Cultura

Teias de reflexão: uma jornada poética nos últimos 200 anos: notas sentidas na progressão dos séculos | Andréia Lara Kmita

Ao longo dos últimos dois séculos, a humanidade embarcou em uma jornada tumultuosa de descobertas, inovações e transformações que redefiniram fundamentalmente a tessitura de nossa existência. Filósofos notáveis, como Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Jean-Paul Sartre, forneceram lentes críticas para examinar as implicações filosóficas das realizações humanas nesse período e, entre os momentos de ápice no contexto, temos o advento da Revolução Industrial, por exemplo, que marcou um ponto de virada na histórica trajetória da humanidade, provocando mudanças radicais nas estruturas sociais e econômicas. Marx, com seu julgamento à alienação e ao capitalismo, alertou para os perigos da exploração desenfreada e da desigualdade crescente, prevendo uma luta de classes que ecoaria ao longo dos séculos.

 

Destaco a resistência enfrentada por Marx, infindamente combatido por reacionários e temido pela burguesia, dessa forma, obviamente, a relevância de suas formulações teóricas, construídas em parceria com Friedrich Engels, na compreensão materialista e dialética da realidade, bem como na manifestação consciente do proletariado na busca pela revolução; assim, ao abordar o ‘Manifesto Comunista’, surgiram interpretações que sugerem uma natureza teleológica no marxismo, argumentando que a obra não previa uma inevitabilidade linear em direção ao socialismo ou comunismo.

 

Entre as ebulições do século XIX, poetas como Wordsworth e Coleridge se distanciaram da compreensão materialista e dialética da realidade defendida por Engels e Marx. Envolvidos pelo movimento romântico, enalteceram a subjetividade e a experiência individual, explorando a natureza como um espelho dos sentimentos humanos, como em “Lines Composed a Few Miles Above Tintern Abbey” (1798) – “For I have learned / To look on nature, not as in the hour / Of thoughtless youth; but hearing oftentimes / The still, sad music of humanity”. No fragmento, Wordsworth expressa como a natureza se tornou para ele uma fonte de consolo e reflexão madura sobre a condição humana. O poeta Coleridge explora a variedade das estações e suas cenas associadas como elementos que podem afetar a sensibilidade humana, como por exemplo em “Frost at Midnight” (1798):

 

Therefore all seasons shall be sweet to thee, Whether the summer clothe the general earth With greenness, or the redbreast sit and sing Betwixt the tufts of snow on the bare branch Of mossy apple-tree, while the nigh thatch

Smokes in the sun-thaw; whether the eave-drops fall Heard only in the trances of the blast,

Or if the secret ministry of frost Shall hang them up in silent icicles, Quietly shining to the quiet Moon.

 

O excerto poético de “Frost at Midnight” (Geada à Meia-Noite) de Samuel Taylor Coleridge, expressaaideiadeque, paraseu filho (aquem o poema éendereçado), todas as estações do ano serão agradáveis. Ele começa mencionando o verão, quando a terra está verde e o peito vermelho canta, simbolizando a vitalidade e a beleza da natureza. Em seguida, Coleridge descreve o inverno, quando o peito vermelho (um pássaro) se senta entre os ramos nus de uma macieira musgosa, e a geada forma silenciosos pingentes de gelo. Essas imagens evocam a

serenidade e a beleza do inverno, mesmo em sua frieza e quietude. A referência ao peito vermelho e à macieira musgosa adiciona uma atmosfera de contemplação tranquila.

 

O poeta destaca a beleza em todas as estações, tanto na exuberância do verão quanto na serenidade do inverno, e enfatiza que essas estações serão agradáveis para a criança, e na última linha, brilhando silenciosamente para a lua silenciosa, sugere uma conexão mística e tranquila entre a natureza e a criança, contribuindo para a atmosfera poética e contemplativa do poema como um todo. O poema de Coleridge reflete características do romantismo devido à sua ênfase na conexão profunda entre o indivíduo e a natureza, bem como na expressão lírica das emoções e experiências pessoais. A ideia de que todas as estações serão doces para a criança sugere uma visão otimista e idílica da natureza, onde cada aspecto, até mesmo os mais frios e silenciosos do inverno, é apreciado e considerado valioso.

 

Por outro lado, ao contrastar essa visão romântica com as ideias do marxismo, podemos observar uma divergência significativa, uma vez que o marxismo, como uma teoria socioeconômica e política, concentra-se nas relações de classe, na luta de classes e na análise das estruturas sociais, logo, percebemos o distanciamento da visão romântica do poema, centrada na harmonia entre o indivíduo e a natureza, muitas vezes é considerada individualista e afastada das preocupações coletivas e sociais do marxismo. Como sabemos, o Romantismo exalta o indivíduo, aemoção e a naturezacomo forças poderosas, enquanto o marxismo direciona o foco para questões sociais, econômicas e políticas, destacando as desigualdades e as dinâmicas de poder na sociedade. Portanto, o contraste entre o poema romântico de Coleridge e as ideias marxistas reside na prioridade dada às experiências pessoais e à conexão com a natureza, em oposição à análise estrutural e à transformação social defendidas pelo marxismo.

 

Esses fragmentos refletem a ênfase dos poetas românticos em meio ao verde das colinas, das árvores, nas estações climáticas, na temperatura do tempo, no espaço-tempo, enfim, na natureza, a ser um reflexo das emoções e experiências humanas. Bem como Wordsworth, que em seus versos busca pela transcendência e a celebração do sublime contrastaram com a abordagem filosófica dos materialistas dialéticos. O conflito entre essas perspectivas revela a riqueza de debates e dualidades no cenário intelectual do século XIX, onde a poesia floresceu como um terreno fértil para reflexões filosóficas divergentes na contemporaneidade desses poetas, um bom exemplo se percebe no excerto a seguir do poema de Wordsworth, “I Wandered Lonely as a Cloud” (1807) – “For oft, when on couch I lie / In vacant or in pensive mood, / They flash upon that inward eye / Which is the bliss of solitude; / And then my heart with pleasure fills, / And dances with the daffodils”; aqui o poeta associa avisão das flores de narciso à alegria e à introspecção, destacando a conexão entre a natureza e o contentamento interior.

 

Wordsworth descreve como, em momentos de reflexão e solidão, as lembranças de um campo coberto de narcisos o preenchem de prazer, pois se tornam uma fonte de alegria e beleza, proporcionando um escape à solidão, elevando o espírito do poeta e preenchendo seu coração com contentamento. Entendo que, em uma época cheia de conflitos, era natural usar o ‘escapismo’para realizar desejos em um outro contexto, nem todos os poetas são ligados a questões sociais e preferem se distanciar dos problemas da vida real e se isolar. Mas há os que estão envolvidos com a política e a economia no genuíno tempo-espaço. A época de Karl Marx, durante o século XIX, foi marcada por uma série de movimentos culturais, literários e filosóficos que influenciaram e foram influenciados pelas ideias marxistas, por isso o foco aqui não tão somente enfatizar as ideias de Marx, mas também algumas de suas notas sentidas ao longo dos séculos, que por visto, é sentida por muitos outros em toda parte do mundo. No entanto, é importante notar que nem todos os escritores dessa época afastaram-se do contexto integralmente,

alguns foram críticos e duros, mantiveram-se no conforto das técnicas romanescas, enquanto outros incorporaram elementos do pensamento marxista em suas obras.

 

Poetas e escritores que, de certa forma, abordaram ou compartilharam preocupações semelhantes às de Marx em relação às contradições do capitalismo não são difíceis de serem identificados, pois permearam a mesma época temática em questão, como William Morris (1834-1896) – escritor, designer e ativista socialista inglês, compartilhou preocupações com as condições de trabalho na era industrial e criticava o capitalismo; em seu trabalho “News from Nowhere”, reflete-se uma visão utópica e socialista da sociedade. O romance é uma utopia socialista que descreve uma sociedade futura em que as classes sociais desapareceram, o trabalho é realizado por prazer, e a harmonia reina, o enredo é bem diferente à dos communards. Morris apresenta uma visão idealizada de uma sociedade igualitária e sustentável, contrastando-a com as condições sociais e industriais da Inglaterra vitoriana, por isso, a narrativa segue o protagonista, William Guest, enquanto ele explora e aprende sobre essa utopia transformada, tornando a obra “News from Nowhere” influente, pois expressa ideias socialistas e utópicas de Morris, um misto entre os ideais marxistas e o movimento do Romantismo.

 

Embora Percy Bysshe Shelley (1792-1822) tenha vivido antes de Marx, suas obras, como “Queen Mab”, refletem uma preocupação com as desigualdades sociais e a opressão, o idealismo e crítica à sociedade de sua época podem ser interpretados como precursores de algumas ideias marxistas, quem há de contestar? Bem, talvez isso possa servir de tese em algum doutorando. A seguir, Friedrich Engels (1820-1895), ainda que conhecido como colaborador próximo de Marx, também foi um escritor por conta própria, escreveu “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra” e examina as condições de vida dos trabalhadores industriais e fornece uma base empírica para as teorias de Marx.

 

Na mesma época temos Walt Whitman (1819-1892), poeta americano, não era estritamente marxista, mas sua obra “Song of Myself” (Canto a Mim Mesmo) celebrava a igualdade e a dignidade do trabalhador comum, refletindo algumas ideias socialmente progressistas – “I celebrate myself, and sing myself, And what I assume you shall assume, / For every atom belonging to me as good belongs to you” – o trecho da poesia de Whitman expressa a ideia de igualdade e comunhão entre todos os seres humanos, entender-me-ão nessa possível tradução “Eu celebro a mim mesmo, e canto a mim mesmo, / E o que presumo que você também deve presumir, / Pois cada átomo que pertence a mim é bom também para você”. O poeta sugere que cada indivíduo é digno de celebração, e cada parte de sua existência é tão valiosa quanto a de qualquer outra pessoa. Essa perspectiva reflete o humanismo e a crença na igualdade fundamental de todos os seres humanos, características de ideias socialmente progressistas.

 

Esses escritores não necessariamente concordaram com todas as ideias de Marx, mas compartilharam preocupações sobre as injustiças sociais, desigualdades e contradições inerentes ao sistema capitalista em ascensão durante o século XIX. Assim como foi no século XX, onde apareceram muitos poetas que abordaram a luta de classes e criticaram o capitalismo em suas obras, especialmente durante períodos de agitação sociopolítica. Dentre eles, recordamos de Bertolt Brecht (1898-1956), dramaturgo e poeta alemão, foi um crítico feroz do capitalismo, um exemplo está em “Cantata dos Operários em Função” e “À Luz do Dia”, poemas que abordam as injustiças sociais, a exploração dos trabalhadores e a luta de classes, sendo desde lá daquela época, a poesia de Brecht, marcada por um engajamento político explícito.

 

Como também é para Langston Hughes (1902-1967), importante poeta da Renascença do Harlem, em seus versos expressou preocupações sociais e políticas; seus poemas, como em “Let America Be AmericaAgain” (Que aAmérica volte a ser a América) que enfoca a desigualdade racial, a exploração econômica e as lutas dos trabalhadores.

 

O, let America be America again— The land that never has been yet—

And yet must be—the land where every man is free.

The land that’s mine—the poor man’s, Indian’s, Negro’s, ME— Who made America,

Whose sweat and blood, whose faith and pain, Whose hand at the foundry, whose plow in the rain, Must bring back our mighty dream again.

 

Langston Hughes, por meio de seu poema, expressa a esperança de uma América que cumpra suas promessas de liberdade e igualdade para todos os seus cidadãos, independentemente de sua origem ou status socioeconômico. Na tradução aproximada do excerto encontra-mos “Ah, que a América seja a América novamente — / Aterra que nunca foi ainda — / E ainda deve ser — a terra onde todo homem é livre. / A terra que é minha — do pobre, do índio, do negro, de MIM — / Que fez a América, […]”, Hughes reconhece as contribuições de diversas comunidades para a construção da nação e chama a atenção para a necessidade de realizar o verdadeiro potencial da América, e termina assim “Cujo suor e sangue, cuja fé e dor, / Cuja mão na fundição, cujo arado na chuva, / Devem trazer de volta nosso sonho grandioso novamente”.

 

A última linha, refere-se à contribuição dos trabalhadores para a construção da América e sugere que é por meio do esforço e da dedicação deles que o ideal da “América novamente” pode ser realizado. Well…, pelo menos deveria ser o que se apresenta na atualidade, entretanto, acontece o contrário nos tempos, a América se tornou uma extensão brutal do capitalismo europeu, incluindo o Reino Unido, que já foi europeu segundo Dominic Albuquerque em texto publicado para socientifica.com.br em 2022. No trecho específico do poema de Hughes abordado aqui, podemos ver uma conexão com a valorização do trabalho na teoria marxista, em que se argumenta sobre o trabalho sendo a fonte fundamental de valor na sociedade e que os trabalhadores, ao contribuírem com seu suor e esforço, deveriam colher os benefícios do sistema que ajudam a sustentar, como Marx argumenta em seus escritos. Em Hughes, destaca-se a importância do trabalho e sugere uma aspiração à justiça social, alinhando-se, de certa forma, com as ideias marxistas de equidade e reconhecimento do papel central dos trabalhadores na construção da sociedade.

 

Embora, em todas essas notas sentidas ao longo dos séculos, tenham marcado a poesia e o romance a mais do que qualquer outro contexto, visto que, na realidade quem não trabalha não tem dinheiro, e quem trabalha não o vê também, apontando para a alienação do trabalhador em relação ao produto de seu próprio trabalho. Isso reflete a ideia marxista de que, sob o capitalismo, os trabalhadores são alienados de seu trabalho e do valor que produzem e que mesmo com tantos Sindicatos espalhados pelo mundo, na atualidade, isso pode ser interpretado como uma crítica à desigualdade econômica e à falta de controle que os trabalhadores muitas vezes têm sobre os frutos de seu trabalho. O que digo aqui sobre a ideia de que “quem trabalha não o vê a cor do dinheiro também” (grifo nosso) sugere que, embora os trabalhadores estejam envolvidos na produção de riqueza, muitas vezes não têm acesso ou controle sobre essa riqueza, que acaba concentrada nas mãos de poucos, como os donos de mineradoras e etc. Essa perspectiva continua a ser relevante em debates contemporâneos sobre justiça econômica e distribuição de recursos.


O que me faz lembrar de Pablo Neruda (1904-1973), poeta chileno, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, que levantou questões sociais e políticas em sua poesia, como em “Canto Geral” por exemplo, um livro de poemas escrito por Neruda e publicado primeiramente no México em 1950. Em partes a obra expõe a visão socialista de Neruda e sua oposição às injustiças do capitalismo, abrangendo uma variedade de temas relacionados à história, política e cultura da América Latina. Alguns poemas são bem específicos sobre a temática aqui abordada, os quais tocam diretamente em questões relacionadas à injustiça social, exploração e o impacto do capitalismo, como “Alturas de Macchu Picchu” que traz uma das partes mais manifestas de “Canto General” e trata da exploração dos povos indígenas e da opressão sob o domínio colonial; “La United Fruit Co”, onde Neruda critica diretamente a empresa United Fruit Company, uma corporação americana envolvida em práticas exploradoras naAmérica Latina; “Los Trabajadores” (Os Trabalhadores), poema que transmite a luta e a condição dos trabalhadores, tocando em temas de exploração e desigualdade social; e por fim, não sendo um dos últimos da obra, o poema “Explico algunas cosas” (Explico Algumas Coisas), que, embora não seja exclusivamente sobre o capitalismo, menciona a Guerra Civil Espanhola e a luta contra a opressão.

 

Do outro lado do Oceano encontramos o poeta turco Nazim Hikmet (1902-1963), um defensor ativo da justiça social e do comunismo. Sua poesia “Human Landscapes from My Country” (Paisagens humanas do meu país) exatamente, entre tantas outras, explora temas como a desigualdade, a exploração e a luta dos trabalhadores. O tema que aqui transborda é bastante envolvedor, dificilmente deixa de tocar a sensibilidade de um poeta, entre tantas descobertas, inovações e transformações na tessitura da existência humana, aparece-nos em Allen Ginsberg (1926-1997), importante figura da Geração Beat, reerguendo questões sociais e políticas em seus versos, como no poema “Howl” onde Ginsberg traz uma crítica à sociedade contemporânea, incluindo as condições econômicas e as injustiças sociais: “I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked, / dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix, / angelheaded hipsters burning for the ancient heavenly connection to the starry dynamo in the machinery of night…”, no fragmento traduzido para o português, aproximado do original, as palavras de Ginsberg ressoam mais iluminadas aos nativos brasileiros “Eu vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura, famintas histéricas nuas, / arrastando-se pelas ruas negras ao amanhecer procurando uma dose enfurecida, / hipsters angelicais queimando pela conexão antiga e celestial com o dínamo estrelado nas engrenagens da noite…”, a destruição das melhores mentes de uma geração pela insanidade, destacando a busca por alívio em substâncias e a desconexão espiritual em uma sociedade que Ginsberg via como caótica e desumanizante.

 

“Howl” é uma obra complexa e intensa que critica diversos aspectos da sociedade moderna, incluindo conformidade, alienação e a frieza da tecnologia. Por fim, não menos importante, finalizo com Roque Dalton (1935-1975), poeta salvadorenho, militante e revolucionário, levantou bandeiras nas questões sociais e políticas em seus poemas. O poeta salvadorenho demonstra seu engajamento político em muitos poemas, como “Love Poem” (Poema de Amor) conhecido por combinar elementos românticos com críticas sociais e políticas, onde o amor é uma metáfora para as lutas políticas e sociais de seu tempo; em “Mia San Mia” (Nós Somos Nós), traz estampada a solidariedade e a importância da união em face da opressão, a necessidade de resistir juntos contra as injustiças; e o meu favorito “Pobre La Maria” (Pobre Maria), retratando as condições de vida precárias dos pobres e destacando as desigualdades sociais em forma de crítica, bem como, a exploração econômica, que nos chama a atenção para as dificuldades enfrentadas pelos menos privilegiados.


Um poema que confronta a realidade da violência e da repressão política é “Yo Soy Testigo de la Resurrección de los Muertos” (Eu Sou Testemunha da Ressurreição dos Mortos), onde Dalton traz temas como a luta contra a tirania e a resiliência do espírito humano diante da ad-versidade. Em “La guerra de guerrillas” (A Guerra de Guerrilhas) ele explora o tema da guerrilha como uma forma de resistência contra regimes opressivos, das complexidades e desafios da luta armada como meio de alcançar a justiça. A poesia de Roque Dalton é caracterizada por sua mistura de sensibilidade lírica, crítica social afiada e uma voz distintamente revolucionária, em seus versos coabitam aspectos únicos sobre as questões sociais e políticas de sua época, especialmente durante um período de agitação e conflito em El Salvador. Todos os poe-tas, romancistas e escritores aqui citados representam apenas alguns exemplos dos muitos ao redor do mundo que abordaram a luta de classes e criticaram o capitalismo em suas criações literárias durante o século XX.

 

Quando um escritor e poeta usa sua escrita e poesia para denunciar ou abordar injustiças no mundo, ele está envolvido em uma forma de ativismo literário ou social certamente, e considero esse tipo de expressão artística uma busca provocativa pela conscientização, principalmente, para estimular reflexão crítica e, muitas vezes, inspirar ação social e mudanças. Esses escritores podem ser chamados de ativistas literários ou artistas engajados, pois usam a palavra escrita como uma ferramenta para dar voz aos oprimidos, questionar sistemas injustos, expor desigualdades e provocar uma resposta emocional e intelectual em seus leitores. Evidente que esse tipo de abordagem literária, muitas vezes transcende as páginas dos livros e pode ter impacto direto nas conversas sociais e políticas, sobretudo nas mídias em geral.

 

Sobretudo porque os autores que se dedicam a essa forma de ativismo literário frequentemente exploram questões como direitos humanos, justiça social, discriminação, desigualdade, opressão eoutros temas relacionados. Logo, éinegável queacrítica construa cenários ao enfocaras contradições do capitalismo, traçando paralelos com sistemas históricos anteriores e ressaltando a visão de Marx e Engels sobre a não eternidade dessas contradições, prevendo um momento em que o proletariado derrubaria a burguesia e estabeleceria um Estado proletário. Não obstante, e regressando a época do filósofo Karl Marx, o mesmo já apontava que a derrubada do capitalismo não seria automática, sendo resultado da ação política organizada dos explorados, liderada por um partido consciente da classe trabalhadora. Esses pensamentos insanos fizeram nascer o ‘Manifesto Comunista’, marcado pelo agito político na Europa em 1848 e pela noção de “revolução em permanência” por ele esboçada, enfatizando a importância de não se contentar com vitórias parciais, mas sim perseguir a transformação radical da propriedade privada. Por fim, ressalto que, apesar de algumas previsões conjunturais equivocadas, o legado de Marx permanece vital, oferecendo contribuições fundamentais para a compreensão das contradições e dinâmicas do capitalismo.

 

Em 1871, um governo autônomo é estabelecido na França, após a derrota da França na Guerra Franco-Prussiana e a captura do imperador Napoleão III. Foi proclamada em 18 de março e encerrada em 28 de maio do mesmo ano a Comuna, sendo liderada pelos “comunardos”, uma coalizão de trabalhadores, socialistas e republicanos radicais. Durante seu curto reinado, a Comuna implementou reformas progressistas, como democracia direta, separação da Igreja do Estado, criação de escolas laicas e garantia de direitos trabalhistas. Enfrentando forte oposição, a Comuna foi reprimida brutalmente durante a “Semana Sangrenta” (21 a 28 de maio), resultando em execuções, prisões e exílios. “Vive la Commune” tornou-se um lema e símbolo para movimentos socialistas e comunistas, celebrando os ideais de justiça social, democracia e igualdade perseguidos durante sua breve existência.

 

Karl Marx não teve participação direta na Comuna de Paris em termos de envolvimento ativo nos eventos ou na liderança do movimento. Na época da Comuna (1871), Marx estava exilado em Londres e envolvido em suas atividades intelectuais e políticas, como a redação de obras como “O Capital”. Contudo, a Comuna de Paris foi fortemente influenciada pelas ideias do socialismo e comunismo, que incluíam conceitos desenvolvidos por Marx e Engels, e, evidentemente, os comunardos compartilhavam algumas das visões políticas e econômicas propostas por Marx, como a busca pela emancipação dos trabalhadores, a crítica ao capitalismo e a aspiração por uma sociedade mais justa e igualitária.

 

Embora Marx não estivesse diretamente envolvido na organização da Comuna, a experiência da Comuna de Paris teve um impacto profundo em suas reflexões sobre a luta de classes, o papel do Estado e a possibilidade de uma transformação revolucionária da sociedade. Ele posteriormente analisou os eventos da Comuna em suas obras, como “A Guerra Civil na França” (1871), onde elogiou os esforços dos comunardos, enquanto discutia suas limitações e lições para o movimento socialista. “A Comuna, porém, era essencialmente um governo da classe trabalhadora, resultado da luta da classe produtora contra a classe apropriadora, a forma política finalmente descoberta que permitia realizar a emancipação econômica do trabalho” (www.marxists.org).

 

Nesse contexto, a humanidade e o desenvolvimento da tecnologia, da ciência e da medicina testemunharam avanços extraordinários. Filósofos como Martin Heidegger e Jean-François Lyotard questionaram as ramificações da tecnologia para a natureza da existência humana e a perda de autenticidade em meio à era da informação. A busca pelo conhecimento sempre foi um fio condutor para cientistas e escritores e pensadores, como o foi para Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein, que moldaram o debate sobre lógica, linguagem e epistemologia, desafiando concepções estabelecidas e instigando uma revolução na filosofia analítica.

 

Todavia, em meio a esse progresso, surgiram dilemas éticos profundos, como por exemplo, a filosofia de Albert Camus e Sartre. Em suas obras podemos explorar as questões existenciais diante das conquistas científicas e tecnológicas do século XX, questionando se a humanidade, ao se libertar das limitações naturais, havia se alienado de sua própria essência. Ambos haveriam de ficar satisfeitos com os resultados que a internet tem sobre a mente humana em 2023, embora tenham partido em décadas anteriores às que formam o início do Século XXI. Camus, conhecido por suas contribuições à filosofia existencialista e por sua obra literária, especialmente o romance “O Estrangeiro” e o ensaio “O Mito de Sísifo” e Sartre como figura central no movimento existencialista que deixou um impacto significativo na filosofia com obras como “O Ser e a Nada” e “A Náusea”. Ambos os filósofos foram contemporâneos e desempenharam papéis importantes na cena intelectual do século XX, especialmente durante e após a Segunda Guerra Mundial.

 

Ainda nas teias das reflexões ante, durante epós marxistas, vem o cortejo às conquistas na esfera política e que também foram notáveis, com movimentos como a Revolução Francesa estabelecendo a busca pela liberdade, igualdade e fraternidade como princípios fundamentais, onde John Rawls eHannah Arendt, posteriormente, ofereceram reflexões críticas sobre a justiça e a natureza da autoridade política e, apesar desses avanços, a história recente também é manchada por conflitos e atrocidades. A filosofia de paz de Mahatma Gandhi e os apelos à não violência de Martin Luther King Jr. foram respostas a momentos sombrios, ressaltando a importância da justiça social e da resistência pacífica. De fato, os últimos 200 anos foram marcados por uma teia complexa de triunfos e desafios.


Os filósofos, sempre atentos aos debates fundamentais, continuaram a iluminar os caminhos da reflexão crítica, enquanto a poesia a contestar, resistir e se deixar amar. Ambos formam um contínuo diálogo entre pensadores e eventos e a humanidade se depara com a responsabilidade de moldar seu futuro, mantendo-se fiel à busca incessante pela verdade, justiça e significado, enquanto os bilionários e milionários do terra atual, como também os herdeiros, gozam de poder, embora não o usem para diminuir a pobreza no mundo, nem tão pouco a fome, nem salvam as crianças nem as ajudam. Os ricos exploram terras, águas, árvores, animais e humanos, extraem tudo o que podem, exploram mais e mais, logo, percebemos que aqueles que se interessam pelo próximo, pelo outro, não estão muitas vezes dentro das igrejas, e sim, em uma sala fechada, em meio aos livros e pensamentos, insanos por vezes, focados nas descobertas, até se tornar mais um rico desumano.

 

Fotografia de Andréia Lara Kmita

Andréia Lara Kmita: natural de Campo Mourão – Paraná (25/04/1977), região Sul do Brasil, migrou com a família de ascendência italiana e ucraniana para o Norte do país. Docente na Educação Básica (Ensino Médio) na SEDUC/MT desde 1994. Graduada em “Letras” (1999/FADAF). Especialista em Linguística Aplicada e Literatura Brasileira (2009) e Mestre em Literatura e Crítica Literária (2018/PUCSP). Pós-graduada e “Psicologia e Coach” (2020/Faculdade Metropolitana de Ribeirão Preto – SP), em 2021 cursou “Terapia Cognitivo-Comportamental: Princípios Teóricos e Epistemológicos” e “Introdução a Psicanálise Freudiana” no Portal de Psicologia (in)Formação. Fez parte de grupos de pesquisa na PUC-SP sobre poesia e crítica literária em 2015 e 2016. Integrou o grupo de pesquisa da Profa. Dra. Telê Ancona Lopez USP (FFLCH) 2015/2016/2017 sobre o “Trabalho do Crítico”. Atuou como Coordenadora Pedagógica na escola especializada em Educação no Sistema Prisional de Mato Grosso de 2019 a 2020, onde escreveu documentos de suma importância para o Estado de Mato Grosso no segmento educacional PPL (Privados de Liberdade). Em 2021, iniciou o Doutoramento na FLUC (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) em Línguas Modernas: Culturas, Literatura e Tradução. É escritora de projetos políticos educacionais e culturais, poeta, contista e roteirista de cinema.

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