Política

Carapuça | Xico Simonini

Foto de Jametlene Reskp na Unsplash

Cumpadre Paulo encontra-se, deverasmente, perdido, frustrado e malogrado, Galera querida, da minha terra querida. É de pirar com tamanha incoerência, com tamanho desatino, com tamanho disparate, com tamanho despropósito…

 

E não é mesmo, Galera, que os portugueses estavam com a razão quando ditaram este genial ditado? “Acender uma vela para Deus e outra para o Diabo.” Uma dita tal e qual de uma tal de Carapuça, das mais legítimas Carapuças. Tantas e quais e tais que vale o registro de seus vocábulos irmãos – Casquete, Barrete, Capuz. Sim, Carapuça! Aquela mesma, aquela peça enfiada na cabeça dos condenados pela Sacrossanta Inquisição ou seria Sacripanta Inquisição? Enfiar a Carapuça! Assumir a culpa! Uma vela aqui para o Deus queimada… Outra vela ali para o Diabo inflamada…

 

No fundo, no fundo mesmo, Galera, verrumando os miolos, pode-se chegar à conclusão tratar-se duma Paramentada Muvuca que não respeita as Leis de Deus e, logicamente, não respeita as Leis do Homem. Jamais colocaram, colocam ou colocarão a dita cuja  Carapuça.

 

Tamanha incoerência! Um desatino, um disparate, um despropósito…

 

E qualé mesmo a razão deste discurso todo?

 

Perguntaria a Galera querida, da minha terra querida! E, no mesmo diapasão, completaria: Se esta Galera, tão vivida e tão sofrida, conhecedora de longa data, como conhece o Cumpadre Paulo, não estiver enganada, vem muita ripada na chulipa e muita pimbada na gorduchinha, destinadas para alguma tal e qual Paramentada Muvuca. Esta Galera tá certa ou tá errada, Cumpadre Paulo?

 

Seguinte: Quanta contradição! Senão, vejamos, Galera:

 

A Paramentada Muvuca Evangélica defende com unhas e dentes, apoia com ungidas e benzidas, elege com améns e aleluias, não só um chefe de quadrilha, mas a quadrilha inteira, assim como sua toca, batizada de Escritório do Crime. Quadrilha torturadora, defensora do armamento, discriminadora das minorias, homofóbica, enumeradora duns et cetera e tais e quais.

 

Ah! Paramentada Muvuca! Quanta vela para Deus queimada… Quanta vela para o Diabo inflamada… Ultrapassando as fronteiras das arapucas, urupucas e aratacas, batizadas de Templos, ampliam suas práticas.

 

Domesticam… Amansam… Domam… Legiões de Imbecis, babacas, Idiotas para espalharem aos quatro ventos e aos quatro cantos, os ensinamentos do Pai, via Filho do Pai. Ensinamentos estes interpretados através de versões que tanto o Pai quanto o Filho do Pai jamais avalizariam. Amém?!?! Aleluia?!?!

 

Legiões compostas por mulheres, ridiculamente paramentadas, como se de uma peça bufa saíssem, peregrinam de porta em porta, empunhando a Bíblia, pregando o amor de Jesus, a compaixão de Jeová, o perdão de Javé. Enfim, a glória do Altíssimo.

 

Mulheres, ah! Mulheres! Longos cabelos, amarrados num rabo- de-cavalo, brilhantemente ensebado, braços, pernas, axilas e partes pudicas rogando uma gilete. Saia abaixo dos joelhos, blusa de mangas compridas e gola cobrindo o pescoço e, nos pés, uma sandália de um  e noventa e nove, Bíblia debaixo do braço.

 

Macabra toda pregação essa, né, Galera querida, da minha terra querida? Macabras todas essas mulheres! Sem Carapuça, acreditando estarem acendendo uma vela para Deus, ignorando estarem acendendo outra para o Demônio.

 

Macabras todas essas mulheres! Sem Carapuça, inda que ungidas por incontáveis dizimadas, nas dizimadas bolsas ungidas, de dizimadas ungidas consciências, de dizimados enganados pelos dizimadores: Ministros, Pastores, Clérigos, Padres, Sacerdotes. Aquela mesma Paramentada Muvuca… Infelizmente, sem a Carapuça dos condenados pela Sacrossanta Inquisição ou seria da Sacripanta? Inquisição. Amém?!?! Aleluia?!?!

 

É isso daí, porra! Taokei, Galera querida, da minha terra querida?

 

Arremata, de trivela, o Cumpadre Paulo! Pá! Pá! Pá! Pá!

 

Fotografia de Xico Simonini

 

Francisco Simonini da Silva (Xico Simonini)  nasceu em Viçosa, MG, no dia 18 de novembro de 1941. Em sua cidade natal, em Belo Horizonte (MG), Florestal (MG), Pará de Minas (MG), Divinópolis (MG), Piracicaba (SP), Assis (SP), Primeiro de Maio (PR), Juiz de Fora (MG), Cataguases (MG), Ponte Nova (MG) e, recentemente em Santo Antônio de Pádua (RJ) construiu sua trajetória de professor e administrador do sistema educacional, além de marcante atuação na imprensa e na militância político-partidária. Aposentou-se como professor-adjunto na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde exercia suas funções no Departamento de Educação, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Vem atuando, há mais de cinquenta anos, no sistema educacional público e privado (da educação infantil à pós-graduação), no ensino, pesquisa, extensão e administração. Por iniciativa individual ou coletiva participou da fundação de uma dezena e meia de escolas e cursos em todos os níveis. Sua trajetória é marcada por vigorosa atuação política, partidária e sindical e em campos diversos, como músico, desportista, comentarista esportivo, escritor, poeta, chargista e responsável pela publicação do semanário viçosense “Muzungu”.

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