
No seu estudo intitulado “A influência persa/aquemênida na religião judaica”, José Ademar Kaefer nos descobre a seguinte realidade: “…a religião/ideologia/política persa influenciou a formação do imaginário religioso judaíta, que resultou no judaísmo, o qual se consolidou no período helenista. Procuramos apontar alguns aspectos, que nos parecem, sobressaem desta influência. O primeiro aspecto é a mudança do conceito de Deus do pré-exílio para o pós-exílio babilónico. De um Deus próximo, que caminha com o seu povo, para um “Deus do céu”, distante e inacessível. Este Deus precisara agora de uma intermediação. que será o papel dos anjos, que ganhara a grande relevância na teologia do pós-exílio. Assim como o rei persa, Javé terá agora um conselho de sete anjos, que estará sempre diante de dele e a seu serviço imediato. Ou seja, a corte celestial será inspirada na corte persa. Outro aspecto da influência persa é a mudança da função da Tora. Antes do exílio, a Tora era basicamente um conjunto de instruções utilizadas pelos pais para educar os filhos e pelos sacerdotes para orientar o povo. Agora a Tora se tornara também um código de leis, utilizado para julgar e punir, assim como a lei persa. Outro aspecto da influência persa será a importância do fogo como manifestação de Deus. Sabe-se da importância do fogo sagrado na religião persa, que parece só se oficializou como fogo permanente no templo com o regime aquemenida. É plausível que esta prática tenha influenciado a teologia judaíta na conceção da manifestação de Javé e, por extensão influenciado também o cristianismo. Outro possível elemento de influência persa se encontra na importancia de Ciro, o Grande, para o conceito de Messias, tanto no mundo judaico, quanto no cristao. Ou seja, uma relação de proximidade e até de identificação entre Ciro, Davi e Jesus. Por fim, apontamos a similaridade entre a missão do sacerdote egípcio Udjahorresnet, a serviço dos reis persas, e a missão do sacerdote e escriba Esdras. Esta similaridade de ambas as missões é um elemento que corrobora fortemente como comprovação histórica da prática persa de auxiliar a organização da religião local dos reinos sob seu domínio em função da manutenção da ordem e da paz”
REFERENTE HISTÓRICO
Existe hoje um debate na comunidade académica, e são já alguns os estudiosos que falam abertamente que a maior parte do texto bíblico foi escrito no período pós-exílio, o que acrescentaria uma maior solidez à tese da influência persa sobre a Tora judaica.
Segundo o Doutor Osvaldo Luiz Ribeiro, a introdução no Zoroastrismo persa duma dualidade em luta (Deus bom – benevolente e deus malvado – perverso), que vai influenciar posteriormente o ideal escatológico cristão e judaico, pode ter surgido duma má interpretação do ideário taoísta da “dualidade necessária” do “ying-yang”, que teria chegado à Pérsia através da rota da seda.
Enquanto no taoísmo a necessária confluência dos contrários gera o equilíbrio da harmonia (não podendo existir uma dissolução duma das polaridades, o que se significaria a dissolução da matéria) no Zoroastrismo, a luta dos mesmos não poderá ser terminada até que um (o Deus da Luz e do Bem) possa vencer o outro (o deus das trevas e da maldade).
Segundo o professor Ribeiro, seriam os “fariseus”, que eram conhecidos como os judeus persas, os que teriam introduzido o conceito da dualidade, acrescentando ao Deus único judaico uma contraparte sombra autodestrutiva infernal, a qual seria derrotada com a chegada do Messias.
O livro de Daniel que, para a maior parte dos académicos (menos influenciados pela perspectiva religiosa), teria sido escrito durante o período helenístico entre o 167 e 164 a.C (devido aos detalhes precisos dos eventos históricos ocorridos durante o reinado de Antíoco IV Epífanes) descreve uma cronologia espiritual, que marca o trunfo final do Reino de Deus e a chegada da Grande Tribulação e Ressurreição. Este livro ainda é interpretando, nos dias de hoje, como guia para os confrontos geopolíticos que na atualidade trazem muito preocupação ao mundo.
Para alguns historiadores, o “Livro de Daniel” foi escrito em apoio à rebelião dos macabeus contra a helenização dos Ptolomeus… Os autores cristãos mais religiosos ainda dão validade à data de escritura do livro (por volta do 530 a.C, período do cativeiro babilónico) tendo como autor o próprio profeta Daniel.
Passando a ser uma referência importante junto a Ezequiel 38-39 e Apocalipse 20, nas suas menções sobre a batalha entre Goge e Magoge, sendo que, em Ezequiel, a intervenção de Deus, em favor de Israel, derrota o exército invasor permitindo o trunfo do povo eleito. Enquanto isso, em Apocalipse, as forças de Satanás destroem o “Reino de Cristo” e, de novo, a intervenção de Deus colocará outra vez o Bem por cima da maldade no mundo.
No Alcorão aparecem referências à mencionada batalha, na Sura Al-Kahf, 18:83-98. Com o que vemos como a influência escatológica, nascida talvez do ideal dualista persa, está presente nas três religiões abraâmicas.
No “Asclepius”, temos a “profecia de Ísis”, atribuída a Hermes Trismegisto (provavelmente escrito nos inícios da era cristã). Este texto nos fala do abandono dos Deuses Egípcios, domínio estrangeiro, rios de sangue assolando o país e fim dum ciclo glorioso. De novo, estamos falando das quedas civilizacionais e das mudanças de eixos e centros geográficos materiais e espirituais.
Entre o imaginário coletivo ocidental também temos o Ragnarok , a proposta de “fim dos tempos” da mitologia nórdica, mas que, como uma leitura mais detida desse fim do cosmos e sua renovação parece anunciar ou prenunciar o fim de um ciclo evolutivo, que poderia bem encaixar com a mitologia indiana e seus ciclos ou Yugas.
Na tradição indiana, que, junto à tradição suméria, também influenciou os caminhos da Ásia Central e Ocidental, assim como da Europa, através da Gréciam no sagrado “Bhagavad Gita” (parte do épico Mahabharata), nos encontramos com a luta entre a luz e as sombras, em tempos de declínio do bem e ascensão do mal.
Tempo que poderíamos situar nas fases mais entrópicas de declínio civilizacional, com forte queda da ética: trunfo da perversão e do caminho da perdição, e a necessidade de erguer um novo centro civilizatório para manter viva a chama da evolução humana.
Acontece aqui a luta entre o setor que caiu na sombra atrativa dos apegos materiais (desligado do transcendente espiritual) e pelo tanto destrutor da harmonia social, contra o setor que permanece fiel à ética, preservador da ordem e da lei (que, por necessidade de sobrevivência, se tornou protetor da luz em tempos de guerra), representante este lado luminoso do novo processo civilizador em construção, ainda em andamento.
PROBLEMATICA ATUAL
Na atualidade, como já temos referenciado em outros artigos, o Messianismo judaico do novo sionismo supremacista e imperial, que tenta realizar a construção dum novo Israel do Nilo ao Eufrates e erguer de novo o III Templo de Salomão, como premissa para a chegada do Messias, está aliado ao Neo Imperialismo norte-americano e ao poder evangélico cristão, que acredita que com a construção do Grande Israel e do novo Templo, a Segundo Vinda de Cristo à terra será efetivada.
Piorando a situação, muitos cristãos sionistas acreditam no Armageddon como prenúncio da chegada do Cristo, não aparentado ter medo a um possível confronto nuclear, visionado como o Armageddon necessário para a segunda vinda de Jesus.
Introduzindo na diplomacia e geopolítica internacional um ideário escatológico, que derruba todo o sistema de relacionamento entre as nações, erguido nos finais da II Guerra Mundial e muito debilitado após o unilateralismo norte-americano de finais da Guerra Fria e inícios da globalização.
Nesta etapa de irrupção da multipolaridade, o mundo em concorrência entre as velhas potências em declínio e as novas em ascensão não encontra um marco legal internacional novo para encaixar nos novos reptos e nas novas fricções sendo que está a impor-se, para desgraça da humanidade, uma remodelação pela força. Antes uma força factual, mais pacífica, pela inércia do poder comercial chinês procurar uma expansão sem atritos, agora mais guerreira, por causa do declínio Ocidental com a irrupção dum belicismo neo imperial norte-americano, que vê no uso da força militar a única forma de reverter a ascensão dos seus novos adversários.
A escatologia judaica e cristã evangélica, ligada ao “destino manifesto” da superpotência norte-americana, nesta nova realidade em construção, marca uma visão onde a diplomacia internacional passa a ser um entorpecente no “sagrado dever” de construir o “espaço vital novo” para assentar o projeto religioso.
A necessidade de libertar terras para assentar população que possa encaixar no futuro projeto imperial israelense lembra aquele colonialismo britânico de substituição no norte da América.
A escatologia russa – da III Roma – e do bastião contra o “anti-cristo”, aliada da escatologia iraniana xiita – do Mahdi – como protetor dos justos, que permitirá a chegada do Cristo, desta vez como filho de Deus se unem para impedir que o projeto escatológico norte-americano e israelense tome corpo e crie um poder no Ocidente da Ásia que possa ditar as normas globais tanto à Rússia como ao Irão e à China, que veria interrompido o seu canal de rotas comerciais com centralidade nas cidades chinesas.
Assim, a China milenar – confucionista e taoista – que nada tem a ver com a visão escatológica se vê obrigada a tomar partido (já não pode seguir vendo o combate desde o alto da montanha) pois o seu novo poder comercial em expansão pode ser travado se o projeto escatológico israelense e norte-americano tomar corpo.
Estas dinâmicas, apesar dos grandes reveses do Israel no Líbano e mesmo em Gaza, e dos EUA e Israel na sua guerra contra o Irão e, mesmo da dependência do poder militar norte-americano dos minérios de terras raras chinesas, para a sua produção militar não auguram nada de proveitoso. O belicismo se estende. E as batalhas tomam corpo por todos os continentes, onde grupos pró EUA e grupos pró multi-polaridade, junto a grupos que tentam uma via intermédia (como as elites do Brasil ou da Índia) combatem em todas as áreas politicas.
O CONTEXTO ATUAL
Na atualidade, diversos projetos confluem dentro deste novo mapa geopolítico, onde a velha ordem surgida da II Guerra Mundial, e modificada no processo globalizador (aquele velho mundo “baseado em regras”) está praticamente morta.
A unidade ocidental do período globalizador se bifurca em três linhas de atuação, com três projetos alternativos e em certo modo conflituantes:
- a) O neo imperialismo norte-americano, fraturado o movimento MAGA e o setor soberanista anti-imperialista desprezado. O presidente Donald Trump tornou-se um ativo da nova doutrina imperial duma Super Potência, com direito auto atribuído à reitoria do mundo.
- b) A neo Commonwealth britânica: a vitória do “Brexit” permitiu as elites britânicas vitoriosas das lutas caseiras abandonarem o trem em recuo da globalização e rumar para um novo projeto integrador da anglo esfera. Tentando reunir e fundir as elites britânicas com as das antigas colónias, dentro duma centralidade londrina, com projeção ampla internacional e redes de apoio nos diversos países desta área de língua inglesa.
- c) o Projeto de Sobrevivência europeu, nascido por causa da dependência Atlântica aos EUA não ser já uma parceria estratégica adequada. O poder neo imperial norte-americano precisa colaterizar todas as riquezas dos territórios baixo o seu domínio para poder sustentar sua pirâmide de 47 triliões da sua insustentável dívida.
Entre o resto de potências temos:
- O projeto neo-otomano turco, agora com dificuldades crescentes após o fracasso da Síria, onde o governo está na aliança de Ancara, mas o pais está num processo que complica a margem de manobra regional do presidente turco Erdogan. O Projeto está em procura da unidade turcomana que, em muitos aspetos, se não houver profundos diálogos, pode conflituar com a Rússia dado muitos territórios da antiga União Soviética serem de raiz turcomana.
- O projeto do Eixo da resistência, liderado por Irão, que tenta, em primeiro lugar, expulsar Israel da região e depois unificar o mundo islâmico em torno de uma unidade xiita e sunita.
- O projeto Saudita de centro islâmico, com o poder central da Meca, que a China logrou intermediar para criar uma ponte com o Irão, que Israel-EUA tentam quebrar e que tem diferenças muito profundas com os Emirados Árabes Unidos. Agora, se não parar a guerra com o Irão, os Emirados estarão muito próximos duma situação limite e Arábia Saudita terá dificuldades. Daí os EUA estarem pressionados por seus aliados árabes (que o podem abandonar) para finalizarem a guerra enquanto Israel pressiona pela continuidade (na sua dinâmica escatológica de, primeiro derrubar o Irão para depois derrubar a Turquia e fazer-se dono incontestável de toda a região do Ocidente da Ásia).
- O projeto de integração da África francófona, liderado pelo Burkina Faso – e apoiado pela Rússia – em detrimento da França e da União Europeia (que estão abandonando a região, ante a impossibilidade de manter seu antigo controlo neo colonial).
- O projeto neo indigenista mexicano que, de seguir em frente, enterra o projeto hispanista, que tenta situar Madrid como centro duma futura hispanofonia e modifica o relacionamento com a União Europeia, que procura novas alianças para a sua sobrevivência.
- O projeto Brasileiro oceânico de independência da América do Sul e irradiação de laços com o hemisfério Sul, em confronto com o projeto neo imperial norte-americano que, entre outras aspirações, tenta dominar todo o continente americano. E com pontes abertas com outros territórios, como a China e a União Europeia daí que a Administração Trump tente derrubar governos europeus contrários à vassalagem do Velho Continente aos EUA, como o da Espanha ou da Itália.
- O projeto euro-asiático russo, que tenta irradiar sua proteção militar e seus relacionamentos civis, culturais, económicos e diplomáticos desde um novo centro Euro-Asiático, por todos os lugares do mundo onde possa fazer alianças, convertendo a Federação Russa numa potência global, novo poder internacional do novo mundo multipolar. Este é o novo projeto russo: aspeto em atrito com o poder britânico e europeu e menos com o norte-americano da Administração Trump (com quem aspira a um certo e difícil acordo, em varias áreas do globo).
- O projeto de expansão comercial chinês, com extensão mundial e tentativas de acordo geopolítico global para evitar guerras e manter a fluência dos negócios. Em atrito com o poder neo imperial norte-americano que visiona a China como o rival numero 1, com capacidade de derrubar, apesar de agora ainda que fraca e fragmentada, a hegemonia norte-americana. Mas acordado agora com a Europa da sobrevivência e bem interligado com a Federação Russa, por enquanto o grupo soberanista do presidente Xi Jinping continua no comando.
Será em outro artigo que iremos desenvolver as conjunturas e variáveis geopolíticas deste novo contexto atual, tão conflituoso, com vários projetos em andamento, tentativas de acoplamento e confronto pela supremacia regional ou global.
Mas agora vamos tentar indicar alguns mecanismos que possam levar a um entendimento e a possibilidade, agora um pouco longínqua – duma paz e segurança para tentar construir no curto e longo prazo uma confiança, que permita caminhar para uma nova estrutura diplomática dentro das relações internacionais.
A POSSIBILIDADE DA PAZ
Será primeiramente necessário no imaginário coletivo ir trabalhando algumas ideias, que de assentar na “noosfera” ou esfera do pensamento poderão dar frutos num futuro e criar sementes presentes, que possibilitem elevar a tónica evolutiva humana do mecanismo primário de ação-reação (próprio do cérebro reptiliano) e a visão de dominar ou ser dominado (que mantêm a humanidade presa ao ciclo das guerras) a uma visão mais próxima do diálogo permanente e da ajuda mútua.
1,-) Eliminar o conceito de dualidade – como luta dos contrários – para movimentar o sistema desde o caos até à ordem. Pela visão mais pacífica e realista da complementaridade dos contrários através do equilíbrio dos interesses por meio da busca dum diálogo abrangente.
2,-) Superar o conceito escatológico do fim dos tempos pelo conceito mais realista dos ciclos e das eras, com o entendimento da ascensão-expansão-e queda civilizacional como parte da mudança cíclica, entendendo o fim dos tempos muito longe como parte da reciclagem final do universo, contemplada na tradição indiana, com os tempos universais de Início- Fim- Descanso e Reinício (os ciclos de Manvantara ou Manuantara – e Pralaya).
3,-) Ver a chegada ou volta dos Messias ou Avataras (segundo as diversas tradições), com uma mentalidade mais aberta, como Regressos presentes em todas as tradições mitológicas da ordem depois da queda, como final dum período de entropia / declínio civilizacional e início de um novo processo civilizador, que dará uma nova tónica evolutiva à humanidade. Onde o regresso do filho de Deus (presente em todas as tradições) simboliza o regresso à ética, ordem e lei, junto à visão do imanente ter de estar unido ao transcendente: a lei e justiça humana como expressão, na face da Terra, da lei, ordem e justiça cósmica ou divina.
Começar a trabalhar a Tripla Transformação ou Libertação:
– Individual (cada ser humano transformar seu lado sombra até achar o equilíbrio emocional e utilizar com bondade, justiça e equanimidade o seu pensamento).
– Coletivo: dotar as sociedades de mecanismos para uma vez pacificado o ser interior, em diálogo aberto pacificar-se as polaridades sociais e pacificar-se com o entorno (deixando de ser predadores da paisagem a ser protetores da mesma).
– E da fraternidade humana ampliar esse diálogo a uma aberta comunhão entre os povos: entendendo as diversidades culturais, confessionais, políticas e unindo estas singularidades pela essência transcendente, mantendo a homeostase entre o imanente e o transcendente.
Por enquanto, como ensinou Krishna a Arjuna no Bhagavad Gita, defender o nobre evolutivo contra o desvio involutivo e, em caso de confronto inevitável, pela baixa tónica evolutiva da humanidade, aguardar que os exércitos dos nobres protetores vençam em toda a batalha justa os exércitos entrópicos dos predadores supremacistas, Aqueles loucos e fanáticos que, mal interpretando a escatologia, querem impor pela força o seu domínio ao resto dos povos sabendo que, neste caso de guerra necessária, confrontar a destruição, o karma pesado recai somente sobre os exércitos das trevas.
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Artur Alonso: escritor com vários livros editados de teatro, poesia, ensaio e romance… Ex diretor do Instituto Galego de Estudos Internacionais e da Paz. Ex secretario do Instituto Galego de Estudos Celtas. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono. Membro de Honra da Associação de Escritores.Mocambicanos na diáspora. Membro do Conselho de Redação da Revista Identidades, etc.










