
- SOU UM ANIMAL DE MARGENS
Sou um animal de margens na floresta
labiríntica do entardecer em cada pedra que me arroja o tempo
na espuma das marés nos desertos que atravesso.
Há sempre um rio
serpenteando por entre a difusa luz da fuga
e o alongado tornear de cada regresso.
- GALOPE SEM RÉDEA
Alucinada
tarde em que mordemos
o ímpeto no flanco de cada gesto.
Galope sem rédea à esquina da ira.
Feroz despedida no rasto da sombra.
Ai, o dia expirando terroso funesto.
- À BOCA DO DIA
Fugaz
esplendor à boca do dia
nocturno arrebatamento
ainda loucura tão
perto de aventura final.
Resta do assombro
mundana
paixão mudo
indelével vulcão dos sentidos
temível fatal.
- SOLIDÃO
Solitária
rainha no xadrez em ruínas
onde a tarde se acanha
à tona das horas sem tempo
que a vença onde os cavalos
se espantam no uivo do vento
no galope da nuvem que tece
a poeira e perece nas malhas da saudade suspensa.
REGINA CORREIA
Maria Regina Fernandes Correia, luso-angolana, é licenciada em Filologia Germânica, pela Faculdade de Letras de Lisboa. Foi professora do ensino secundário em Angola e em Portugal e docente de língua e cultura portuguesas na Alemanha. É autora de prefácios e recensões públicas de livros bem como de recitais poéticos, sobretudo junto de instituições cabo-verdianas, e membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Publicou os livros de ficção Os Enteados de Deus (1990 – Prémio Revelação de Ficção da Cidade do Montijo/APE) e Uma Borboleta na Cidade (1999), e os de poesia Noite Andarilha (1999), Sou Mercúrio, Já Fui Água (2012), Conjugação de Mapas (2021 – Melhor Livro de Poesia, ZL Books, Rio de Janeiro) e No Coração dos Desertos e Outros Oásis, pela Rosa de Porcelana Editora.










