela passar por todo o processo, de Serva de Zeus até à Canonização, eis que eu faço Dela, Têmis – A Deusa da Justiça! Faça-a entrar, pelos Deuses deste Olimpo, Anjo Agathos! Façamos justiça, porra!
- E aí, Têmis, querida minha? Como tá passando?
- Passando, Zeus? Ainda pergunta? Péssima! Deplorável! Execrada! Tô pedindo o boné! Desisto… Dispenso… Desaceito… Não há como tolerar e aturar, Zeus Meu! Parodiando a inocente, pura e sincera criança, O Rei está nu! Apesar de sua roupagem, trono, coroa e cetro! O Magistrado está nu! Apesar de sua toga, cadeira, pompa e malhete. Sujou, Zeus! Abriram a tampa, o esgoto subiu subindo, alteou alteando, galgou galgando espalhando asquerosa realidade naquilo que sempre honrei, dignifiquei e enalteci – a Justiça! A propagação de excrementos tais e quais, tantos e quantos tais, dejetos, fezes e dejeções… Aí estão, pois, Zeus, a Parcialidade Togal… A Togal Injustiça… A Tirania Togal. Aí está, pois, a insensata, a tola, a ridícula: “Não tenho provas, mas tenho convicção.” Fernando Sabino, Zeus Meu, não deixa esta Têmis mentir: “Para os pobres, é dura ‘Lex, sed lex’. A lei é dura, mas é a lei.” “Para os ricos, é dura ‘Lex, sed látex’. A lei é dura, mas estica.” Estica, a desmoralização e a desonra. Togas nada mais acobertam. Corpos nus, pelancas flácidas, enrugadas, caídas. Toga de veludo, bunda de fora, Zeus Meu! Chega! Eis a minha irrevogável demissão! Deusa da Justiça, o cacete! Vazei, Zeus Meu!
- Minha Têmis, tenho acompanhado as artes dos arteiros togados. Sei o que tem passado. Não é mole, não, querida! Você está acobertada pelo manto da razão e da vivência. Defiro, pois, seu pedido, Têmis!
A pena e o carimbo, por favor, Anjo Agathos! Receba, pois a minha bênção Têmis! Ide em paz! Que todos os Deuses deste Olimpo a proteja, acompanhe e guarde!
E a Deusa Têmis, espairecida, saltitante e desanuviada, tirando o time de campo, exclama: É isso daí, porra! Taokey!
Francisco Simonini da Silva (Xico Simonini) nasceu em Viçosa, MG, no dia 18 de novembro de 1941. Em sua cidade natal, em Belo Horizonte (MG), Florestal (MG), Pará de Minas (MG), Divinópolis (MG), Piracicaba (SP), Assis (SP), Primeiro de Maio (PR), Juiz de Fora (MG), Cataguases (MG), Ponte Nova (MG) e, recentemente em Santo Antônio de Pádua (RJ) construiu sua trajetória de professor e administrador do sistema educacional, além de marcante atuação na imprensa e na militância político-partidária. Aposentou-se como professor-adjunto na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde exercia suas funções no Departamento de Educação, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Vem atuando, há mais de cinquenta anos, no sistema educacional público e privado (da educação infantil à pós-graduação), no ensino, pesquisa, extensão e administração. Por iniciativa individual ou coletiva participou da fundação de uma dezena e meia de escolas e cursos em todos os níveis. Sua trajetória é marcada por vigorosa atuação política, partidária e sindical e em campos diversos, como músico, desportista, comentarista esportivo, escritor, poeta, chargista e responsável pela publicação do semanário viçosense “Muzungu”.










