
Um clandestino placar marcou presença e, praticamente, fixou residência em plena Feira do Livro do Porto. Estendido sobre a relva dos jardins do Palácio de Cristal, o cartaz – nem tão grande, mas nada discreto que impedisse de ser percebido – chamou a atenção de toda a gente que buscava, a princípio, os livros autorizados à exposição. “Adote um escritor abandonado”, diziam as letras coloridas e recortadas de velhas revistas semanais.
A peça, que era um misto de publicidade e de mendigagem, fazia um apelo e uma denúncia, ao mesmo tempo. De certeza, é representativa de autores cujas obras sobrevivem – ou morrem aos poucos de esquecimento – nos escombros aonde vão, raramente, os leitores. Querem ser lidos: eis o simples pedido exposto na cartolina. Foram abortados no seu sonho literário, era a denúncia. E a justificação, implicitamente, acaba exposta naquelas letras recicladas: não encontram apoio entre os editores e, muito menos, entram nos holofotes da imprensa literária.
Num anonimato, que pode ser facilmente identificado, listam naquele cartaz centenas de trabalhadores das letras, operários da palavra. Todos ávidos por preencherem espaços literários no mundo da ficção, principalmente. A falta de talento seria uma boa explicação para o ostracismo ali evidente? Não necessariamente. Criatividade nos títulos, surrealismo nos argumentos e poções imaginativas do realismo fantástico aparecem em muitas das obras de ficção que estão representadas por aquele silencioso protesto.
De resto, os reclamantes amordaçados trazem, nas capas das suas obras, os logótipos de editoras comerciais, das mais pequenas às de médio porte. Muitas estórias prefaciadas por profissionais de renome, inclusive. Ou seja, não são exclusivamente os autores independentes que estão ali na relva a queixarem-se do abandono. Escritores com nome, apelido e capa aclamativa que, apesar de tamanha produção, não conseguem ocupar as estantes distantes do leitor.
O que lhes falta, então? Divulgação, promoção, incentivo, orientação, acompanhamento, planeamento, prestação de contas, feedback, etc. “Respeito!”, diziam as letras pequenas ao pé do tal placar. Mesmo isso, aqueles clandestinos autores protestantes reclamam um certo desrespeito com os seus trabalhos. E pior: garantem que existe uma espécie de negligência em relação aos seus projetos de escrita profissional.
A quem se destina, entretanto, aquela mensagem cifrada? Decifrar os meandros mercadológicos da indústria literária é preciso. Principalmente, sobre aquelas editoras que se apresentam como direcionada a novos e desconhecidos autores. Uma oportuna jornada, aliás, para quem gosta dos labirintos das estórias que se movem entre a criação de expectativa e a manutenção dos mistérios. Estaria a literatura experimental tratada meramente como uma mercadoria?
E o enredo se repete com muito mais frequência do que se possa imaginar. Ou seja, várias tramas e reviravoltas são comuns a centenas – quiçá milhares – de pessoas que sonham trilhar os seus caminhos pela literatura afora. Personagens que se repetem e um final muito mais frustrante do que feliz marcam as linhas de muitas estórias que ficam pelo caminho. Motivos? Os já listados no cartaz, com destaque para dois: desrespeito e negligência dos editores comerciais.
Vamos à mais evidente similaridade entre personagens, enredos e reviravoltas. Em larga maioria, os autores de primeira viagem literária, em escala comercial, pagam do próprio bolso a produção da sua obra. A premissa surge nos contratos com a obrigação de aquisição de uma leva de exemplares. Comprar o próprio livro? Mesmo isso. Preço estipulado pela editora, exigência de pagamento total – embora, facilitado em parcelas – antes do início dos trabalhos editoriais. Disso, nenhum autor escapa. E cheios de valores literários e esperança, eles acabam por cair num conto da magia que jamais – ou raramente – se realiza.
Livros debaixo do braço e um sorriso largo no rosto, tudo dali para frente é só uma questão de vender os exemplares. Para quem? O leitor, verdadeiramente aquele sujeito de desejo de quem se lança no universo dos livros, não conhece o trabalho do autor cheio de sonhos. Restam, assim, os familiares e os amigos. Compra por impulso? Nem por isso. Solidariedade ou ação motivada de forma compulsória pela proximidade com o pobre do autor abandonado.
Neste primeiro contacto com a realidade editorial, muitos dos estreantes dão aquela vista d’olhos no que dizem os agentes literários. Investir na visibilidade, expor nas redes digitais, fomentar oportunidades para ser visto. Como? Sozinho! Neste capítulo, as editoras – que já receberam antecipadamente os seus investimentos – lavam as mãos. Ou, viram a página em direção a um novo autor novo, que atraído pela ilusão do sucesso literário, não percebe as armadilhas do mercado dos livros e autores desconhecidos. Mas, os marqueteiros das letras – miúdas, preferencialmente – são insistentes e acabam por levar os autores sem fama à solidão das sessões de autógrafos em que – praticamente – nenhum leitor comparece.
Ostracismo nos eventos mais amplos, a solução podem ser as cerimónias particulares. Amigos e familiares – de novo, os mais próximos – são convocados aos encontros para apresentação ou lançamento do livro do autor desconhecido. Nestes casos, não há abandono. Porém, do sucesso doméstico para o universo literário faltam alguns longos capítulos.
Quem escreve, entretanto, alimenta-se de sonhos. E as pretensões literárias são resistentes, ou seja, não desistem tão facilmente, já nos primeiros capítulos. Um exemplar vendido aqui, outro lá no semestre seguinte e ele segue acreditando no milagre da multiplicação das capas nas montras desconhecidas. “Para obter êxito nas vendas, o autor precisa de tempo”, dirão os agentes e editores. Anestesia ou mais uma promessa vazia?
Ora bem, a esperança escasseia, mas não acaba de repente. E, assim, o autor enche o peito de ar e alegria quando vê a sua obra nas montras digitais de grandes livrarias. Com oferta de descontos e tudo! O nada, porém, logo entra em cena: não há um exemplar sequer nas prateleiras, estoque nem pensar, compra nas lojas não é possível, produto nas mãos do leitor somente alguns dias após efetuar o pagamento pela internet. Quem disse que as trilhas entre o herói e o final feliz é fácil de se destravar. A vida imita a própria ficção.
Ainda assim, alguns exemplares são comprados. Mas, os royalties demoram a chegar ao bolso de quem investiu recursos para publicar o próprio livro. Alguns contratos, inclusive, escondem em letras miúdas uma cruel exigência: repasse dos direitos autorais somente após atingir a meta de determinados valores. Algo que exige vendas acima das centenas de exemplares. Editoras que parecerem desconhecer até mesmo o significado do termo direito.
E as perguntas logo ocorrem e recorrem à mente do escritor abandonado: como vender tantos livros se não é conhecido do público? E se não há nenhum apoio promocional por parte das editoras comerciais, como ficar famoso no mundo editorial? E se jamais receberá os seus parcos direitos, para quem ficarão aqueles míseros euros? Tantas perguntas que nem sequer cabem num clandestino placar com letras recortadas.
Sem respostas ou explicações, os editores avançam na capacidade de prometer mais do que pretendem entregar. O autor, já em estado de desânimo, visita às páginas virtuais da sua editora e depara-se com novos chamados aos novos escritores. E ele, que até figura entre os autores daquele logótipo, já se sente em segundo plano. Não é mais um novato para a sua editora e nada recebe de incentivo para dar sequência à carreira que mal arrancou. E, como inspiração, surge a ideia de uma nova ficção onde os espertos exploram a boa-fé dos sonhadores. Uma estória mais do que realista, cuja capa merece um cartaz em plena feira de livros da segunda praça mais importante de um país que se orgulha das letras, dos escritores e dos leitores.
“Adote um escritor abandonado”, fica o apelo!
Nilton Marlúcio de Arruda é jornalista, professor, poeta e escritor. Autor das obras de ficção Memórias Pós Cera de Abílio Abelha e Ao Norte, todos os Gajos são Parvos! Atualmente, apresenta o podcast ConVERSAR é Preciso!, no Canal Transforma (Portugal) e na TV RC – Resistência Contemporânea (Brasil). Ministra cursos e oficinas de Escrita Criativa. Em 2025, por ocasião do bicentenário de Camilo Castelo Branco, organizou a coletânea Olhares Camilianos, cujos textos foram produzidos durante o curso em homenagem ao escritor português.










