Poesia & Conto

A pátria falou pela boca do poema: 5 poemas inéditos | Morgado Mbalate

Foto de Caleb Toranzo na Unsplash

Poema para um País Silenciado

 

Há um país onde o silêncio 

aprendeu a gritar mais alto que a 

voz do povo. Um país onde o

medo tem endereço fixo e a

esperança dorme de

portas trancadas. Lá, as palavras

hesitam em nascer, e os poetas

aprendem a morrer em silêncio.

 

É uma terra onde a verdade se

deita com a mentira, onde a

ilusão é o único manto que 

resta. Onde se aprende, desde

criança, que falar pode custar

mais caro que a fome que

assombra as mesas vazias.

 

Moçambique, meu amor difícil,

como dói amar-te quando finges

não ver o pranto dos teus filhos.

Como pesa escrever-te poemas,

quando cada verso é um nó na 

garganta, quando cada rima é

um grito sufocado.

 

Neste chão vermelho, a injustiça

já não choca: é rotina. As

promessas são sementes secas,

que nunca germinam, porque a 

pátria está cansada de

ser enganada, de ouvir discursos

que não florescem.

 

E mesmo assim, ainda te

escrevo. Escrevo porque a 

palavra é tudo o que me resta

quando me roubam o pão, o

amanhã, o nome e a dignidade.

Este poema não pede licença,

não espera aplauso, não se

veste de metáforas, ele ergue-

se nu, no meio da praça da

independência, e te pergunta:

Moçambique, ouves os meus

gemidos de dor?

 

Só quem sente, muda. Só

quem escreve, ainda acredita.

O Poeta dos Pássaros

 

As palavras são pássaros

do campo, não se deixam

prender. Escapam pelas frestas

do peito, onde a dor já não cabe

no olhar. Voam do silêncio,

quando até o vento esquece

como se escuta. Algumas têm

garras afiadas e cortam o céu da

boca do poema. Outras,

sedentas como andorinhas,

chegam anunciando chuva no 

coração endurecido pela dor.

 

Trazem sementes de memória, na

reza sussurada da minha avó, à

beira do rio, onde o tempo

parece caminhar descalço. As 

palavras guardam os segredos 

da minha terra: conhecem a voz

dos tambores antigos,

conhecem o nome da cada

estrela costurada no céu.

Carregam os sonhos e o grito

dos que ainda escrevem:

liberdade, com letras de 

sangue, nas margens da

esperança.

 

Palavras e poemas são pássaros,

que pousam nos galhos do

embondeiro plantado dentro do

papel. Mas também ardem, 

como carvão vivo, nas gargantas dos heróis 

esquecidos: pássaros sem céu,

batendo asas contra a

ignorância do mundo.

 

E nós, poetas, não somos donos

delas. Somos apenas o ramo

breve onde descansam antes de

voar. Guardamos as palavras por

um instante apenas, até que

partam rumo a outras vozes,

outros quintais, outros mundos,

onde, quem sabe, brotarão de

novo, renascidas em forma de

poema.

Africanizado

 

Não me perguntes quem sou,

porque não sou um só: sou

muitas Áfricas reunidas num só

corpo. Sou o que reza o silêncio

quando a palavra falta, o que 

escreve com sangue nas 

paredes do tempo esquecido.

Africanizado na cor, na

pulsação, no passo firme sobre a 

terra batida. Sou lágrima antiga,

escorrendo no rosto da história,

memória que resiste à tentativa

de apagamento.

 

Fui vendido, mas nunca

silenciado. Voltei mais forte,

estou nas rugas da avó que 

ainda canta à noite, nas 

cicatrizes que se tornaram

mapas de retorno, nos olhos da

criança que resiste com um

sonho aceso no peito. Carrego 

com orgulho este nome que

recusaram, mas que abraço 

como bandeira não reconhecida.

 

Falo as línguas locais da minha terra,

misturadas com

saliva e sal sagrados, com mar e memória,

com fome e fogo. Sou da cor da

noite de Cabo Delgado, mas

levo comigo o seu sol dentro do peito. Sou

chão rachado que se recusa a

morrer, raíz que ainda grita

debaixo da terra seca.

 

Não me peçam silêncio. Porque

eu sou tudo que tentaram 

apagar.

Eu floresço sempre.

 

Estou africanizado.

Sou uma África que sonha.

 

Sou Preto

 

Sou preto, não apenas na cor,

mas na memória que se recusa a

desaparecer.

Sou a cicatriz africana que o

tempo não apaga, o tambor que

grita mesmo quando o som é

proibido.

carrego na pele o mapa de

África e Moçambique, e nos

ossos, os idiomas dos meus

ancestrais que dançaram antes

da palavra ser escrita.

 

Sou preto quando escrevo, preto

quando respiro.

Sou mais do que uma estatística

sou presença permanente. 

Não me curvo mesmo cansado,

sou o sonhador que ergue a casa

onde negaram o chão.

 

Sou filho dos nacionalistas

mortos, herdeiro da sabedoria,

das histórias contadas ao redor

da fogueira, guardião da chama

que mantém viva a luta.

 

Escrevo para que o menino da

minha terra não se envergonhe

da sua cor,

para que a menina da minha terra

não duvide que os seus cabelos são uma coroa de 

rainha africana.

 

Sou preto, uma resposta viva à 

pergunta que o mundo insiste

em calar.

Sou a história dos heróis 

africanos esquecidos, que vivem

em mim como um grito

silenciado e eterno.

 

Sou eco dos que ainda virão.

Em mim, a poesia é herança e

Caminho.

Exílio do Corpo

 

Meu corpo,

mapa de ausências,

nunca soube onde morar.

 

Anda com os pés no chão que

ainda está por vir.

E minha alma vagueia entre fronteiras invisíveis.

 

Minha pele, passaporte vencido,

meu coração é uma bagagem que

ninguém inspeciona,

muito pesada, carrega as moradas que nunca tive.

 

Exilaram-me neste lugar, meu corpo.

Disseram que eu era daqui, mas

tratam-me como um estrangeiro.

Falaram minha língua com

sotaque de dono.

Roubam a minha terra e chamam

de progresso.

 

Meu corpo sente: sente tudo,

Mesmo o que não dizem.

Sente o aperto do coração da minha cidade,

que me engole.

Carrego o meu país no peito,

Mas ele não me reconhece

como filho.

 

O exílio do meu corpo é pior do que o

da minha terra.

Porque pertenço a este lugar, 

ao mesmo tempo, a lugar nenhum.

 

Minhas raízes estão a ser cortadas,

e mesmo assim continuo a florir,

com a teimosia de quem sabe

que o meu corpo é um território sagrado.

 

Mesmo exilado, não me esqueço,

quem sou, de onde venho,

E onde quero ir.

Identidade, Pertencimento, Liberdade!

 

Foto Morgado Mbalate

 Morgado Henrique Mbalate, mais conhecido por Morgado Mbalate e O Anjo das Palavras, nasceu em Maputo, no dia 6 de Setembro de 1993. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO); Licenciado em Filosofia pela Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). É autor do livro Odisseia da Alma (Editora Edições Esgotadas, 2016); A Arte Suave da Palavra (Chiado Books, 2020); Co-autor do CD de Literatura Negra ‘O que nos a Bala‘ (Comunidade do Tambor, 2018). De entre Prémios e Distinções: destaque para o Prémio Bicentenário de Dostoiévski (2021), menção honrosa no Premio Mondiale di Poesia Nosside (2014), menção honrosa no Prémio Fernanda de Castro do IV Concurso Internacional de Poesia e Prosa (2017). Participou no Festival Internacional Earthquake Terremoto 5ª edição 2021. Participa em várias Antologias, e colabora em diversas revistas internacionais. Seu poema “Africanizando” foi contemplado no ensino fundamental e médio brasileiro. Seus textos foram traduzidos para francês, inglês, espanhol, italiano, e são estudados em escolas e Universidades em Moçambique e no Brasil.

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