Cultura

A diáspora esquecida: os judeus expulsos do Brasil e a fundação de Nova York | Wesley Sá Teles Guerra

Foto de Laura Siegal na Unsplash

Nos anais da história, há episódios que muitas vezes passam despercebidos, afogados no oceano dos eventos mais proeminentes. Um desses capítulos menos conhecidos, mas profundamente significativos, é a história dos judeus expulsos do Brasil no século XVII, um evento que desempenhou um papel crucial na fundação de uma das cidades mais emblemáticas dos Estados Unidos: Nova York.

 

O Contexto Histórico:

 

Durante a época colonial, o Brasil era uma terra de oportunidades e promessas para muitos, incluindo os judeus sefarditas que buscavam escapar da perseguição na Europa e estabelecer-se em um novo lar no Novo Mundo. No entanto, sua estadia no Brasil foi efêmera e marcada pela intolerância religiosa.

 

Na Europa, a expulsão dos povos judeus marcaram a história desde os tempo das cruzadas, muitas foram as cidades espanholas tais como Ribadavia, Toledo, Córdoba, Calatayud, Girona, Segovia, Lorca, Lucena, Sagunto que tiveram grandes colônias de origem judaica ou sefarditas que foram expulsadas, assim mesmo em Portugal, França e Itália fizeram o mesmo. A regra era clara ou bem se convertiam ao cristianismo, os famosos “novos cristãos”, ou eram despojados de suas casas e terras.

 

Judeus em Portugal. Foram expulsos em 1496.

 

O Brasil, por ser um território vasto diante dos limites demográficos de Portugal para ocupar todo o território, foi disputado por outras potências tais como França e Holanda, que chegaram a estabelecer controle e a fundar cidades no Brasil. São Luiz do Maranhão por exemplo foi fundada por franceses e nomeada em homenagem ao Rei Luiz da França, assim mesmo cidades como Recife foram fundadas ou conquistadas por holandeses. Embora o domínio holandês no Brasil tenha durado somente desde 1630 a 1654 deixaram uma profunda marca no nordeste brasileiro.

 

Em 1654, Portugal recuperou o controle do Brasil dos neerlandeses, que haviam permitido a presença judaica na colônia. Com o restabelecimento do domínio português, a Inquisição católica se intensificou e os judeus novamente se encontraram na mira. Diante da ameaça de perseguição religiosa, muitos judeus optaram por deixar o Brasil em busca de refúgio em outras terras.

 

O Exílio e a Fundação de Nova York:

 

No meio da incerteza e do medo, um grupo de 600 judeus sefarditas a bordo da embarcação Valk decidiu embarcar em uma jornada para o norte, em busca de um novo lar onde pudessem praticar sua fé sem temor à perseguição. Em agosto de 1654, eles chegaram à colônia neerlandesa de Nova Amsterdã, na atual ilha de Manhattan. Entre eles 23 famílias, com uma economia poderosa, fruto do mercantilismo em terras brasileiras.

 

Sinagoga na cidade do Recife. Fonte: Wikipedia

 

Embora inicialmente tenham sido recebidos com ceticismo pelas autoridades neerlandesas, os judeus sefarditas do “Brasil” encontraram um aliado inesperado em Peter Stuyvesant, o diretor geral da colônia. Apesar de sua própria intolerância religiosa, Stuyvesant reconheceu o valor de ter colonos trabalhadores e comerciantes na cidade, com experiência no tráfico colonial  e permitiu que os judeus se estabelecessem em Nova Amsterdã.

 

O Recife esteve sob domínio da Holanda e até mesmo foi urbanizada por holandeses.

 

Com o tempo, a pequena comunidade judaica sefardita “brasileira” cresceu e prosperou em Nova Amsterdã, contribuindo para o crescimento e a diversidade cultural da cidade e atuando como chamariz de outras comunidades judaicas ao redor do mundo. Em 1664, quando os ingleses assumiram o controle da colônia e a rebatizaram como Nova York, a presença judaica já estava firmemente enraizada no tecido social e econômico da cidade.

 

Atualmente, a cidade com 8 milhões de habitantes possui aproximadamente 2 milhões de judeus e tudo começou pelo Brasil… Um exemplo de como os movimentos migratórios podem mudar a história de um país e de uma nação…

 

O Legado dos Judeus Expulsos:

 

A chegada dos judeus sefarditas do Brasil Holandés a Nova York marcou o início de uma nova era na história da cidade e sua rede de comunicações interna permitiu a chegada de novos colonos. Sua influência pode ser vista em todos os aspectos da vida nova-iorquina, desde a arquitetura e gastronomia até à política e cultura. Embora a herança em terras brasileiras seja por muitos desconhecida.

 

Hoje, Nova York é lar de uma das maiores e mais vibrantes comunidades judaicas do mundo e seu legado perdura nos inúmeros monumentos e locais de importância histórica que homenageiam a contribuição dos primeiros colonos judeus à cidade. Assim mesmo no Brasil, após a independência de Portugal e a instauração da república, centenas de judeus encontraram refúgio em São Paulo, principalmente durante a II Guerra Mundial, sendo o epicentro dessa colônia o bairro de Higienópolis onde se localizada a famosa sinagoga de Betel, sendo um ponto de referência a personalidades judaicas que existem no Brasil tais como Serginho Groisman e Luciano Huck, este último pré-candidato à presidência.

 

A ilusão sionista evangélica do Brasil atual.

 

No Brasil, a religião judaica historicamente foi vista como uma ameaça ou com um forte preconceito e rejeição, bastava com que uma pessoa possuísse um Menorah em casa (castiçal judaíco) para ser levado diante da Inquisição. O país seguia as políticas de Portugal e os ditames da Igreja Católica Apostólica Romana. Somente em 1810 com o Tratado entre Portugal e o Reino Unido, a liberdade de culto (ainda que limitada aos brancos), foi instaurada no Brasil colônia, sendo a primeira sinagoga (dentro do domínio português e sem contar com o período colonial holandês no nordeste) fundada em 1824 em Belém, continuando em atividade nos dias atuais.

 

Com a proclamação da República e o fim da escravidão, começou o período dos diversos fluxos migratórios da Europa para o Brasil, etapa que foi desde o final do século XIX a metade do século XX. Nessa época, a diáspora judaica, vinda de diferentes pontos do planeta aumentou consideravelmente no Brasil e se transformou na segunda maior colônia de judeus da América Latina.

 

Sinagoga Bethel, em São Paulo. Fonte: Wikipedia

 

Por outro lado, as igrejas evangélicas começaram a entrar no Brasil a partir da década de 60, grande parte delas de origem norte-americana, que seguiam a ética weberiana que formatou a sociedade dos Estados Unidos e o American way of life graças à sua obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, trazendo consigo uma maior tolerância aos grupos judaicos graças à sua teologia da prosperidade e a primogênia do povo judaico, “os escolhidos de Deus”, fazendo um paralelismo entre eles e o povo de Israel.

 

O que o povo evangélico parece negligenciar é o fato de que dentro do Judaísmo a figura de Jesus é vista como um falso profeta e que o povo convertido à fé cristã sem origem judaica, não está relacionado com Israel, mas com o “Gentis” defendido por São Paulo.

 

Assim mesmo, a denominação semita não somente se refere ao povo judeu, mas a todos os povos, culturas e etnias da região o que inclui aos palestinos.

 

É comum ver evangélicos ecoando um discurso sionista e ignorando seu próprio papel dentro da cultura de Israel, se apegando a elos que jamais foram consolidados.

 

Oswaldo Aranha, o diplomata brasileiro defensor da criação de um Estado para Israel e outro para a Palestina.

 

Por outro lado, o Brasil teve um papel fundamental na formação do Estado de Israel, já que foi o diplomata brasilerio Oswaldo Aranha que abriu a Assembleia das Nações Unidas onde se decretou a partilha da Palestina, motivo que gerou a tradição de que seja o Brasil sempre o país em abrir a sessão da ONU. Sem dúvida, o acordo contemplava a criação de dois estados, o de Israel e o da Palestina, sendo que este último jamais chegou a ser reconhecido pelas Nações Unidas, sendo seu território pouco a pouco ocupado pela Estado de Israel que se declarou soberano em toda a região e levou praticamente à extinção da Palestina, restando somente a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, com uma autoridade nacional submissa a Israel. O Hamas, assim como o Hezbollah jamais foram de fato as forças dominantes no cunho estatal da Palestina, mas grupos de contra poder e oposição a Israel. Sendo necessário diferenciar as coisas, uma coisa é o Estado de Israel como ente político e de direito internacional que se caracteriza por ser um país “ocidental”, mas que porém não possuí estado laico, outra coisa é o Judaísmo como religião e sistema de crenças, assim como uma coisa é a autoridade Palestina que atua no governo da região sujeita às limitações de Israel e outra é o Hamas como grupo armado alheio à organização estatal da região. Por outras palavras, apoiar a atual guerra seria o mesmo que apoiar um ataque ao Brasil devido ao Comando Vermelho ou ao PCC.

 

A proposta inicial da ONU seria criar dois Estados: o de Israel e o da Palestina.1

 

É importante conhecer a História, os elos e as sinergias, porém sem cair em posicionamentos ou defender o indefensável…

 

A história dos judeus expulsos do Brasil durante o período colonial  e a fundação de Nova York, o papel dos judeus durante a etapa colonial ou do Brasil na formação do Estado de Israel e,  posteriormente, a sua defesa da população Palestina são um lembrete da importância do diálogo, do pensamento científico e do conhecimento histórico, além da preservação da vida, da liberdade de culto, do direito à autonomia e de que ninguém deve pagar pelos erros do passado. Ninguém é especial aos olhos dos direitos  humanos e que vítimas não entendem dessas questões, são somente vítimas… 

 

fotografia de Wesley Sá Teles Guerra.

Wesley Sá Teles Guerra, formado em Negociações Internacionais pelo Centre de Promoció Econômica del Prat de Llobregat (Barcelona), Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, Pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, MBA em Marketing Internacional pelo Massachussetts Institute of Business, MBA em Parcerias Globais pelo ILADEC, Mestrado em Políticas Sociais com especialização em Migrações pela Universidade de A Coruña (Espanha), Mestrado em Gestão e Planejamento de Cidades Inteligentes (Smartcities) pela Universitat Carlemany (Andorra) e doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Contemporânea Internacional. 

Atuou como paradiplomata e especialista em cooperação internacional e smartcities para a Agência de Competitividade da Catalunha (ACCIÖ – Generalitat de Catalunya), atualmente é colaborador sócio do Instituto Galego de Análise e Documentação internacional (IGADI) e do Observatório Galego da Lusofonia (OGALUS), Também participa como coordenador da área de Economia, Ciência e Tecnologia do CEDEPEM – UFF.

Idealizador e diretor do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais, membro do Smart City Council, do IAPSS International Association for Political Sciences Studentes, do Consório Europeu para a Pesquisa Política, REDESS, Centro de Estratégia e Inteligência das Relações Internacionais e colaborador da ANAPRI.

Autor dos livros ”Cadernos de Paradiplomacia” (2021) e “Paradiplomacy Reviews” (2021) além de participar do livro “Experiências de Vanguarda, no ensino nos países lusófonos” publicado em 2021 pelo CLAEC e organizado pela Dra. Cristiane Pimentel. 

Professor, articulista e especialista: wesleysateles@hotmail.com

Qual é a sua reação?

Gostei
1
Adorei
1
Sem certezas
0

Também pode gostar

Os comentários estão fechados.

More in:Cultura