
Poema para um País Silenciado
Há um país onde o silêncio
aprendeu a gritar mais alto que a
voz do povo. Um país onde o
medo tem endereço fixo e a
esperança dorme de
portas trancadas. Lá, as palavras
hesitam em nascer, e os poetas
aprendem a morrer em silêncio.
É uma terra onde a verdade se
deita com a mentira, onde a
ilusão é o único manto que
resta. Onde se aprende, desde
criança, que falar pode custar
mais caro que a fome que
assombra as mesas vazias.
Moçambique, meu amor difícil,
como dói amar-te quando finges
não ver o pranto dos teus filhos.
Como pesa escrever-te poemas,
quando cada verso é um nó na
garganta, quando cada rima é
um grito sufocado.
Neste chão vermelho, a injustiça
já não choca: é rotina. As
promessas são sementes secas,
que nunca germinam, porque a
pátria está cansada de
ser enganada, de ouvir discursos
que não florescem.
E mesmo assim, ainda te
escrevo. Escrevo porque a
palavra é tudo o que me resta
quando me roubam o pão, o
amanhã, o nome e a dignidade.
Este poema não pede licença,
não espera aplauso, não se
veste de metáforas, ele ergue-
se nu, no meio da praça da
independência, e te pergunta:
Moçambique, ouves os meus
gemidos de dor?
Só quem sente, muda. Só
quem escreve, ainda acredita.
O Poeta dos Pássaros
As palavras são pássaros
do campo, não se deixam
prender. Escapam pelas frestas
do peito, onde a dor já não cabe
no olhar. Voam do silêncio,
quando até o vento esquece
como se escuta. Algumas têm
garras afiadas e cortam o céu da
boca do poema. Outras,
sedentas como andorinhas,
chegam anunciando chuva no
coração endurecido pela dor.
Trazem sementes de memória, na
reza sussurada da minha avó, à
beira do rio, onde o tempo
parece caminhar descalço. As
palavras guardam os segredos
da minha terra: conhecem a voz
dos tambores antigos,
conhecem o nome da cada
estrela costurada no céu.
Carregam os sonhos e o grito
dos que ainda escrevem:
liberdade, com letras de
sangue, nas margens da
esperança.
Palavras e poemas são pássaros,
que pousam nos galhos do
embondeiro plantado dentro do
papel. Mas também ardem,
como carvão vivo, nas gargantas dos heróis
esquecidos: pássaros sem céu,
batendo asas contra a
ignorância do mundo.
E nós, poetas, não somos donos
delas. Somos apenas o ramo
breve onde descansam antes de
voar. Guardamos as palavras por
um instante apenas, até que
partam rumo a outras vozes,
outros quintais, outros mundos,
onde, quem sabe, brotarão de
novo, renascidas em forma de
poema.
Africanizado
Não me perguntes quem sou,
porque não sou um só: sou
muitas Áfricas reunidas num só
corpo. Sou o que reza o silêncio
quando a palavra falta, o que
escreve com sangue nas
paredes do tempo esquecido.
Africanizado na cor, na
pulsação, no passo firme sobre a
terra batida. Sou lágrima antiga,
escorrendo no rosto da história,
memória que resiste à tentativa
de apagamento.
Fui vendido, mas nunca
silenciado. Voltei mais forte,
estou nas rugas da avó que
ainda canta à noite, nas
cicatrizes que se tornaram
mapas de retorno, nos olhos da
criança que resiste com um
sonho aceso no peito. Carrego
com orgulho este nome que
recusaram, mas que abraço
como bandeira não reconhecida.
Falo as línguas locais da minha terra,
misturadas com
saliva e sal sagrados, com mar e memória,
com fome e fogo. Sou da cor da
noite de Cabo Delgado, mas
levo comigo o seu sol dentro do peito. Sou
chão rachado que se recusa a
morrer, raíz que ainda grita
debaixo da terra seca.
Não me peçam silêncio. Porque
eu sou tudo que tentaram
apagar.
Eu floresço sempre.
Estou africanizado.
Sou uma África que sonha.
Sou Preto
Sou preto, não apenas na cor,
mas na memória que se recusa a
desaparecer.
Sou a cicatriz africana que o
tempo não apaga, o tambor que
grita mesmo quando o som é
proibido.
carrego na pele o mapa de
África e Moçambique, e nos
ossos, os idiomas dos meus
ancestrais que dançaram antes
da palavra ser escrita.
Sou preto quando escrevo, preto
quando respiro.
Sou mais do que uma estatística
sou presença permanente.
Não me curvo mesmo cansado,
sou o sonhador que ergue a casa
onde negaram o chão.
Sou filho dos nacionalistas
mortos, herdeiro da sabedoria,
das histórias contadas ao redor
da fogueira, guardião da chama
que mantém viva a luta.
Escrevo para que o menino da
minha terra não se envergonhe
da sua cor,
para que a menina da minha terra
não duvide que os seus cabelos são uma coroa de
rainha africana.
Sou preto, uma resposta viva à
pergunta que o mundo insiste
em calar.
Sou a história dos heróis
africanos esquecidos, que vivem
em mim como um grito
silenciado e eterno.
Sou eco dos que ainda virão.
Em mim, a poesia é herança e
Caminho.
Exílio do Corpo
Meu corpo,
mapa de ausências,
nunca soube onde morar.
Anda com os pés no chão que
ainda está por vir.
E minha alma vagueia entre fronteiras invisíveis.
Minha pele, passaporte vencido,
meu coração é uma bagagem que
ninguém inspeciona,
muito pesada, carrega as moradas que nunca tive.
Exilaram-me neste lugar, meu corpo.
Disseram que eu era daqui, mas
tratam-me como um estrangeiro.
Falaram minha língua com
sotaque de dono.
Roubam a minha terra e chamam
de progresso.
Meu corpo sente: sente tudo,
Mesmo o que não dizem.
Sente o aperto do coração da minha cidade,
que me engole.
Carrego o meu país no peito,
Mas ele não me reconhece
como filho.
O exílio do meu corpo é pior do que o
da minha terra.
Porque pertenço a este lugar,
ao mesmo tempo, a lugar nenhum.
Minhas raízes estão a ser cortadas,
e mesmo assim continuo a florir,
com a teimosia de quem sabe
que o meu corpo é um território sagrado.
Mesmo exilado, não me esqueço,
quem sou, de onde venho,
E onde quero ir.
Identidade, Pertencimento, Liberdade!
Morgado Henrique Mbalate, mais conhecido por Morgado Mbalate e O Anjo das Palavras, nasceu em Maputo, no dia 6 de Setembro de 1993. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO); Licenciado em Filosofia pela Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). É autor do livro Odisseia da Alma (Editora Edições Esgotadas, 2016); A Arte Suave da Palavra (Chiado Books, 2020); Co-autor do CD de Literatura Negra ‘O que nos a Bala‘ (Comunidade do Tambor, 2018). De entre Prémios e Distinções: destaque para o Prémio Bicentenário de Dostoiévski (2021), menção honrosa no Premio Mondiale di Poesia Nosside (2014), menção honrosa no Prémio Fernanda de Castro do IV Concurso Internacional de Poesia e Prosa (2017). Participou no Festival Internacional Earthquake Terremoto 5ª edição 2021. Participa em várias Antologias, e colabora em diversas revistas internacionais. Seu poema “Africanizando” foi contemplado no ensino fundamental e médio brasileiro. Seus textos foram traduzidos para francês, inglês, espanhol, italiano, e são estudados em escolas e Universidades em Moçambique e no Brasil.










