Política

Museu de novidades | Nilton Marlúcio de Arruda

Revista Focus Brasil

 

Uma maravilhosa constelação artística diante de expressiva multidão no Rio de Janeiro, entretanto a trilha sonora tem mais motivos para preocupar do que para alegrar toda a gente que deseja o melhor para o Brasil. Lá estavam Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Djavan e tantas outras vozes, num domingo de setembro. As canções, porém, resgatam um passado que parecia – e deveria – estar sepultado. Não era um concerto, mas a tentativa de conserto das arbitrariedades que a extrema-direita insiste em ressuscitar. E nem estavam em cima do palco, mas num palanque dos tempos de exceção. Sinal, então, de que a democracia nunca pode dormir tranquila no Brasil, onde há sempre golpistas de plantão.

 

É muito emocionante, como sempre, assistir a Chico e os seus companheiros a cantarem “Cálice”. Porém, “essa palavra presa na garganta” já implora por liberdade faz tempo. Voltar, assim, aos anos 60 é como destruir a ideia – e a promessa de Belchior – de que “o novo sempre vem”. Quem insiste em voltar são eles: os velhos golpistas com as suas fardas sujas de sangue. Vergonhosamente, abençoados e patrocinados por lobos travestidos de pastores. Com eles, até as bíblias pregam o caos, recheadas de exploração dos miseráveis. São os reacionários devidamente armados de maldade pelas milícias com as suas bancadas parlamentares.

 

É mesmo para se lamentar! Menos mal que ainda – como sempre – podemos contar com Chico, Caetano, Gil, Paulinho, Djavan. E, se a pauta golpista não sai das mesas reacionárias, a trilha sonora brasileira não perde o verbo nem as melodias. Se, numa espécie de “museu de grandes novidades”, o bom Cazuza reclama que “o tempo não para” e que parece, por vezes, andar para trás; o canto contra o retrocesso ecoou mais alto. Mais uma vez! Então, há que se esperançar de novo.

 

Sigamos, portanto, ciganos da militância que somos. E seremos sempre: pelo “não rotundo!” que Brizola traz no peito, pela “pedagogia do oprimido” que Paulo Freire nos ensina, pela humildade da terra que Pedro Casaldáliga nos cultiva e por todos que foram de “aço nos anos de chumbo”. Brasil, chegou a vez – mais uma vez – de ouvir toda a gente sofrida que não cabe no oportunismo de um projeto fascista. Quando a Mangueira, campeã do carnaval de 2019, implora pelo “País que não está no retrato”, as imagens das ruas em todas as capitais, num dia de setembro, revelam que a luta acaba nunca. Assim como a disposição para a resistência do verdadeiro povo brasileiro.

 

Um dia, “amanhã será outro dia”. E para sempre!

 

Nilton Marlúcio de Arruda

Jornalista

foto: Nilton Marlúcio

 

 Nilton Marlúcio de Arruda é jornalista, professor, poeta e escritor. Autor das obras de ficção Memórias Pós Cera de Abílio Abelha e Ao Norte, todos os Gajos são Parvos! Atualmente, apresenta o podcast ConVERSAR é Preciso!, no Canal Transforma (Portugal) e na TV RC – Resistência Contemporânea (Brasil). Ministra cursos e oficinas de Escrita Criativa. Em 2025, por ocasião do bicentenário de Camilo Castelo Branco, organizou a coletânea Olhares Camilianos, cujos textos foram produzidos durante o curso em homenagem ao escritor português.

Qual é a sua reação?

Gostei
0
Adorei
1
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Política