
O país que emergiu depois das eleições municipais deste ano mostra o enfraquecimento do PT. Nas capitais elegeu apenas o prefeito de Fortaleza, com uma margem apertada de votos. É verdade que a comparação simples com 2020 possa parecer pequeno avanço, mas foi um período de profundo descenso da sua influência, impactado pela “Lava Jato”, além de ser um período governado por Bolsonaro.
No outro extremo se verificou significativo avanço da direita, em especial no Nordeste, que foi decisivo para a eleição de Lula. Também um enxugamento do chamado centro democrático, agora hegemonizado pelo PSD, com 887 prefeituras.
Pode-se discorrer sobre múltiplos fatores, mas é inegável o enfraquecimento de um governo sem qualquer marca de gestão e com tímida recuperação na economia. O resultado é o pior do PT no estado de SP, por exemplo, desde a redemocratização, fato que também se repetiu em outros Estados.
O que chama atenção foi o alto percentual de reeleição nestas eleições municipais: 82%. Até então o recorde tinha sido em 2020, com 64%. Em grande parte deve ser creditada à intrusão do orçamento pelo parlamento federal, as chamadas emendas Pix. Enquanto o PT privilegiou as grandes cidades, o chamado Centrão priorizou as pequenas e médias, onde o impacto desta verba é mais visível.
Trata-se de uma nova realidade: o avanço do parlamento nas chamadas emendas impositivas, o que reduz a influência das políticas governamentais e é moeda de troca com um congresso conservador. Trocou-se o “mensalão” pelas emendas Pix. O resultado foi desastroso, em nome da governabilidade.
Mas há outros fatores. O PT envelheceu e não consegue mais dialogar com os jovens e a classe média dos grandes centros. Em parte é o espelho do lulismo, que transformou Lula na única, exclusiva, referência de liderança eleitoral e política, impedindo qualquer renovação dos seus quadros. Compare-se o exemplo da Frente Ampla, no vizinho Uruguai, donde convivem lideranças até mais carismáticas, como Pepe Mujica, e a constante renovação de seus candidatos.
No Brasil, o PT está preso a Lula, que dá sinais de esgotamento eleitoral, seja pelo (debate) etarismo quanto pela gestão de um governo à beira da falência econômica estrutural. A ampla política de benefícios, que tantas reeleições conferiu a Lula, se encontra em fadiga. Não há recurso disponível, agora ainda mais com o avanço do congresso no orçamento.
E o debate atual, centrado na mudança de eixo do PT para o centro ou à esquerda, esconde as questões de fundo. O bolsonarismo se fortaleceu em todo o país, inclusive com o surgimento de lideranças até mais viáveis, porque amplas, que Bolsonaro, enquanto o PT só tem uma única opção: Lula.
A sociedade ficou mais conservadora e repele a centralidade do identitarismo e outras questões de comportamento, tão decantadas pelo PT nos últimos embates. O enfraquecimento da sociedade civil transformou a religião evangélica na grande canalizadora da insatisfação popular, diante de um modelo ainda excludente e sem qualquer mudança estrutural. O PT paga o preço de ganhar várias eleições sem promover mudanças estruturais. A conta, agora, parece que chegou, e bem alta.
Parece que a sociedade dá sinais de cansaço com a polarização política, enfraquecendo tanto Bolsonaro quanto Lula, porém com este diferencial: só a direita conservadora, e a ultradireita, são capazes de se fortalecer. Este crescimento exponencial e bem distribuído geograficamente deve empurrar o chamado “centrão” e o centro democrático para as pautas da direita, isolando o lulismo, que chega ao seu último embate eleitoral.
Se o PT deve rumar ao centro, deveria surgir uma esquerda mais comprometida com as pautas democráticas e progressistas, de modo que um movimento não deveria excluir o outro. O perigo, bastante evidente, é que o PT nem rume para o centro e tampouco se conecte com a sociedade, mais à esquerda.
Dizer que o lulismo acabou ainda é cedo. Lula sempre se reinventou, mas é evidente que sua influência diminui a cada dia e talvez nem ele perceba, rodeado pelo grupo mais próximo, que lhe deu apoio quando ficou preso em Curitiba, mas que apenas representa o poder da máquina partidária. Será um fim melancólico para Lula.
Flávio Sant’Anna Xavier
Flávio Sant’Anna Xavier é Procurador Federal desde 1997. Autor de obras e artigos jurídicos na área do Direito Agrário e Administrativo. Autor do livro de contos “Guris” (2016).










