Cultura

Populismo digital e conteúdos desinformativos | Lucyane De Moraes

Populismo digital e conteúdos desinformativos

Maximizados em termos globais e utilizados de forma universalizada, pode-se dizer que os media eletrônicos e seus atualizados recursos de imersão digital têm influenciado decisivamente a cultura e, mais recentemente, a política, justificado pela empatia e prazer instantâneo que suscita no receptor desatento, num contexto histórico mundial cada vez mais disposto a promover desigualdades em sentido consensual.

 

Se por um lado, os atualizados recursos criam a impressão de uma esfera comunicativa irrestrita e ilimitada, e realizam uma ideia de democracia e liberdade para os indivíduos, por outro lado, estes mesmos recursos (sobretudo, via redes sociais) lastreados pelas tecnologias digitais, possibilitam o contato generalizado entre usuários e organizações hegemônicas de interesses políticos, sem qualquer tipo de regulamentação ou mediação social.

 

Neste contexto, os usuários então metamorfoseados em sujeitos-objetos, passam a ser organizados interativamente de acordo com um quadro referencial que permite mapear, condicionar e até mesmo antecipar modos, preferências e  costumes em termos comportamentais, criando, via processos imersivos tecnológicos, tendências culturais, ideológicas e políticas em sentido gradual.

 

Com efeito, pode-se dizer que tal contexto contribui para o fenômeno tendencial de aderência e reedição do quadro mundial de conservadorismo em curso que, opondo-se a avanços socioculturais efetivos, lançam mão de estratégias fundadas em uma espécie de «populismo digital» que inibe a participação política de indivíduos autônomos.

 

Sem a imposição hegemônica (e a-social) dos atualizados recursos midiáticos digitais esse modelo de violência que atravessa o indivíduo, sequer poderia ser pensado. Sob essa ótica, não é mais possível ignorar a impressão incontestável de que tais avanços  tecnológicos hegemônicos progrediram mais rapidamente do que o conhecimento e a consciência político-social, fenômeno esse caracterizado por um modelo de poder absoluto, mensurado em termos quantificados para um momento histórico pouco qualificado.

 

Analogamente a um processo político de desobediência civil, é necessário realizar a crítica a essa autoridade tecnológica imposta hegemonicamente à sociedade fragmentada, combinada com um agir dimensionado nos mesmos termos. É, por suposto, imperativo (re)pensar pressupostos formais absolutizados pela razão algorítmica, no qual espaço e tempo seguem uma lógica suis generis sem precedentes. Eis a nova fronteira do saber. Eis o desafio da reflexão filosófica nos tempos atuais.

 

Fotografia de Lucyane de Moraes

Lucyane De Moraes – Nascida em Salvador-Bahia é uma estudiosa dos fenômenos socioculturais ligados à recepção crítica das recentes tecnologias digitais, com enfoque na Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. É autora do livro Theodor Adorno & Walter Benjamin – Em torno de uma amizade eletiva (Edições 70). 

@lucyanedemoraes





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