Poesia & Conto

Poema | Isabel Mendes Ferreira

Foto de Johannes Plenio na Unsplash

gosto das vozes que não falam. ciciam. sibilam. mordem. arrastam-se na boca das desoras sempre iguais. monótonas. gosto dos traídos e dos traidores insensatamente descalços sobre o manto do desnorte. que nos são aterros. gosto das mulheres de lábios destintos e de ancas estuárias que se aprontam e se apressam a morrer entre os campos sobre as ruínas à revelia do futuro que nunca chega. gosto das falsas aparências que não iludem e nos atacam à navalhada numa diagnose sintomática e reconhecível. gosto dos homens de gravata apertada orgulhosos altivos e inseguros como canivetes de alumínio quente que nada são para lá de meninos pérfidos entre as saias do poder e da ganância e gosto dos homens tímidos que nunca o são. como elas. as mulheres gladiadoras do perfume dócil e enganador. gosto desgostando. como se em arena exposta todos os volteios fossem cartas de despedida e dogmas refutáveis ao contacto com a pele das serpentes. gosto de tanta gente que não conheço conhecendo-lhes as veias os nervos as rugas o espanto o medo a mentira e o corpo galgando derrotas e conquistas em desertos como cidades e em cidades como oceanos profundos. gosto de igrejas vazias onde o frio é quente e o silêncio filigrana comovente onde todas as falas são rezas e estas janelas da solidão. gosto de um fio de luz a ser lua sobre um império de arestas que sendo impessoal é jóia intransmissível _______________joelho dobrado na campa onde me julgo outra sendo sempre a mesma. gosto de não gostar de viver e viver como se o gosto a sangue fosse faina contínua de febre e de riso. gosto das vozes que não ouço sabendo que estão sempre aqui. labialmente perfeitas. limpas de limos. limpas de limbo. estranhezas de magníficos e magnéticos sons. inexistências. palpitação de papéis que o lixo engole vomita e retransforma. gosto de não gostar de ver. e desgosto de saber que vendo estou mais perto de morrer. ______________________

fotografia de Isabel Mendes Ferreira

Isabel Mendes Ferreira: Escritora, poetisa e pintora, natural do Montijo, editou o seu primeiro livro de poesia em 1982: “Sobre as Ervas um corpo de Junho”. No ano seguinte edita, na Bertrand, “Um Nocturno de Bach e um Relâmpago no Olhar”, segue-se “Um Corpo (sub) Exposto”, na Imprensa Nacional; sendo 1984 o ano de edição do livro de contos: “A Mais Loura de Lisboa”, na Difel. Em 1990 volta à poesia com “A Pele na Presença”, “Ponto Final”, na Átrium, “Cantochão e Vermelho Doce”, na Produce. Regressa em 2010 com “As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar”, na Babel, e entra em duas antologias. Possui colaboração dispersa por várias publicações e ainda são seus os textos do livro “Imagens”, de Dina Aguiar, as ilustrações do “À Mesa do Amor”, de Joaquim Pessoa, e os textos do “a. des.escrever esta língua que me é mar”, em co-autoria com José Rodrigues, editado no final de 2010 pela Câmara Municipal de Cascais.

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