Poesia & Conto

Poemas inéditos I | Jorge Elias Neto

Foto de Evgeniy Prokofiev na Unsplash
CAÍRAM AS FOLHAS 

 

Caíram as folhas que vi 

nascer quando parti

 

Não fui testemunha das aguadas

nem da prenhez da terra que alimentaram

 

Apenas a meia-volta da memória 

se despede, vez ou outra,

 

E sigo na constância,

e os dias, sim, brotam,

 

Mas sem as folhas

que, dispersas, me calçaram o egoísmo.

  

 

                                 Vitória, 13-01-24

 

 

A LATERALIDADE DO VOO 

 

A desventura ensina o possível do voo,

o caminho pela passagem estreita

onde transborda o vazio.

 

  

DO CASTO RETIRO DE UM POETA 

 

 

                                                                    Aos que enchem de óleo as trincheiras para reacendê-las

 

 

Lembrem-se dos ossos de aluvião,

das marcas d’água da memória;

passos sem rumo de seus ancestrais,

da noite subindo ao céu 

e os tons das cinzas 

tingindo a história 

com o desassossego humano.

 

                                               Vitoria, 06 de janeiro de 2024

O ÚLTIMO 

 

(Por que o último, 

se existe o contínuo da expectativa?)

 

Os riscos ocupavam 

todas as paredes do cômodo 

 

Custava revirar os olhos e contá-los

 

(na verdade era impossível)

 

Havia espelhos dependurados,

nenhum espaço

para incluir um sonho

e uma possibilidade de saber do infinito 

 

E naquele entorno,

que era (parte)eternidade,

se despejava o desejo humano

 

(Um jeito singular de saber criar histórias

e de ignorar que do início ao fim

existe um beiral de angústias

                  e uma insaciável vontade)

 

Daí o último como um marco aleatório,

uma porta para o vazio,

uma borracha a recriar espaço,

liberando um sendeiro de luz,

uma passagem.

 

 

A ESCRITA É UMA LIGA DE SANIDADE 

 

Muitos diriam para não fazer

estes malabarismos de palavras sem sentido

 

Diriam que a seta é a cura

para a obtusa tortuosidade do nômade 

 

Mas buscar o visgo na ressurreição diária 

faz lampejar os olhos

 

O Eu triturado renasce,

não sóbrio, pois a vida não permite

 

Talvez embriagado por uma certa beleza 

que consiste na insistência 

 

De perfilar olhares tristes 

e distribuir sementes.

 

 

Fotografia de Jorge Elias Neto

JORGE ELIAS NETO é de Vitória, Espírito Santo (1964-), Médico, Poeta, cronista, e ensaísta, ambientalista e pesquisador. É membro da AEL . Publicou Verdes versos (2007), Rascunhos do absurdo (2010), Os ossos da baleia (2013), Glacial (2014), Breve dicionário (poético) do boxe (2015), Glacial (2016), e Breviário dos olhos (2017), Ornitorrinco do pau Oco (2018), Sonetos em Crise (2020), Manual para Estilhaçar Vidraças (2021), A arte do Zero (2022), XXI Sombras (2023) e 60 meninos (2024).

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