
NA PELE DAS PALAVRAS
Escrevo
poesia
motivado pelos
sonhos de todas as crianças
da minha terra.
Sempre
choro
com a África
nos seus dias mais escuros.
Sempre
justifico a força que absorvo
das gentes da minha terra.
Há
pássaros
voando no quintal
do meu ser.
A CASA DA INFÂNCIA
Há
memórias
da minha infância
nas artérias e na pele da minha casa.
Dentro
da minha casa
a lua repousa no idioma dos jacintos
dos girassóis e das papoilas.
Já
na infância
tinha nas mãos as cores das águas do mundo
e as cores de todas flores do mundo.
Uma
vez minha mãe
me disse que eu não saberia viver sem a poesia.
Meu
silêncio senta-se
nos seios da terra.
Há
um arco-íris de mil cores
enchendo todos os compartimentos
da minha casa da infância.
CORES DA IMAGINAÇÃO
Sigo
amando
o meu sonho da infância
e os primeiros raios do sol poente.
Aguardo
a ordem
de um mundo novo
para mim e todas as coisas.
Na luz
sagrada do olhar
da minha mãe
vejo
um anjo e
o novo nascimento do mundo.
Tudo
na minha escrita
é uma prece de gratidão pelo amor da minha mãe.
GEOGRAFIA DOS MEUS PASSOS
Quando
eu era pequeno
tinha uma casinha
pintada de flores e pássaros.
Dentro
dessa casinha
tinha um mundo grávido de amor
e eu habitava uma pátria universal.
Quando
eu era pequeno
tinha a missão
de proteger a alma do mundo.
Uma vez
minha mãe
me disse que sonhar significa
estar sentado no chão de um arco-íris
levando o crepúsculo no colo.
Sempre que sonho
acendo a lua
nos olhos da noite
do mundo.
RITUAL DE AMOR
Há no meu olhar
um rio cheio
de madrugada.
Deslizo
sobre
o azul infinito do céu.
Sento-me
por cima dos montes
para ver a beleza
da pele da minha cidade
e para conversar
com todos os rios de Maputo.
Minha mãe
me ofereceu
o rosto azul do céu da minha cidade.
Para mim
a poesia foi sempre fruto
das odisseias da alma.
TROPICAL
Encontrei
a luz da poesia
antes de conhecer
as trevas do mundo.
Minha alma
dança com a lua
que me
acompanha na estrada.
Meu caminho
é feito de luz
marcho de mãos dadas
com todos os astros.
Salpicam
cores do aroma
da primavera em mim.
Trago da infância
a mania de colecionar
conchas do mar.
O DADOR DE ESPERANÇA
Era
uma manhã
de passarinhos
quando me levantei da cama.
A armadura
da esperança amanheceu
ao meu lado.
Pingou em mim
uma gota
do azul do céu.
O meu desejo
de curar a humanidade
se renova quando olho
para os olhos de Laura cheios de poesia.
Hoje
os meus versos
beijam a cor do mar.
Ponho-me
a olhar as pegadas da esperança
na longitude do mar.
ÁFRICA MINHA, ÁFRICA NOSSA
Nasci
na terra dos rios
das águas límpidas e serenas.
Alimento-me
dos sonhos
carregados de ondas
do mar
dos pescadores da minha terra.
Das verdades
do meu povo
nascem os mais belos
cânticos das aves
da minha terra.
As saudades que tenho dos heróis
da minha terra
fazem brilhar a aurora.
É dos meus sonhos
que se renovam
os rios da África.
Sou a força
da minha terra, da minha gente.
PASSEIO COM MANOEL DE BARROS
Minha alma
resgata os meus sonhos
de menino.
Amor
é quando um passarinho
e uma passarinha
fazem amor
no bolso do vento
de madrugada
e a passarinha
geme do lado
de dentro do coração.
Minha solidão
acende a lua
e todos os astros da noite.
Manoel de Barros
reina
no pantanal dos céus.
O HOMEM DAS LETRAS
Muitos olhares
de gaivotas.
Poucas
palavras de andorinhas.
Escrevo
acreditando que
Deus é comigo
e que a minha poesia
vai curar as doenças da alma
dos seres humanos
e do mundo.
Palavras
de amor e esperança
envolvem as paredes
da minha casa.
Procuro no silêncio
a aurora da vida
dentro da vegetação das palavras.
VENTRE POÉTICO
Vivo nas gavetas
do tempo.
Tenho uma ligação
umbilical
com a sabedoria do mundo.
Venho de um ventre
poético
que não dá lugar
às vaidades do mundo.
O meu nome
é cantado pelas vozes de toda África.
Meu olhar
sobre o mundo
é sempre inaugural.
Minha vida
tem o brilho
de uma estrela pendurada no céu.
NASCENTE DOS MEUS POEMAS
Teus olhos
são pérolas enfeitadas
com a luz da aurora e as cores da primavera.
Teu olhar
é uma joia da África
a coisa mais rara do mundo
e é a nascente de todos os meus poemas.
Tua voz
é um rio da aurora
semelhante à melodia
da mais bela canção de amor.
Teus seios
são poemas de amor
vestidos das águas calmas de um lago azul.
Tua pele
cheira ao perfume do sol da África
que espalhas pelo mundo.
Deus escreveu
o sol da tarde para iluminar o nosso amor e os nossos sonhos.
A ESCRITA DO TEMPO
A imaginação é
o olho da poesia.
Toda a poesia
do mundo me visita.
No meu sangue
correm as cores da imaginação
e as cores da poesia.
A poesia me concede
o poder de recriar o mundo.
Eu sou um verso de luz
recriando o mundo.
De súbito
o calor do sagrado
e do amor me afagam.
A escrita é sagrada
e precisa de tempo.
A escrita sagrada
é o tempo.
PAISAGENS DA ALMA
Há um beija-flor
tomando banho de rio
dentro da minha escrita.
Meu livro
é uma cidade
reunindo todas as paisagens do mundo.
Viajo sempre de poesia
e nunca de prosa.
Não escrevo
a febre do vento.
Escrevo
pétalas de água.
Minha alma
fita o céu
no abismo da noite.
Minha alma sabe
que a lua
é o crepúsculo das estrelas.
Sem a luz da poesia
não há luz na minha vida.
DIA
Hoje
passei a tarde toda conversando com as
árvores
passando a mão na pele das
formigas
e vendo passarinhos tomando
banho de areia no quintal da casa.
Se me perguntasses como foi meu
dia,
te responderia que hoje ele estava
grávido de passarinhos.
Morgado Henrique Mbalate, mais conhecido por Morgado Mbalate e O Anjo das Palavras, nasceu em Maputo, no dia 6 de Setembro de 1993. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO); Licenciado em Filosofia pela Universidade São Tomás de Moçambique (USTM). É autor do livro Odisseia da Alma (Editora Edições Esgotadas, 2016); A Arte Suave da Palavra (Chiado Books, 2020); Co-autor do CD de Literatura Negra ‘O que nos a Bala‘ (Comunidade do Tambor, 2018). De entre Prémios e Distinções: destaque para o Prémio Bicentenário de Dostoiévski (2021), menção honrosa no Premio Mondiale di Poesia Nosside (2014), menção honrosa no Prémio Fernanda de Castro do IV Concurso Internacional de Poesia e Prosa (2017). Participou no Festival Internacional Earthquake Terremoto 5ª edição 2021. Participa em várias Antologias, e colabora em diversas revistas internacionais. Seu poema “Africanizando” foi contemplado no ensino fundamental e médio brasileiro. Seus textos foram traduzidos para francês, inglês, espanhol, italiano, e são estudados em escolas e Universidades em Moçambique e no Brasil.










