
| CAÍRAM AS FOLHAS
Caíram as folhas que vi nascer quando parti
Não fui testemunha das aguadas nem da prenhez da terra que alimentaram
Apenas a meia-volta da memória se despede, vez ou outra,
E sigo na constância, e os dias, sim, brotam,
Mas sem as folhas que, dispersas, me calçaram o egoísmo.
Vitória, 13-01-24 |
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A LATERALIDADE DO VOO
A desventura ensina o possível do voo, o caminho pela passagem estreita onde transborda o vazio.
DO CASTO RETIRO DE UM POETA
Aos que enchem de óleo as trincheiras para reacendê-las
Lembrem-se dos ossos de aluvião, das marcas d’água da memória; passos sem rumo de seus ancestrais, da noite subindo ao céu e os tons das cinzas tingindo a história com o desassossego humano.
Vitoria, 06 de janeiro de 2024 O ÚLTIMO
(Por que o último, se existe o contínuo da expectativa?)
Os riscos ocupavam todas as paredes do cômodo
Custava revirar os olhos e contá-los
(na verdade era impossível)
Havia espelhos dependurados, nenhum espaço para incluir um sonho e uma possibilidade de saber do infinito
E naquele entorno, que era (parte)eternidade, se despejava o desejo humano
(Um jeito singular de saber criar histórias e de ignorar que do início ao fim existe um beiral de angústias e uma insaciável vontade)
Daí o último como um marco aleatório, uma porta para o vazio, uma borracha a recriar espaço, liberando um sendeiro de luz, uma passagem.
A ESCRITA É UMA LIGA DE SANIDADE
Muitos diriam para não fazer estes malabarismos de palavras sem sentido
Diriam que a seta é a cura para a obtusa tortuosidade do nômade
Mas buscar o visgo na ressurreição diária faz lampejar os olhos
O Eu triturado renasce, não sóbrio, pois a vida não permite
Talvez embriagado por uma certa beleza que consiste na insistência
De perfilar olhares tristes e distribuir sementes.
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JORGE ELIAS NETO é de Vitória, Espírito Santo (1964-), Médico, Poeta, cronista, e ensaísta, ambientalista e pesquisador. É membro da AEL . Publicou Verdes versos (2007), Rascunhos do absurdo (2010), Os ossos da baleia (2013), Glacial (2014), Breve dicionário (poético) do boxe (2015), Glacial (2016), e Breviário dos olhos (2017), Ornitorrinco do pau Oco (2018), Sonetos em Crise (2020), Manual para Estilhaçar Vidraças (2021), A arte do Zero (2022), XXI Sombras (2023) e 60 meninos (2024).










