
ENTRE CASACOS DE INVERNO
Escrevi este poema para ti, meu amor.
Perguntei-te por que as pessoas
gritam umas com as outras,
quando há portas,
quando há sinos,
quando há cafés com bolos.
Tu estavas a olhar para a parede,
como quem olha para o futuro sem óculos,
e disseste:
— Às vezes é só porque está tudo cheio cá dentro.
Fiz chá, claro,
como se isso resolvesse alguma coisa.
Mas tu bebeste-o
com aquela gratidão quieta
dos gatos que têm uma almofada.
E pensei: isto deve ser amor.
Ou talvez apenas
uma espécie de aluguer emocional
com rendas atrasadas.
Há coisas que me ultrapassam,
como matemática financeira
e o teu silêncio.
Mas tu deixas-me entrar nele,
como quem abre a porta do armário e diz:
— Sim, podes ficar aí entre os casacos de inverno.
E eu fico.
Sem saber se sou uma overthinker,
se estou a pensar demais,
ou se isto é simplesmente
o que acontece
quando duas pessoas
não fogem logo.
*
ANJOS SEM ROTINA
Os anjos não têm escova de dentes,
não usam sapatos,
detestam micro-ondas
e não sabem o que fazer com um saco do Continente.
Não têm paciência para línguas,
engasgam-se em palavras translúcidas,
vivem por cima das nuvens.
Houve um tempo em que quis ser como eles,
fazer parte da mobília celestial
— pensava que as auréolas davam jeito para pendurar casacos.
Mas depois vi
as figuras de Bruegel caírem de um saco de terra
e o anjo da morte
puxar um carrinho de cadáveres.
*
O ANJO DE PORTUGAL ESTÁ OFFLINE
Recebi uma notificação:
“o anjo de Portugal está offline.”
Fui ver:
Ele tropeçava em hashtags mortas,
a espada era uma folha de Excel
cheia de macros quebradas.
Os jardins tinham desaparecido
entre duas guerras
e três podcasts esquecidos.
A Europa
tirava selfies com filtros fascistas
num jogo da Apple Store,
enquanto os elevadores
rastejavam de joelhos
e as catedrais giravam no TikTok
ao som de flautas desafinadas
e emojis de vela.
Tentei chorar Portugal,
mas Portugal não respondia —
estava em modo avião
ou talvez numa reunião de condomínio,
a decidir o destino dos ladrilhos.
Uma mulher ardia numa revista antiga
e dizia:
“isto não é metáfora.
isto é combustão.”
Corri,
corri como quem desinstala o mundo,
até chegar ao sítio onde se chora.
Mas o sítio onde se chora
era uma arrecadação,
cheia de frascos com etiquetas:
poema começado e abandonado,
cheiro a escola primária.
Lá dentro
faltava uma lágrima —
a mais importante.
Entendi então:
Portugal era essa lágrima,
perdida entre memes
e uma missa sem anjos.
Maria Azenha (Coimbra, Dezembro de 1945), é uma poeta portuguesa.
Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra. Exerceu funções docentes nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Desempenhou actividade docente no Quadro de Nomeação Definitiva na Escola de Ensino Artístico António Arroio. Membro da Associação Portuguesa de Escritores e membro de honra do Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa.
Tem vários livros publicados.










