Poesia & Conto

Lágrimas em modo avião | Maria Azenha

Foto de Tarang Dave na Unsplash

ENTRE CASACOS DE INVERNO

 

Escrevi este poema para ti, meu amor.
Perguntei-te por que as pessoas
gritam umas com as outras,
quando há portas,
quando há sinos,
quando há cafés com bolos.

Tu estavas a olhar para a parede,
como quem olha para o futuro sem óculos,
e disseste:
— Às vezes é só porque está tudo cheio cá dentro.

Fiz chá, claro,
como se isso resolvesse alguma coisa.
Mas tu bebeste-o
com aquela gratidão quieta
dos gatos que têm uma almofada.
E pensei: isto deve ser amor.
Ou talvez apenas
uma espécie de aluguer emocional
com rendas atrasadas.

Há coisas que me ultrapassam,
como matemática financeira
e o teu silêncio.
Mas tu deixas-me entrar nele,
como quem abre a porta do armário e diz:
— Sim, podes ficar aí entre os casacos de inverno.

E eu fico.
Sem saber se sou uma overthinker,
se estou a pensar demais,
ou se isto é simplesmente
o que acontece
quando duas pessoas
não fogem logo.

*

ANJOS SEM ROTINA

 

Os anjos não têm escova de dentes,

não usam sapatos,

detestam micro-ondas

e não sabem o que fazer com um saco do Continente.

 

Não têm paciência para línguas,

engasgam-se em palavras translúcidas,

vivem por cima das nuvens.

 

Houve um tempo em que quis ser como eles,

fazer parte da mobília celestial

— pensava que as auréolas davam jeito para pendurar casacos.

 

Mas depois vi

as figuras de Bruegel caírem de um saco de terra

e o anjo da morte

puxar um carrinho de cadáveres.

*

O ANJO DE PORTUGAL ESTÁ OFFLINE

 

Recebi uma notificação:

“o anjo de Portugal está offline.”

Fui ver:

 

Ele tropeçava em hashtags mortas,

a espada era uma folha de Excel

cheia de macros quebradas.

 

Os jardins tinham desaparecido

entre duas guerras

e três podcasts esquecidos.

 

A Europa

tirava selfies com filtros fascistas

num jogo da Apple Store,

enquanto os elevadores

rastejavam de joelhos

e as catedrais giravam no TikTok

ao som de flautas desafinadas

e emojis de vela.

 

Tentei chorar Portugal,

mas Portugal não respondia —

estava em modo avião

ou talvez numa reunião de condomínio,

a decidir o destino dos ladrilhos.

 

Uma mulher ardia numa revista antiga

e dizia:

“isto não é metáfora.

isto é combustão.”

 

Corri,

corri como quem desinstala o mundo,

até chegar ao sítio onde se chora.

 

Mas o sítio onde se chora

era uma arrecadação,

cheia de frascos com etiquetas:

poema começado e abandonado,

cheiro a escola primária.

 

Lá dentro

faltava uma lágrima —

a mais importante.

 

Entendi então:

Portugal era essa lágrima,

perdida entre memes

e uma missa sem anjos.

 

Fotografia de Maria Azenha

Maria Azenha (Coimbra, Dezembro de 1945), é uma poeta portuguesa.

Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra. Exerceu funções docentes nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Desempenhou actividade docente no Quadro de Nomeação Definitiva na Escola de Ensino Artístico António Arroio. Membro da Associação Portuguesa de Escritores e membro de honra do Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa.

Tem vários livros publicados.

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