Política

EDITORIAL: Acédia de Verão | Alfredo Soares-Ferreira

Imagem: psicologo.com.br

Anda no ar um torpor espiritual, uma apatia que leva ao vazio existencial e à negligência do que importa. Não importa o quê, no verão mediático o pensamento crítico é substituído por notícias vazias, polémicas fabricadas e “especialistas” de conveniência. É uma acédia, que ultrapassa a preguiça, quase sempre pela direita, fechando as convenientes portas do conhecimento a abrindo as janelas da mais panfletária mediocridade. O aparente estado inerte sem dor, assim designado na Grécia antiga, foi utilizado pelos primeiros monges cristãos para definir um estado espiritual de apatia e, nos tempos actuais, surge muito ligado à depressão. Poesia à parte, a silly season que se avizinha é a espampanante abundância da incompetência, tão ao sabor da rafeira qualidade dos burocratas, eleitos ou não, e da grande maioria dos comentadeiros de turno. É o triunfo do irrelevante, o elogio da desatenção pública, enfim a apatia espiritual que nos torna indiferentes à qualidade, entregues à letargia do consumo passivo, sintoma letal mas nunca enjeitado. Parece ainda existir uma declarada competição pela incompetência, um paradoxo neoliberal: todos correm para ser os primeiros a dizer o disparate mais “elaborado”.

 

O que conta, então? A corrida ao armamento, ou a busca por uma paz, nem que seja virtual? A luta por direitos e um salário digno, ou o falecido “pacote” e suas ramificações “ramalhistas”? A continuidade de um primeiro em trabalho parcial, ou um spinunviva em pleno funcionamento? A construção de casas para viver, ou a escassez que apenas beneficia a especulação? A perseguição a estrangeiros, os culpados evidentes da degradação da “economia nacional”, ou a miscigenação natural das sociedades modernas? A continuação da paródia europeia e norte-americana na guerra por procuração na Ucrânia, ou o acordar definitivo para a realidade de um estado falido e corrupto? O que mais será necessário para erradicar o ogre que mora na casa que é branca por fora e negra (no mau sentido) por dentro?

 

Será que alguma das interrogações é do seu agrado, ou quer que lhe desenhem uns rabiscos para melhor entendimento?

 

O filósofo e matemático francês do século XVII Blaise Pascal, disse um dia que a desgraça dos homens provém de uma coisa tão simples como não saberem ficar em repouso num quarto. Com esta sentença singular, Pascal estaria eventualmente a apelar ao desgraçado que não sabe largar o telemóvel, mesmo que a invenção de tal dispositivo estivesse ainda longe de acontecer? Pelo que se sabe, o homem da ciência exacta, teria sido aconselhado a “moderar” as suas investigações devido a excesso de trabalho, circunstância que nada abonava a teoria das probabilidades que andava a congeminar.

 

Uma vez que a temporada parva se aproxima, façamos então a elegia dos tais “nómadas digitais”, a parvoíce encaixa bem nesta época. Na idade média, chamavam-lhes “gyrovagues”  e foram abjurados por São Bento que não gostava da sua pretensa liberdade circulatória, não lhes dando “porta aberta”, nem facilidade de navegação. Se a questão aqui se coloca é basicamente para saber se enquadra bem na inquietação errante de certas figuras, monásticas ou nem por isso. Serão errantes as nossas mentes na altura em que se decreta a estação mais parva do ano? A santidade evocada transporta-nos (virtualmente, claro) ao italiano S. Tomás de Aquino, o frade dominicano, filósofo e teólogo, que viveu em pleno século XIII e que escreveu uma interessante “Summa Theologiae” (“Suma Teológica”) e que clarifica a acédia como a “tristeza sobre o bem espiritual“, crucial para distinguir a apatia espiritual da simples preguiça. Já a escritora norte-americana Kathleen Norris é bem mais assertiva quando diz que da acédia nascem a preguiça, a sonolência, a grosseria, a inquietação. Para baralhar ainda mais a questão de saber o que fazer com uma aparente dicotomia entre acédia e ócio, o sociólogo italiano Domenico De Masi, escreveu, em 1995, uma obra curiosa a que chamou “Ócio Criativo“, dizendo que afinal o dito “ócio” não é negativo e até pode ser generoso para estimular a criatividade pessoal.

 

A chamada silly season não é um acidente climatérico, é “apenas” um sintoma. O filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han ensina-nos que a sociedade do desempenho transforma o “devo” num “posso” que nos auto-explora até ao esgotamento. A acédia de Verão é esse cansaço que já nem sabe o que procura, a competição pela incompetência, uma estação transformada num ringue de estupidez performativa. Em termos de economia (sim, estúpido) o que acontece é que o neoliberalismo é sobretudo uma racionalidade que transforma a própria ignorância num activo competitivo. Se tudo é mercado, a verdade desvaloriza-se e a incompetência ruidosa torna-se mais rentável do que o pensamento avisado. É a competitividade sem critério de competência, o que se disputa é atenção, ruído, velocidade, indignação performativa: quanto mais vazio, mais viral.

 

Na silly season, ser incompetente não é falhar, é vencer. E nós, entorpecidos pela acédia estival, aplaudimos de cadeira de praia o espectáculo da nossa própria idiotização. Não é forçoso que o sujeito silly season seja um preguiçoso tradicional, mas possivelmente alguém hiperactivo e apático ao mesmo tempo, corre, mas não avança.

 

É a acédia moderna: o cansaço de quem nunca para, mas também nunca escolhe o que realmente importa.

 

22 Junho 2026

                                                                       Alfredo Soares-Ferreira

Fotografia de Alfredo Soares-Ferreira

Alfredo Soares-Ferreira é Autor de várias intervenções, comunicações e publicações sobre Cooperação e Educação para o Desenvolvimento, Cidadania e Geopolítica, em Portugal, Angola, Cabo-Verde, Espanha, Guiné-Bissau, Itália, Moçambique e Timor-Leste. É membro dos Colectivos “Porto Com Norte, Fórum de Cidadania”, “Fórum Manifesto”, “Liberdade e Pensamento Crítico” e “Tanto Mar”. É Redactor do Jornal on-line Diário 560. É co-Autor de “Portugal, Revolução, Unidade Socialista” (1977), “Bracarenses na Crise Académica de 1969” (2019) e “Paranhos em Poesia, Antologia Poética” (2021). É Autor de “Reflexos do Rio Torto” (2014), “Rio Torto- A Nascente” (2021), “Rio Torto- A Margem Esquerda” (2023) e “Escrita da Leitura” (2024). É Engenheiro de Telecomunicações, pós-graduado em Gestão e Estratégia Empresarial e em Administração Educacional. Actualmente aposentado de funções públicas, foi Consultor e Avaliador de Projectos Internacionais e Professor em diversos graus de ensino, secundário, profissional e superior.

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